Ted Aljibe/AFP
Ted Aljibe/AFP

A reclusão de 200 mil em navios sem porto 

Pandemia de coronavírus deixa marinheiros confinados em cruzeiros, aguardando autorização para voltar para casa

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2020 | 03h00

MANILA - Tejasvi Duseja não aguenta mais: a última vez que o marinheiro indiano pisou em terra firme foi há cinco meses. A culpa é do coronavírus, que impediu a rotação das tripulações e condenou mais de 200 mil marinheiros a um confinamento sem fim nos oceanos do planeta.

Todos eles, sejam engenheiros em cargueiros, garçons em cruzeiros de luxo ou cozinheiros em balsas, esperam há meses para retornar para casa. Os confinados vivem uma situação dramática, que a ONU já considera como uma grave crise humanitária que já teria causado vários suicídios.

Muitos ficaram presos nos navios em que trabalhavam, porque as restrições nas fronteiras impedem a chegada de pessoal para substituí-los. “Psicologicamente, não aguento mais. Mas tenho de ser forte, porque não tenho outra escolha”, disse Duseja à agência France Presse, em junho, via WhatsApp, do cargueiro indiano em que trabalha, que está ancorado nas águas da Malásia. “A última vez que desci deste barco de 200 metros foi em fevereiro.”

Duseja é um dos 30 mil marinheiros indianos presos no navio. Ele havia estendido seu contrato alguns meses antes da propagação da pandemia. Os marinheiros, geralmente, trabalham de seis a oito meses embarcados antes de serem substituídos. No entanto, a covid-19 interrompeu essa dinâmica, causando um pandemônio nas viagens internacionais.

“Atualmente, existem mais de 200 mil marinheiros presos no mar que já excederam o prazo de seus contratos”, disse Guy Platten, secretário-geral da Câmara Internacional de Marinha Mercante (ICS). “Esses heróis esquecidos do comércio mundial trabalham 12 horas por dia e 7 dias por semana para nos fornecer alimentos, remédios e combustível nessas horas difíceis.”

A situação é tão séria que, no início de julho, durante a cúpula marítima internacional no Reino Unido, uma dúzia de governo prometeu reconhecer a profissão como “essencial” para permitir que esses funcionários marítimos voltassem para casa.

Cherokee Capajo, filipino de 31 anos, técnico em um cruzeiro de luxo, passou meses no mar, em razão da incapacidade de desembarcar em razão das restrições impostas pelo coronavírus.

Ele mal tinha ouvido falar da covid-19 quando embarcou no Carnival Ecstasy, em janeiro, na Flórida. Mas não precisou esperar muito para ver vários navios da empresa Carnival serem completamente isolados em razão da presença do vírus a bordo.

Os passageiros do Ecstasy desembarcaram no porto americano de Jacksonville, na Flórida, em 14 de março, mas Capajo e seus colegas foram forçados a permanecer a bordo por sete semanas.

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Em 2 de maio, o navio partiu para as Bahamas, onde seus 1,2 mil tripulantes foram transferidos para outro navio, que os levou a Jacarta, na Indonésia, e depois a Manila, nas Filipinas, onde chegaram em 29 de junho.

Ao desembarcar, a única coisa que Capajo queria era beijar a terra firme. “Talvez essa tenha sido minha pior experiência marítima”, garantiu ele em entrevista via Messenger, enquanto passava por uma segunda quarentena, perto da cidade onde mora, na região central das Filipinas. 

Cerca de um quarto dos marinheiros retidos no mar são filipinos. Segundo as autoridades das Filipinas, cerca de 80 mil estão presos em navios ao redor do mundo. Em maio, um filipino morreu depois de se mutilar a bordo do Scarlet Lady, ancorado na costa da Flórida, segundo a Guarda Costeira dos Estados Unidos.

Os marinheiros expressaram preocupação em uma carta enviada ao secretário-geral da ONU, António Guterres, na qual escreveram, no mês passado, que alguns estavam presos em seus navios há 15 meses, quando a convenção marítima limita os embarques a uma duração máxima de 12 meses. / AFP

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