A regra interna que criamos

Como muitos animais, repetimos o mesmo comportamento sem nos questionarmos por que estamos agindo assim

Barry Goldman, Los Angeles Times, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2011 | 00h00

Jacob é um golden retriever. Como muitos cães dessa raça, sua atividade predileta é buscar e trazer de volta uma bola de tênis. Nós atiramos uma bola, ele a traz de volta e a larga aos nossos pés. Isso pode continuar durante horas. Na verdade, não sabemos quanto tempo isso duraria porque sempre desistimos antes dele.

Mas Jacob às vezes vive um impasse quando fazemos esse jogo na piscina de meus parentes. Isso por causa de duas regras internas fixas que ele possui. A primeira é que ele deve permanecer em terra até chegar o mais perto possível da bola e aí nadar o restante do caminho. A segunda regra é que ele deve entrar na água gradualmente. Ele não saltará da borda.

Isso facilita a brincadeira no Oceano Pacífico, mas a piscina coloca um problema. Se a bola estiver mais perto de uma das bordas da piscina do que está dos degraus, tudo que ele faz é correr até a borda mais próxima, olhar par a bola tremendo de excitação e latir.

Cientistas cognitivos chamam esse tipo de dificuldade de "sphexidade", pelo comportamento da vespa sphex (também conhecida como vespa cavadora) fêmea. Ela aferroa e paralisa um grilo, guarda-o num buraco numa árvore e deposita seus ovos nele. Quando os filhotes de vespa saem dos ovos, eles têm um grilo fresco para comer. Mas a mamãe sphex também tem uma regra interna. Quando traz um grilo para a abertura do buraco, ela sempre entra para dar uma olhada antes de arrastá-lo para lá. Se um pesquisador mover o grilo para alguns centímetros de distância enquanto a sphex está dentro do buraco, ela repetirá o processo, trazendo o grilo de volta à abertura e entrando para dar uma olhada. Se o pesquisador mover o grilo novamente, a vespa repetirá o comportamento. Sua regra interna pede que olhe dentro do buraco antes de arrastar o grilo para dentro, e é isso que ela fará. Se o pesquisador mover o grilo 40 vezes, a sphex repetirá o comportamento 40 vezes. Não sabemos quantas vezes mais ela o faria porque os pesquisadores sempre desistem.

É divertido observar a "sphexidade" em animais. O truque, é claro, é sermos capazes de reconhecê-la em nós mesmos. Quais comportamentos nós, humanos, repetimos sem perceber vezes sem conta por alguma regra interna não questionada? A que circuito de estupidez inteiramente evitável estamos presos? Eis alguns candidatos: Continuamos a pensar que os americanos, por mais loucos que sejam, devem poder comprar armas, por mais letais que sejam. Columbine não teve nenhum efeito. Virginia Tech, nenhum efeito. Lunático após lunático, um assassinato sem sentido após outro, nada muda.

Alguém como Jared Loughner, que não parece saber se está a pé ou montado num cavalo, pode entrar numa loja de artigos esportivos e sair com uma arma semiautomática quase tão facilmente como pode comprar um saquinho de bolas de tênis. Continuamos a acreditar que as empresas podem regular-se a si mesmas.

Gananciosos de Wall Street quase explodem a economia mundial com seus instrumentos financeiros sintéticos insensatos, e nós continuamos a acreditar que a regulamentação pública de mercados financeiros asfixia a inovação. Gastamos centenas de bilhões de dólares em dinheiro do contribuinte para tentar consertar as consequências de suas inovações mais recentes e, no entanto, persistimos na crença de que regulamentar o setor pode ser não americano. Não podemos nem sequer convocar a vontade política para pressionar empresas para reduzirem salários e bônus dos mais egrégios facínoras.

Persistimos despejando sangue e riquezas intermináveis na guerra inútil e interminável às drogas. Após 40 anos, inúmeros bilhões de dólares e incontáveis vidas desperdiçadas na prisão, ainda é mais fácil um adolescente em Detroit comprar um papelote de cocaína do que uma embalagem com seis latas de cerveja. Quanto o crime organizado não terá enriquecido com o fato de as drogas serem ilegais? Quantas crianças não foram mortas nessa guerra?

Continuamos a acreditar - contra toda a lógica, todas as evidências e toda a experiência - que dar dinheiro à indústria de seguros com fins lucrativos é a maneira de prover assistência médica aos pobres e doentes. Não há dinheiro suficiente em assistência médica para instituições sem fins lucrativos fazerem uma tentativa, mas acrescentar uma camada de investidores para remover o topo as fará funcionar.

Continuamos a acreditar nas fantasias de bombas inteligentes, ataques cirúrgicos e guerras limitadas.

E continuamos a imaginar que um governo financiado por lobistas corporativos e dedicado a nenhum princípio superior do que impostos mais baixos vá ser o guardião do interesse público.

Essas ideias não estão funcionando desta vez. Elas não funcionaram na última vez ou na vez anterior a essa. Não sabemos por quê. E estamos todos parados aqui, latindo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É ADVOGADO, MEDIADOR DE DISPUTAS TRABALHISTAS E ESCRITOR

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