A reinvenção do Peru após o abismo

O país está crescendo graças à boa safra de políticas econômicas e reformas institucionais e uma nova liderança, que se redimiu pelos fracassos do passado

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

Quando os grandes investidores e analistas de mercado miram o mundo, os países pequenos geralmente ficam às sombras. Afinal, como concorrer com as taxas de crescimento de portentos como China ou Índia, ou mesmo Brasil? Jim O"Neill, economista-chefe do Goldman Sachs, que no início da década cantou a bola dos Brics, recentemente descartou a possível inclusão da letra "a" de África na sigla dos super-emergentes, mesmo com as economias daquele continente em ebulição. O que dizer então de reles pretendentes como Peru?

Sua economia, de US$ 147 bilhões, é apenas a sexta do continente. A pobreza, embora em queda, ainda aflige 35% de sua população de 29 milhões. Mas há algo de novo nesse canto da cordilheira andina que desperta atenções e apetites graúdos mundo afora.

Enquanto seus vizinhos da Aliança Bolivariana sofrem com fuga de capitais e, no caso da Venezuela, uma severa recessão, o Peru está em franca ascensão. Seu PIB cresceu à taxa de 6,8% ao ano de 2002 a 2008 e deve terminar o ano 8% mais gordo, o melhor desempenho do hemisfério.

As commodities de gás natural a produtos pesqueiros estão em alta, aquecendo o mercado interno. Empresários da Ásia, Europa, Estados Unidos e América Latina desfilam pelo novo aeroporto internacional de Lima, empunhando contratos e planos de expansão. Carros importados congestionam as ruas da capital enquanto outrora sonolentas cidades médias como Ica e Arequipa ostentam shopping centers e arranha-céus.

O boom econômico não é a causa do bom momento peruano, mas a consequência. O Peru está se reinventando, graças à boa safra de políticas econômicas e reformas institucionais, criadas na tragédia, e uma nova liderança, que se redimiu pelos fracassos do passado.

É difícil imaginar hoje, mas por pouco o Peru não se tornou uma nação falida. Há 25 anos, era um país acometido pela hiperinflação, corrupção e pobreza extrema, com investimentos em queda livre - obra coletiva de um populismo de quinta. Em meados da década de 80, enquanto o charmoso presidente Alan García tocava seu violão e encampava bancos, a inflação quadruplicou (chegando a 7.500% em 1990) e a guerrilha maoista do Sendero Luminoso atormentava a zona rural. Para não ser preso, García fugiu do Peru e deixou sua pátria em cacos. O Peru viveu uma guerra de terror e contraterror que imolou duas décadas e quase 70 mil vidas.

Talvez um país precise encarar o abismo para poder se reerguer. Foi o caso do Peru, que ainda amargou a esquizofrênica presidência de Alberto Fujimori, que esmagou a guerrilha e abateu a inflação ao mesmo tempo em que dissolveu o Congresso, nutriu a cleptocracia peruana e acabou incentivando a violência que jurava conter (hoje ele está no segundo ano de uma sentença 25 por violação de direitos humanos e corrupção).

Entra Alejandro Toledo, o ex-engraxate de origem quíchua que, bem antes de Evo Morales da Bolívia, usou suas raízes indígenas para chegar ao poder. Toledo imediatamente reabilitou a democracia e estabilizou a economia. Mas a louvada reforma tropeçou na miséria e a desigualdade milenar, azedando a sua lua de mel andina.

O coro de vaias que destituiu Toledo do poder devolveu o bardo García, só que desta vez com uma partitura irreconhecível. Redimido do populismo, García voltou quieto e se transformou em paladino do pragmatismo. Conteve a inflação, patrocinou uma lei de responsabilidade fiscal e garantiu as regras do jogo do capitalismo.

Calhou a ascensão da economia chinesa, que sugou desde mariscos a minérios. As exportações do país aumentaram quatro vezes, de US$ 7 bilhões em 2000 a US$ 32 bilhões em 2008. E não apenas para China, que compra um quinto dos bens peruanos, a mesma proporção que vai para cada um dos mercados principais do país: EUA, Europa e América Latina.

Um estudo da Fundação Getúlio Vargas e do instituto IFO da Alemanha recentemente apontou o Peru como o melhor país para se fazer negócios na América Latina.

O bom momento pode durar? Nos Andes, onde a estabilidade e o oxigênio andam escassos, há dúvidas. O eleitor peruano é notoriamente hostil ao governo, até quando a economia vai bem. Alejandro Toledo desentortou a economia e saiu pela porta dos fundos. O mesmo destino paira sobre García que, apesar dos êxitos, viu sua aprovação definhar para 31%. O tombo explica-se talvez pela percepção de que a nova pujança peruana ainda não tenha abençoado a velha parcela miserável. E num país onde a miséria, mesmo minguante, raramente é dócil, o perigo é evidente, como na explosão de protestos na zona rural que matou 34 pessoas no ano passado.

A raiva é o tempero perfeito para a demagogia populista, que encena sua reprise para a campanha presidencial de abril de 2011. O desafio vem tanto pela direita, na pele de Keiko Fujimori, herdeira do ex-presidente, quanto pela esquerda, no rastro de Ollanta Humala, aliado a Hugo Chávez. Com a palavra os 11,5 milhões de eleitores peruanos.

É CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK" E COLUNISTA DO "ESTADO"

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