A renovação de Cuba

O presidente cubano, Raúl Castro, não tem o carisma nem o fôlego do seu irmão mais velho, mas desde que assumiu o charuto do fragilizado Fidel, parece estar destinado a cravar seu nome na história. Admitiu publicamente a crise que solapa a ilha há anos e anunciou mudanças drásticas que, se levadas a cabo, reescreverão quase todos os ditames da vida política, econômica e sobretudo cultural cubana do último meio século.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

Sob a bandeira ousada, e confusa, de mudar o socialismo para salvá-lo, a confraria Castro está rasgando as regras estabelecidas das últimas três gerações. Ainda é cedo para se dizer se os novos ventos trarão à ilha renovação ou desastre. Mas raramente um acontecimento num terreno de tão poucos metros quadrados cativou tantas atenções mundo afora.

As mexidas são profundas. A partir do último trimestre do ano passado, com a economia beirando o colapso, o governo de Havana anunciou o inimaginável: o enxugamento da máquina estatal. No primeiro momento são 500 mil postos de trabalho a serem deletados, 10% da mão de obra nacional. Com tempo, os terceirizados poderiam chegar a 1,3 milhão. Nutridos na estufa do poder estatal, agora, repentinamente, terão de se reinventar empresários. Sem crédito, equipamentos, assistência técnica e nenhum outro insumo ou acessório da indústria produtiva de mercado. É o capitalismo selvagem para companheiros.

Houve mais. Os cartões de alimentação, que cada cubana carrega desde 1963, quase como uma carteira de identidade, serão o recolhidos. Para aliviar as finanças públicas e aparar os subsídios, serão cortados os salários "altos" e extinguido o sistema monetário duplo que distorcia a contabilidade fiscal, unificando o peso cubano simples (PCU), usado para os salários, e o peso conversível (CUC), para comida e mercadorias.

Mas não é feito só de pão e água a nova Cuba. Com a ajuda da Venezuela, a ilha terá logo mais uma conexão a internet digna do século 21. Ainda este mês um cabo submarino de fibra ótica de mil quilômetros de extensão chegará à costa cubana. Quem sabe os estimados 1,6 milhão de internautas cubanos poderiam finalmente engrossar os adeptos internacionais do Generación Y. É que agora, o governo também resolveu liberar o acesso ao blog, da corajosa Yoani Sánchez - que estreia hoje como colunista do Estado -, que com seu laptop, conseguia driblar os arapongas para reportar o que Havana se esforçava para sufocar.

Aposta arriscada? Afinal, no Egito e na Tunísia, Facebook e Twitter viraram ferramentas importantes da mobilização popular contra os regimes. Mas assim como os chineses, Irã, Venezuela e tantos outros sócios da "Internacional Autoritária", na descrição do cientista político Vitali Silitski, os governantes cubanos optam por uma ditadura com molas. Melhor deixar os jovens a opção de desabafar, tricotar e paquerar na cibervia - onde podem ser vigiados, rastreados e suas páginas nas redes sociais violadas por hackers oficiais - do que empurrá-los para as ruas. Afinal os ditadores também navegam.

Mesmo assim, as mudanças não são triviais. As reformas anunciadas mexem com crenças e doutrinas queridas (o mercado é mal) e sacrificam garantias sagradas (o Estado é meu Pastor), que nenhum verniz retórico consegue enfeitar.

"É necessário revitalizar o principio da distribuição socialista, de pagar a cada qual segundo a quantidade e a qualidade do trabalho prestado", notificou (ó, ironia) a Central de Trabalhadores de Cuba. O ofício é uma escancarada desfiguração da máxima marxista: "De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades."

Se as diretrizes novas partissem de um país capitalista, os donos da ilha as denunciariam como um atentado neoliberal, coisa do Fundo Monetário Internacional, do Consenso de Washington e outros agentes da irmandade imperialista. Agora vêm recauchutadas como "upgrade" do sistema. "Só o socialismo pode superar as dificuldades e preservar as conquistas da revolução", repete Raúl. Ninguém dúvida que a vida cubana precisa ser revista. A dúvida é como fazê-lo sem provocar uma explosão. "O momento mais perigoso para um mau governo é normalmente aquele em que começa a remodelar-se", observou certa vez Alexis de Tocqueville, no século 19. Hosni Mubarak que o diga.

É CORRESPONDENTE DA REVISTA ''NEWSWEEK'', COLUNISTA DO ''ESTADO'' E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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