A real guerra de ideias

Choque de visões no Mediterrâneo divide ambientalistas e extremistas

THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2014 | 02h04

A tomada da cidade iraquiana de Mossul por extremistas sunitas salienta o choque de visões de mundo no Mediterrâneo oriental que vi de perto na minha visita ao Curdistão há alguns dias. E não é o que você pensa.

Não é o governo iraquiano eleito, chefiado pelo premiê Nuri al-Maliki, contra os extremistas sunitas. Maliki é um tirano que governa como um chauvinista xiita, assim como os militantes sunitas promovem o chauvinismo sunita. Ambos são perdedores.

A verdadeira guerra de ideias é a que ocorre entre os extremistas religiosos (sunitas e xiitas) e os ambientalistas atuantes. Ambos estão tentando apagar as fronteiras do Oriente Médio, mas por razões muito diferentes.

Tanto os extremistas quanto os ambientalistas acreditam que sua visão só triunfará se for possível imaginar a extinção das fronteiras de Síria, Iraque, Turquia e Líbano e governar a região como um único sistema político ou ecossistema.

Se os extremistas vencerem, a região se tornará uma zona de desastre humano e ecológico. Se os ambientalistas vencerem, será porque um número suficiente de pessoas percebeu que, se não aprenderem a dividir esse espaço, ou destruiriam uns aos outros ou a mãe natureza destruiria todos eles.

Em minha estadia no Curdistão, encontrei-me com alguns ambientalistas. Sua visão é de que o Oriente Médio pode ser dividido em Estados separados, mas só pode ser governado hoje em benefício da maioria se for pensado como um ecossistema hídrico e biológico único.

Nos anos 90, a região do Curdistão, no Iraque, foi submetida a sanções duplas - as da ONU ao Iraque de Saddam Hussein e as de Saddam ao Curdistão. Por isso, eles desflorestaram maciçamente suas encostas de montanhas para obter lenha para energia, eliminando o carvalho curdo nativo e a cadeia alimentar que sustentava a fauna, como o leopardo persa.

Campos minados. É por isso, disse Azzam Alwash, presidente da Nature Iraq, que o único lugar onde o leopardo persa ainda sobrevive é a fronteira Iraque-Irã, que continua tão repleta de minas terrestres "que os caçadores não se arriscam por ali". E, apesar de um leopardo pisar de vez em quando numa mina, os campos minados limitaram de tal forma a atividade humana que a natureza tornou a florescer ali.

O problema real, porém, segundo ele, é a água, que está se tornando tão preciosa que hoje custa por litro quase o dobro do que a gasolina que os iraquianos consomem em seus carros.

As nascentes dos Rios Tigre e Eufrates estão nas montanhas habitadas por curdos turcos e iraquianos. No entanto, o aumento das secas, a necessidade de água para fazendas, a população crescente na Turquia e as demandas da indústria do petróleo no Iraque se combinaram para desacelerar o fluxo dos dois grandes rios por Síria e Iraque.

Quanto aos extremistas, o jornal The Financial Times exibiu um mapa do Oriente Médio intitulado "Guerreiros Sem Fronteiras", com setas coloridas mostrando o fluxo de combatentes sunitas, xiitas e curdos de um lado para outro por toda a região, ignorando fronteiras.

Os ambientalistas imaginam essa região sem fronteiras porque somente se ela for gerida como um sistema de bacia fluvial integrado será possível administrar de maneira sustentável.

Os extremistas querem apagar as fronteiras porque só se ligando a seus compatriotas de Líbano, Síria, Iraque, Curdistão e Turquia cada seita ou grupo étnico terá a esperança de escapar de ser governado pelo outro. O Mediterrâneo oriental só terá um futuro se o "ismo" que ele escolher for o ambientalismo - não o pan-xiismo, sunismo, turquismo, curdismo ou islamismo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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