A revolução de um homem só sob ameaça

Sucessor de Chávez terá de enfrentar problemas econômicos e divisões internas, no governo ou na oposição

WILLIAM, NEUMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2012 | 02h00

Análise

Os gargalos observados num importante porto eram tão grandes este ano que uma sorveteria foi aberta pelo governo com grande alarde, mas fechou um dia depois devido à falta de ingredientes básicos. Divisas estrangeiras são tão difíceis que as montadoras não conseguem peças e é quase impossível comprar um carro novo. E tudo isso vem ocorrendo quando a economia está crescendo - antes da desaceleração que muitos preveem para o próximo ano.

Essas frustrações são normais na Venezuela, tanto para pobres como para ricos, mas o presidente Hugo Chávez conseguiu permanecer no cargo durante quase 14 anos conquistando uma importante maioria da população com sua personalidade exuberante, o uso irrestrito dos recursos do Estado e sua capacidade para convencer os venezuelanos de que a revolução socialista por ele sonhada vai melhorar suas vidas.

Agora a revolução está ameaçada pela luta de Chávez contra um câncer. Sua saúde está tão precária que antes de se submeter a uma cirurgia esta semana, pela primeira vez designou um sucessor, Nicolas Maduro. Mas como o chefe inquestionável deste movimento revolucionário conhecido como chavismo, o presidente venezuelano adota virtualmente todas as grandes decisões do governo e persegue tanto aliados como oponentes para mantê-los na linha.

Muitos duvidam que qualquer sucessor terá habilidade necessária para conseguir apoio em meio aos problemas econômicos do país, a corrupção generalizada, a onda crescente de crimes e as dificuldades cotidianas.

O que leva à questão de saber o que será do movimento de Chávez sem ele. "Não há ninguém dentro do Chavismo que possa remotamente ter a mesma capacidade de Chávez para se relacionar com os venezuelanos", disse Michael Shifter, presidente do grupo de pesquisa Diálogo Interamericano, com sede em Washington. "O que vincula as pessoas é a lealdade e o apego pessoal a Chávez e isso é muito frágil. Não existe uma base sólida."

O movimento Chavista tem a ver muito mais com ideias e símbolos do que ganhos materiais e Chávez transmitiu para uma classe social abandonada o sentimento de que seus problemas são importantes.

Se ele não puder iniciar seu novo mandado de seis anos em 10 de janeiro, se renunciar depois disso ou se morrer, novas eleições serão realizadas na Venezuela. Chávez nomeou Maduro como seu candidato de escolha.

Para a oposição uma nova eleição tão breve depois de uma dolorosa derrota em outubro seria uma oportunidade de ouro. A oposição nunca conseguiu derrotar Chávez numa disputa direta, mas seus candidatos sempre foram bem votados frente a outros membros do partido de Chávez.

O candidato mais provável da oposição é Henrique Capriles Radonski, o jovem governador que fez uma vigorosa campanha contra Chávez na eleição de outubro. No domingo ele disputa a reeleição como governador do Estado de Miranda. Se vencer, provavelmente será o representante máximo da oposição. Se perder, isso poderá provocar uma batalha agressiva pela liderança na oposição, que tem um histórico de disputas internas.

O chavismo também tem suas facções, que seguem duas amplas divisões. Há uma ala civil, que inclui Maduro e está fortemente comprometida com o programa de inspiração socialista. E uma outra facção ligada ao Exército, que coloca o nacionalismo à frente do socialismo. Existem outros grupos também, incluindo o setor do petróleo gerido pelo governo e um grupo de empreendedores que enriqueceu por meio de contratos firmados com o governo e ligações com autoridades. "Agora começa a luta de poder interna", disse Luis La Torre, um partidário de Chávez no leste do país.

Se Chávez de fato deixar o cargo, quem o substituir vai se defrontar com uma série de desafios no campo econômico. Muitos economistas preveem um crescimento mais lento no próximo ano, alguns falam mesmo em recessão, depois de um ano marcado por um grande aumento das despesas do governo com o objetivo de reeleger Chávez. Uma desvalorização do bolívar parece provável e a taxa de inflação já alta deve subir. O setor petrolífero, o mais importante do país e uma fonte crucial de receita, está estagnado e necessita de enormes investimentos para aumentar os níveis de produção.

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