AFP PHOTO / Glyn KIRK
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A resposta da Europa

Se o plano de Putin era afastar o Reino Unido da UE, convenhamos, ele fracassou

O Estado de S.Paulo

28 Março 2018 | 05h00

Desta vez, o jogador de xadrez do Kremlin parece ter subestimado o gênio tático e provocador que sempre lhe permitiu, num passado recente, semear a discórdia na unidade do mundo ocidental. Entretanto, ele havia preparado cuidadosamente seu golpe. Em 4 de março, na periferia de Londres, foram encontrados um agente duplo russo, Serguei Skripal, e sua filha, Yulia, inconscientes, vítimas de gases atrozes, conhecidos dos militares e, às vezes, usados pelos russos.

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A escolha de Londres para testar a resistência e a unidade do Ocidente fala por si. Há dois anos, o Reino Unido iniciou uma manobra audaciosa e perigosa: sua saída da União Europeia, o Brexit. O país hoje está enfraquecido e isolado. Putin, por sua vez, está obcecado com as alianças e reagrupamentos que se formam no Ocidente e podem, a qualquer momento, usar suas mandíbulas contra a pobre e inocente Rússia.

Duas instituições aterrorizam particularmente a Rússia: a Otan e a União Europeia, formada pela quase totalidade dos países da Europa, alguns deles em contato com o espaço russo. Há dois anos, os britânicos começaram o processo de afastamento da UE. Putin gostaria muito de aprofundar a fissura existente entre os dois lados do Canal da Mancha. 

O crime cometido pelos serviços secretos russos em Londres afastaria um pouco mais os britânicos do bloco europeu. O envenenamento do espião duplo em Londres chocaria a Europa, mas ela se contentaria com alguns murmúrios por delicadeza. Depois disto, deixaria a Grã-Bretanha resolver o drama por conta própria.

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Se foi este o plano de Putin para fragilizar a Europa, convenhamos que fracassou. O mundo ocidental reagiu secamente e se uniu em torno dos britânicos. As feridas do Brexit foram repentinamente esquecidas e, sob o impulso das duas locomotivas da UE, França e Alemanha, vários países responderam à provocação de Moscou com a expulsão em massa de diplomatas russos. Em sete dias, 43 tomarão o trem ou o avião de volta para casa.

Reação americana. Havia uma incerteza, contudo. Donald Trump criaria problemas, como sempre gosta de fazer, ou agiria em conformidade com a resolução dos europeus? Nas chancelarias pairava a inquietação. O comportamento de Trump, mais uma vez, era indecifrável. Não tinha ele telefonado a Putin para felicitá-lo calorosamente por sua eleição, sem fazer nenhuma alusão ao drama ocorrido em Londres? 

No entanto, na segunda-feira, a Casa Branca se manifestou sobre o “odioso ataque” contra Skripal e anunciou a expulsão também de diplomatas russos. Claro que a resposta não foi unânime. Na Europa, uma dezena de países não se aliou contra Putin. 

A Áustria, que tem hoje um governo de extrema direita – do chanceler Sébastien Kurz – invocou sua “neutralidade”, declarando que pretende deixar abertos os canais de comunicação com Moscou. A Grécia, que se congratulou com Putin por sua eleição, está na expectativa. A Bulgária defende uma diminuição da tensão em torno do caso. Mesma atitude da Hungria, que, sabemos, não perde jamais uma ocasião para se afastar da UE, que ela abomina. 

Portugal não moveu um dedo. Chipre, que permitiu à frota russa aumentar sua presença no Mediterrâneo, evita como pode desagradar o Kremlin. Malta e Luxemburgo ofereceram outro argumento: seu tamanho minúsculo os deixa paralisados. Os diplomatas russos nesses dois países são tão poucos que uma expulsão, mesmo modesta, provocaria o rompimento de relações com Moscou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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