A resposta errada aos ataques contra o ‘Charlie Hebdo’

Nos dias que se seguiram ao ataque ao jornal satírico parisiense Charlie Hebdo, a França declarou “guerra” ao terrorismo. Dez mil policiais e paramilitares franceses tomaram as ruas e os conservadores nos Estados Unidos criticaram asperamente o presidente Barack Obama por não assumir a liderança nesta nova guerra contra os jihadistas.

DAVID IGNATIUS, THE WASHINGTON POST*, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2015 | 17h00

Me desculpem, mas essa mobilização para a guerra ao terror é a resposta errada à tragédia do Charlie Hebdo. Ela não passaria de uma repetição dos erros que os Estados Unidos cometeram em sua reação aos eventos de 11 de setembro de 2001.

Assistindo às incendiárias agressões jihadistas pela internet e aos ataques dos lobos solitários em Paris e em outras cidades, cidadãos apavorados (e políticos oportunistas) exigem uma resposta, um comando de cima para baixo. É tentador imaginar uma versão do século 21 de um “potente Wurlitzer” (piano elétrico), como a CIA chamava suas mensagens anticomunistas cifradas no final dos anos 40 e 50. Estas estratégias de propaganda são compreensíveis, mas também estão erradas.

Como deveria ser uma mensagem antiterrorista convincente? Malek Merabet, francês de origem argelina que fez o elogio fúnebre ao irmão Ahmed, o policial assassinado nos ataques de Paris, disse depois do funeral: “Meu irmão era muçulmano, e foi morto por pessoas que se dizem muçulmanas. Elas são terroristas, é isso que elas são”.

Depois da tragédia de Paris, os que analisam o terrorismo encontraram vínculos com a Al-Qaeda na Península Arábica, sediada no Iêmen, e com o Estado Islâmico. Mas em lugar de considerá-la uma conspiração dirigida, talvez seja mais útil examinar as conexões entre as gangues de rua e as prisões de Said e Chérif Kouachi, autores do massacre no Charlie Hebdo, e de Amedy Coulibaly, o homem que atacou o mercado kosher e matou uma policial. A imprensa francesa sugere que o trio representava mais precisamente o que o ex-funcionário da CIA, Marc Sagemann, chama de “jihad sem líder” do que o modelo de 11 de Setembro típico da Al-Qaeda.

“O papel da religião em tudo isto é perigosamente exagerado”, diz o ex-funcionário do Departamento de Estado que atualmente organiza iniciativas do setor privado para fazer frente ao extremismo. “Se nos atolarmos num debate religioso jamais ganharemos, e perderemos de vista o objetivo principal. Os extremistas estão oferecendo aos jovens uma sensação de pertencimento, um válvula de escape para a aventura, e, de alguma forma, uma melhoria de sua própria situação. Para combater isso, teremos de nos dirigirmos a eles como jovens mais do que como muçulmanos”.

O que os Estados Unidos aprenderam numa década de guerra debilitante contra a Al-Qaeda? Na semana passada, fiz esta pergunta a especialistas em contraterrorismo na Casa Branca e em todo o governo, e recebi respostas argutas.

Em primeiro lugar, os EUA não são uma voz confiável para dizer a muçulmanos o que é o Islã de fato. O recuo diante de extremistas violentos precisa ser determinado em centros religiosos do Egito, da Arábia Saudita e de outras partes do mundo muçulmano. Um bom exemplo do que é necessário foi o recente apelo do presidente egípcio Abdel Fattah al-Sissi por uma “revolução religiosa” contra o extremismo violento. A tecnologia americana pode ajudar na transmissão destas mensagens através da mídia social, mas os Estados Unidos não podem ser sua origem.

Em segundo lugar, as autoridades americanas aprenderam que os melhores programas nacionais para o combate aos extremistas violentos são os esforços de baixo para cima, em que a proteção da lei e da ordem funciona com organizações muçulmanas e outras comunidades. Quando três adolescentes de Denver foram submetidas a um programa de radicalização online e decidiram ir combater na Síria, no ano passado, a comunidade muçulmana local viu sinais de advertência e elas foram dissuadidas.

Posteriormente, numa reunião da comunidade, um funcionário do Centro Nacional de Contraterrorismo mostrou imagens de uma faca, um fuzil e um celular - e advertiu que o telefone era talvez o mais perigoso.

A cooperação entre a polícia e as lideranças muçulmanas locais será o tema fundamental de uma reunião na Casa Branca no dia 18 de fevereiro sobre a repressão do extremismo violento. Nela serão examinadas histórias de sucesso em Boston, Los Angeles e Minneapolis. Os funcionários estão se dando conta de que existe uma linha que liga a atividade criminosa das gangues de jovens à mobilização terrorista.

Segundo o analista australiano Sam Mullins: “Os terroristas precisam adquirir capacitação para atos criminosos a fim de conseguir realizar com sucesso o seu papel”.

A terceira lição é que as mensagens efetivas contra o terrorismo devem usar a mídia social a fim de criar o que um funcionário americano chama de “rede das redes”. Por exemplo, a rede Contra o Extremismo Violento, patrocinada pela Good Ideas, em 2011. Agora ela inclui 300 ex-jihadistas, ex-membros de gangues e nacionalistas radicais que oferecem aconselhamento online a extremistas em potencial.

Um projeto britânico inovador é o Abdullah-X, criado por um ex-jihadista. Quando, na Grã-Bretanha, um jovem pesquisa na Internet em busca de informações sobre viagens à Síria para a jihad, ele pode receber um anúncio direcionado com uma figura de desenho animado que combate o extremismo. E uma charge que diz: “Você precisa matar os outros para tornar o mundo mais puro. É isto que você acha que o Islã é? Está falando sério?” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É COLUNISTA

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