A realidade supera a ficção

Mais um "filme-catástrofe" que os homens projetam para si mesmos, sem precisar nem de câmera nem de atores muito caros. A realidade supera a ficção.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2012 | 03h03

O acaso que rege o mundo, ou antes os deuses que organizam nossas sociedades, tem mais imaginação do que o roteirista mais criativo de Hollywood. No caso do naufrágio do Costa Concordia, ao largo da Toscana, o próprio cenário (a ilha italiana e o monstro metálico encalhado nos rochedos como um animal pré-histórico) é digno do melhor dos cinemas em 3D. O elenco é dos mais seletos: o pobre comandante do Concordia, Francesco Schettino, com sua covardia, suas mentiras e suas baixezas, mereceria o Oscar de melhor ator.

Evitemos voltar para as imagens do barco e do seu comandante arrasados, que estão sendo exibidas há dias no mundo inteiro. O desastre suscita todo tipo de pergunta, em primeiro lugar a do gigantismo.

Por razões de lucratividade, há muito tempo, os navios de cruzeiro são lançados ao mar numa corrida ao mastodôntico. O Titanic, que foi a pique em 1912, já tinha 269 metros de comprimento e transportava 2.435 passageiros. O Titanic não acalmou o frenesi dos homens, o que os gregos chamavam de sua "hubris" (arrogância). O Costa Concordia que se acidentou a 50 metros da costa italiana transportava 3.780 passageiros. E a companhia que administra o navio já anuncia outro barco maior ainda, que poderá transportar 4.968 turistas.

Mas o recorde mundial é o do Allure of the Sea, um monstro de mais de 350 metros que cruza o Mar do Caribe com um máximo de 5.400 passageiros, aos quais se acrescentam 2.164 membros da tripulação.

O Allure of the Sea tem a altura de um edifício de 20 andares! E os escritórios de engenharia já trabalham em projetos ainda mais delirantes: um deles prevê a instalação no interior desses barcos um minimetrô de maneira que a tripulação possa se deslocar rapidamente nas instalações.

Evidentemente, ninguém se aventura a fazer previsões sobre o preço do desastre do Concordia. Só há uma certeza: ele será enorme. A organizadora dos cruzeiros, a empresa americana Carnival, calcula que o naufrágio terá um impacto sobre suas contas de 95 milhões, uma cifra fantástica. Por enquanto, não se pode arriscar nenhuma hipótese.

A embarcação, que custou 475 milhões, sofrerá reparos caríssimos, mas ainda não foi divulgada a perícia. Por outro lado, há uma primeira estimativa das seguradoras: a fatura para elas poderá chegar a 750 milhões, o que tornaria o naufrágio do Concordia a catástrofe mais cara de toda a história marítima. Essa corrida ao monstruoso é significativa numa época que procura continuamente superar os próprios recordes: a maior bilheteria de um filme, o best seller editorial, o edifício mais alto do mundo, a favela mais populosa, a mulher que se casou mais vezes, a que conseguiu com o divórcio a pensão alimentícia mais elevada, o homem mais velho do planeta, etc...

Como explicar esta busca do enorme? Indubitavelmente, trata-se de uma perversão do gênio humano que tem sonhos de super-homem. Mas há também, principalmente, a preocupação com o lucro. O maior custa menos. Na França, está sendo projetado um novo navio de cruzeiro, o France. Ele só transportará 500 passageiros. Será preciso dizer que o preço do cruzeiro será infinitamente mais elevado? Por uma semana de viagem, seus passageiros pagarão entre 2 mil e 7 mil.

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