A revolução do príncipe

Ele ocupa o segundo lugar na ordem de sucessão ao trono. Mas, aos 31 anos, o emir Mohammed Bin Salman, filho do rei da Arábia Saudita e vice-príncipe herdeiro, pretende se afirmar como um homem de visão: a visão de um reino desembaraçado, num prazo de quinze anos, do que qualifica como “dependência patológica” do petróleo, em quantidades fabulosas, enterrado sob suas areias. E o sonho, não menos ambicioso, do futuro que ele prepara visivelmente para si próprio, na cúpula da hierarquia real.

Issa Goraieb*, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2016 | 04h30

O jovem príncipe proclamou solenemente seu programa chamado Visão Saudita 2030. Esse vasto plano de reformas estruturais tem a meta de diversificar uma economia exageradamente dependente dos recursos petrolíferos. O principal ponto é a criação de um fundo soberano, dotado de um capital de US$ 2 trilhões, o que o tornará o maior do mundo. Esse fundo será financiado em grande parte com a venda em bolsa, pela primeira vez, de 5% das ações da Saudi Aramco, a maior empresa petrolífera do mundo.

Entre outra medidas, os subsídios para baratear o preço do combustível, da gasolina e da eletricidade para os cidadãos sauditas cairão drasticamente.

Além disso, o reino, terceiro maior comprador mundial de material militar, passará a fabricar a metade dos armamentos de que necessita. Entre outras medidas, a participação das mulheres na mão de obra deve crescer sensivelmente, mas segundo o emir caberá à sociedade, e não ao governo, decidir se elas poderão dirigir carros.

Esse plano de ação, de caráter econômico e financeiro, avaliado de modo diverso pelos especialistas, tem enormes consequências políticas, tanto no plano interno quanto no regional, diante da personalidade marcante do seu autor e seu claro desejo de modernizar um estilo de poder arcaico. 

Embora ocupando o segundo lugar na ordem de sucessão ao trono (atrás de seu primo mais velho, o príncipe herdeiro e ministro do Interior, o emir Mohammed Bin Nayef) o jovem príncipe iniciou uma ascensão fulgurante desde o dia em que seu velho pai se tornou rei. Ministro da Defesa, ele também está na direção do Conselho de Assuntos Econômicos e do Desenvolvimento, órgão que controla a Saudi Aramco.

Ao defender uma privatização parcial da gigantesca empresa, Mohammed Bin Salman, que não esconde sua intenção de combater a corrupção, vai se chocar sem dúvida com interesses particulares importantes. Ele é considerado uma pessoa hostil às proteções e concessões das quais há décadas se beneficiam empresas como a Saudi Ogero. Fundada pelo ex-primeiro-ministro libanês assassinado Rafik Hariri e administrada hoje por seu filho Saad, também ex-chefe de governo, essa empresa de construção aguarda pagamentos atrasados que se elevam a US$ 4 bilhões. Ao decretar o congelamento de uma ajuda de US$ 3 bilhões ao Exército libanês em armamentos de fabricação francesa, numa reação ao comportamento diplomático do governo de Beirute, que considera favorável ao Hezbollah, o jovem ministro desferiu um golpe suplementar contra os libaneses mais próximos da Arábia Saudita. 

Na posição de ministro da Defesa, foi Mohammed que ordenou uma expedição militar no vizinho Iêmen para combater as milícias aliadas do Irã – a operação ainda não terminou, com o reino, agora, procurando uma saída. Admirado por sua energia juvenil, o príncipe também não deixa de inquietar devido ao seu temperamento impulsivo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* ISSA GORAIEB É COLUNISTA DO 'ESTADO' E JORNALISTA RADICADO EM BEIRUTE

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