A reação à militarização

Discurso de Obama sobre a orientação da política externa dos EUA divide os críticos

PETER, BAKER, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

30 Maio 2014 | 02h04

As opiniões que o presidente Barack Obama tem ouvido sobre sua política externa deixam-no profundamente frustrado. Síria? Ucrânia? Afeganistão? O que mais os críticos querem que ele faça? Ir a uma nova guerra? Continuar combatendo naquela que já se tornou a mais longa da história dos EUA? Obama, há mais de cinco anos na presidência, está cada vez mais convencido de que os EUA, embora desempenhem um papel vital além de suas fronteiras, não deveriam se deixar arrastar para o terreno movediço das crises internacionais que enredaram alguns dos predecessores do democrata.

Para os críticos, principalmente os da direita, mas também alguns da esquerda, essa é uma receita para a passividade, o fim de décadas de liderança. Obama aproveitou o discurso que pronunciou na formatura dos cadetes de West Point, na quarta-feira, para definir uma estratégia de política externa que julga adequada e espera que dure além do seu mandato.

"É uma tentativa de Obama de elaborar uma doutrina que leva em conta o que pensamos a respeito do mundo depois que vencemos o Taleban e seus aliados", disse Peter Bergen, especialista em segurança nacional da New America Foundation. "Uma política de prudente moderação não desperta grande entusiasmo e não se presta a uma retórica contundente, mas talvez seja a estratégia mais sábia e com certeza é a que mais agrada ao público americano."

Obama até jogou dos dois lados, usando as expressões "nação indispensável", favorita dos democratas durante o governo Clinton, e "excepcionalismo americano", cara aos republicanos desde então. Mas o presidente, que em seu primeiro mandato fez uma campanha implacável com drones contra os terroristas e autorizou a operação que matou Osama bin Laden, pareceu preocupado em estabelecer um novo grau de exigência para o emprego da força.

Com a retirada das tropas do Afeganistão até o final de 2016, como já fez no Iraque, ele destacou que chegará ao fim o envolvimento dos EUA em duas guerras. Limitando-se a treinar e a equipar os aliados regionais, Obama transfere mais para eles a responsabilidade da guerra contra os terroristas.

De certo modo, o seu foi um argumento falacioso, porque até seus adversários mais ferozes não são a favor do emprego das forças terrestres americanas para conter a intervenção russa na Ucrânia ou para deter a guerra civil na Síria. "Eu trairia o meu dever com vocês e com o país que amamos", acrescentou, "se os enviasse para pôr em risco sua vida apenas por detectar um problema em alguma parte do mundo precisando ser solucionado, ou por estar preocupado com os críticos segundo os quais uma intervenção militar é a única maneira de os EUA evitarem mostrar-se um país fraco", disse.

Peter Feaver, ex-assessor do presidente George W. Bush e professor de ciências políticas da Duke University, disse que o discurso teve "um tom extremamente partidário e defensivo". Richard Haass, que também trabalhou para o governo Bush e rompeu com ele em razão da guerra do Iraque, disse que o discurso tentou estabelecer a diferença exata entre os que acham que os EUA estão fazendo demais e os que acham que estão fazendo de menos. "Mas não apresentou uma justificativa lógica para o que deveríamos estar fazendo", disse Haass, hoje presidente do Conselho de Relações Exteriores.

O discurso permitiu que o presidente expressasse aborrecimento. Às vezes, Obama pareceu responder diretamente a um crítico, Robert Kagan, cujo longo artigo de primeira página da revista The New Republic, intitulado Superpowers Don't Get to Retire (Superpotências não têm a opção de se aposentar), argumentava contra o recuo da liderança dos EUA depois da 2.ª Guerra.

Obama disse que os defensores do intervencionismo da esquerda e da direita afirmam "que a disposição dos EUA para aplicar a força em todo o mundo é a última salvaguarda contra o caos e o fato de os EUA não agirem diante da brutalidade síria ou das provocações russas não só viola nossa consciência como convida a uma escalada da agressão no futuro". Mas, acrescentou, "desde a 2.ª Guerra, alguns dos nossos erros mais dispendiosos não foram o resultado da nossa moderação e sim da nossa decisão de nos atirarmos em aventuras militares sem pensar nas consequências".

A resposta foi interessante porque, no passado, Obama apoiou coisas que Kagan escreveu. Embora Kagan tenha sido um destacado defensor da guerra no Iraque, Obama gostou dos seus escritos que acabavam com o mito do declínio americano. A mulher de Kagan, Victoria Nuland, trabalha para Obama e ocupa o cargo de secretária de Estado assistente.

Na quarta-feira, Kagan disse que a "última linha de salvaguarda" de Obama é uma justa e correta representação do que seu ensaio afirma. E disse que o que o presidente afirmou a respeito do seu ponto de vista foi "a declaração mais clara dessa posição jamais feita por Obama".

Para Kagan, trata-se de "uma definição mais limitada do interesse nacional do que a tradição que se seguiu à 2.ª Guerra". Ele acrescentou que Obama aparentemente chegou à conclusão de que ela se coaduna com o espírito americano. "Ele estabeleceu uma espécie de diálogo com o povo americano", disse Kagan, "e acho que concluiu que ele ficaria feliz se jamais tivesse de usar a força". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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