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A retirada de Caracas

O Brasil perdeu um aliado contra a Venezuela com a troca de guarda na Argentina

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2020 | 06h00

O Brasil expulsou todos os diplomatas e adidos militares venezuelanos e chamou de volta seus equivalentes brasileiros na Venezuela. Isso, dois dias antes do jantar entre os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump. O desejo do presidente brasileiro de conhecer o balneário de Trump em Mar-a-Lago, na Flórida, foi atendido. Trump só leva para lá quem ele considera um aliado importante.

No dia seguinte à publicação da expulsão no Diário Oficial da União, Trump anunciou o jantar. Nota da Casa Branca, mais tarde, explicou que eles tratariam de Venezuela, Oriente Médio, comércio e investimentos. Perguntei a um funcionário do governo brasileiro por que a expulsão foi decidida agora. Ele me disse que a medida teve de ser construída com áreas distintas do governo, já que envolve também os militares.

A 5.ª Subchefia do Estado Maior do Exército mantinha diálogo com os adidos militares venezuelanos. Vários oficiais brasileiros e venezuelanos se conhecem de outros tempos, de intercâmbios e cursos feitos nos dois países ou em um terceiro, como os EUA. Esse canal representava uma possibilidade de busca de solução política para o impasse venezuelano. Um canal para ser aproveitado não só pelo Brasil, mas também por seus aliados no Grupo de Lima, os 14 países que se articulam contra o chavismo, e também pelos EUA, que não estão formalmente no grupo. Seu fechamento significa que o Brasil não acredita mais nessa possibilidade.

Numa nota sobre o encontro Trump-Bolsonaro, o Departamento de Estado dos EUA anunciou a proibição, por parte do Brasil, da entrada de 130 funcionários do regime venezuelano. A adoção dessas sanções pelo Brasil era uma antiga reivindicação da oposição venezuelana.

EUA, Canadá e União Europeia já haviam dado esse passo anos atrás, mas ele esbarrava na tradição da política externa brasileira de não adotar medidas de forma unilateral, ou seja, sem a aprovação de um órgão multilateral como a ONU e a OEA.

É, portanto, mais uma mudança de rumo. “A ONU reconheceu ligações de (Nicolás) Maduro e seu grupo com narcoterrorismo recentemente”, justificou o funcionário brasileiro, que pediu para não ser identificado. “O Grupo de Lima anda em busca de resultados. O Brasil tem papel de liderança na luta pela democracia na Venezuela. E a Argentina agora está em silêncio.”

O Grupo de Lima reconheceu em janeiro a reeleição de Juan Guaidó para as presidências da Venezuela (como interino) e da Assembleia Nacional. O México e a Argentina, governados pelos esquerdistas Andrés Manuel López Obrador e Alberto Fernández, respectivamente, abstiveram-se da votação.

O Brasil sente que perdeu um aliado importante nas pressões contra a Venezuela, com a troca de guarda na Casa Rosada. Fernández não foi à posse do presidente uruguaio, Luis Lacalle Pou, de centro-direita. Bolsonaro, em contrapartida, foi a Montevidéu, depois de ter-se recusado a comparecer à posse de Fernández, em dezembro. Lacalle pediu a flexibilização das normas do Mercosul para permitir negociações comerciais bilaterais. O Brasil também deseja isso. 

No começo, o governo peronista surpreendeu positivamente o mercado ao demonstrar preocupação com ajustes nas contas públicas e afastar a moratória da dívida de US$ 100 bilhões – mesmo estando em default, na prática, por absoluta falta de dólares. Quando a Argentina pediu apoio ao Brasil para a rolagem da dívida, a resposta foi: “Tudo bem, mas em troca não tentem reabrir as negociações do acordo Mercosul-UE”. Fernández cumpriu o script. Não tocou no assunto ao se reunir com Emmanuel Macron, presidente da França, que lidera o protecionismo europeu. Política externa é ourivesaria.

 

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