A reviravolta na vida do magnata

Os jornais de Murdoch sempre se esbaldaram com os ossos de suas vítimas; agora, eles brigam pela ossada do próprio chefe

Joe Nocera, The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2011 | 00h00

Vocês gostarão de saber que, quando John Yates renunciou ao cargo de comissário assistente da Polícia Metropolitana de Londres (a Scotland Yard), na segunda-feira, ele se queixou da "enorme quantidade de boatos, informações equivocadas e, até mesmo, deliberadamente mal intencionadas" que o obrigaram a tomar certas decisões. A primeira coisa que pensei foi: "Ele não disse isso, disse?" E depois: "Será que um ser humano pode desconhecer esse tipo de maldade?"

Quando jornalistas e editores do defunto News of the World, que se foi sem deixar saudades, estavam ocupados subornando policiais sob o comando de Yates, o que queriam em troca era - vejam só! - mexericos maldosos. Quando grampeavam telefones de membros da família real e de adolescentes assassinadas, procuravam calúnias. Quando Rebekah Brooks, detida no domingo, telefonou ao ex-primeiro-ministro Gordon Brown para avisá-lo que o Sun, de Rupert Murdoch, na época editado por ela, revelaria que seu filho sofria de fibrose cística - informação que Brown está convencido de que só pode ter sido obtida por meio de grampo telefônico -, ela se referia a um fato que uma instituição mais humana jamais divulgaria. Talvez achasse que isso não era maldoso, mas a família Brown com certeza entendeu a coisa dessa maneira.

Sejamos honestos: há certamente um aspecto positivo nessa reviravolta. Quando vejo as fotos de Rebekah, ou de Murdoch, ou de seu filho James (que até poucas semanas atrás, era o herdeiro da News Corporation) com um olhar inexpressivo, penso na horda de paparazzi brigando para conseguir uma foto decente de sua presa. Os jornais de Murdoch sempre se banquetearam com escândalos desse tipo, catando os ossos de suas vítimas. Agora eles brigam pelos ossos do próprio Murdoch.

Avalanche. "A alegria pelo sofrimento alheio é algo tão forte que não seria possível cortá-la com uma serra elétrica", escreveu The Wall Street Journal em um editorial, defendendo Rupert Murdoch e a News Corp. (Está certo. Depois de encobrir deploravelmente o escândalo nas páginas do noticiário, o editorial do Journal agora pula em defesa de seu proprietário. Mostrando, mais uma vez, que o diário sabe muito bem quais são seus interesses.) Bom, a alegria pelo sofrimento alheio é muito forte. Quem pode negar? Isso me lembra o final do maravilhoso romance de Ian McEwan, Solar, no qual todas as coisas horríveis cometidas pelo personagem central em sua longa vida acabam sepultando-o numa avalanche, no merecido castigo.

Embora em geral admire empreendedores que constroem gigantescas companhias, Murdoch - ainda que nos tenha agraciado com Homer Simpson - não tem sido uma força voltada para o bem em sua longa carreira. A Fox News, e seus Bill O"Reilly e Glenn Beck, contribuiu consideravelmente para vulgarizar o discurso político. Seus tabloides baixaram o nível do jornalismo de três continentes. E infringiram rotineiramente a lei em pelo menos um deles.

Ele calou seus jornais de maior prestígio, como The Times de Londres. Desprezou as normas da propriedade cruzada, cuja finalidade é impedir que um homem ou uma companhia detenha poder excessivo - e depois usou a força de seu lobby para que essas normas fossem abrandadas. Colocou o servilismo em relação à China na frente da liberdade de imprensa, incluindo com o veto à publicação de um livro que deveria sair por sua unidade da editora HarperCollins, ao qual as autoridades chinesas tinham feito objeções. Usou continuamente seus veículos de comunicação para premiar os aliados e punir os inimigos.

Murdoch nunca se satisfez com a derrota da concorrência, como os empresários mais decentes. Ele só fica feliz quando pisa no pescoço do concorrente e aperta. O blogueiro Felix Salmon desenterrou um depoimento sobre um executivo que dirigia uma das divisões mais obscuras de Murdoch. "Vou destruir você", o homem teria dito a um concorrente. "Trabalho para um empresário que quer tudo e não compreende quando alguém diz para ele que não pode ter tudo". / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA DO "NYT"

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