A resposta olho por olho da Jordânia ao EI

Os interesses de Amã seriam mais bem atendidos se o país tivesse se contido e feito uma clara distinção dos extremistas

ISHAAN THAROOR, THE WASHINGTON POST , O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2015 | 02h04

Foi um ato de vingança. Horas depois da notícia informando que os jihadistas do Estado Islâmico haviam queimado vivo o piloto da Jordânia, o primeiro-tenente Moaz al-Kasasbeh, o governo jordaniano respondeu com o enforcamento de duas pessoas.

Sajida al-Rishawi e Ziad al-Karbuli eram terroristas convictos e havia muito tempo estavam presos na Jordânia. Sua libertação fora exigida pelo Estado Islâmico durante as inúteis negociações com Amã, que tentavam salvar Kasasbeh e um jornalista japonês também sequestrado pelos extremistas, que foi depois decapitado.

Essas execuções enfatizam este momento de perversidade que vivemos. Em dezembro, a Jordânia suspendeu uma moratória de oito anos no caso de penas capitais respondendo em parte às crescentes demandas da sociedade para serem adotadas medidas mais severas contra o crime. Em 21 de dezembro, as autoridades jordanianas autorizaram a morte por enforcamento de 11 pessoas condenadas por assassinato.

Sajida era uma terrorista suicida vinculada à Al-Qaeda do Iraque. Em 2005, durante um triplo ataque a bomba traumático em Amã, os explosivos que ela carregava sob as vestes não detonaram. Desde então, Sajida permaneceu no corredor da morte da prisão em que foi encarcerada. Apesar de ser identificada pelo EI como um dos prisioneiros a serem trocados, a terrorista não teve nenhum papel ativo nas decisões da organização extremista de assassinar brutalmente seus cativos ou em qualquer outro ato perpetrado pelo Estado Islâmico durante um terrível ano de massacres. O mesmo pode ser dito com relação a Karbuli, outro militante preso da Al-Qaeda.

A resposta da Jordânia não se limita a essas execuções. O Exército do país prometeu uma retaliação "monumental"; os Estados Unidos aumentaram sua assistência financeira para o reino para modernizar suas Forças Armadas. O pai do piloto assassinado disse a jornalistas que deseja que o grupo militante "seja completamente eliminado".

Mas persiste a pergunta: a que finalidade atende o enforcamento dos dois terroristas? Uma declaração de intenção de Amã? Há outras maneiras de a liderança do país comunicar sua determinação. Um alerta para outros militantes radicais? Eles provavelmente não darão importância. Uma fugaz catarse de uma sociedade em cólera? Talvez, mas os governos não podem se permitir ceder a tais instintos.

"Os interesses da Jordânia seriam mais bem atendidos se o país tivesse se contido e feito uma clara distinção entre os jordanianos e esses criminosos que agem na Síria", disse ao New York Times, na quarta-feira, o representante da Human Rights Watch em Amã, Adam Coogle. "Hoje, é difícil defender esse argumento. As pessoas estão pedindo vingança."

Foi o que também ocorreu no Paquistão. Depois do terrível ataque do Taleban contra uma escola na cidade de Peshawar em dezembro, o governo acossado e desorientado começou imediatamente a enforcar terroristas suspeitos que se encontravam nas prisões do país. Não se sabe qual foi o resultado. O Taleban não foi dissuadido e, nesta semana, uma escola na cidade de Karachi foi atacada com granadas por militantes suspeitos.

De fato, podemos argumentar que essas execuções, que alguns observadores descrevem como "culto da morte em massa", eram o que o EI esperava que a Jordânia fizesse. O conflito no Iraque e na Síria tem sido definido pela violência macabra dos jihadistas; vídeos online de decapitações, apedrejamentos e execuções em massa chocaram o mundo e impeliram os Estados Unidos a lançar uma campanha de bombardeios contra o EI e a Jordânia é um dos seus aliados.

Como Philip Kennicott escreveu, de modo contundente, no Washington Post, "as brutalidades atávicas" do EI nos fazem "ver o mundo por um filtro da idade do ferro". O seu barbarismo resume o universo frio, moral do Velho Testamento, como afirma o jornalista.

"Ao restabelecer os abomináveis excessos do que chamaríamos de violência bíblica no mundo moderno, o EI nos faz um convite, uma oportunidade de retornar ao que postula como a condição moral básica que governa todos os homens. Uma espécie de reunião de família, uma oportunidade de reviver os fratricídios, infanticídios e genocídios que dão aos nossos relatos religiosos seu vigor sangrento, uma oportunidade de vivermos juntos sob a mais estulta e prosaica lei jamais promulgada: a do olho por olho, dente por dente." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA

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