'A revolução não nos deu nada' diz fiscal tunisiana

Principal envolvida em episódio que desencadeou revoltas na Tunísia diz que tudo o que aconteceu foi 'a vontade de Deus'

Entrevista com

Lourival Sant'Anna, enviado especial a Sidi Bouzid, Tunísia, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h05

SIDI BOUZID, TUNÍSIA - Ela é considerada no mundo todo como a vilã, a representação da opressão, que humilhou um vendedor de frutas - por sua vez o arquétipo do homem comum - a ponto de fazê-lo imolar-se em praça pública. Fayda Hamdi não costuma ter a oportunidade de contar o seu lado da história. Nem sequer a sua profissão é corretamente descrita. Ela entrou para a história como policial. Fiscal de impostos há 11 anos, com um salário de 520 dinares tunisianos (US$ 340), solteira aos 45 anos de idade, Fayda defendeu-se em entrevista de duas horas ao Estado, durante a qual chorou várias vezes.

Fayda conta que a família do vendedor de frutas Mohamed Bouazizi pediu que ela fosse castigada ao então presidente Zine el-Abidine Ben Ali, que enviou uma equipe de agentes antiterror para interrogá-la, convencido de que se ela se tornasse o bode expiatório os problemas dele acabariam. A fiscal nega que tenha dado um tapa na cara de Bouazizi. O povo queria que ela fosse morta para vingar o vendedor de frutas. Hoje ela diz que as pessoas entendem o que aconteceu e a apoiam. E acredita que tudo o que ocorreu foi por "vontade de Deus".

'Estado': O que aconteceu naquele dia?

Fayda Hamdi: Em Sidi Bouzid há uma situação de miséria. Temos muitas leis com as quais não concordo, mas temos de aplicá-las. Em qualquer lugar do mundo não são permitidos vendedores ambulantes em áreas públicas. Em 16 de dezembro (de 2010), Bouazizi recebeu licença para vender frutas, mas aqui isso só pode ser feito aos sábados e na área designada para a feira. No mesmo dia, houve uma manifestação dos vendedores ambulantes contra essas restrições. Eles não gostam de trabalhar na feira porque lá têm de pagar impostos. Querem vender na rua, onde causam sujeira e atrapalham o trânsito. Então, no dia 16, encontrei Bouazizi no terminal de lotações vendendo frutas. Eu disse a ele que agora ele tinha a licença e devia sair de lá. Ele foi embora sem falar nada. No dia seguinte, às 11 horas, quando cheguei ao local, havia vários vendedores lá. Os outros foram embora. Só Bouazizi ficou. Eu disse a ele que ia confiscar as frutas - 20 kg de pera, 3 kg de banana e 10 kg de maçã - e a balança. Ele se negou a entregar e me insultou.

'Estado': A sra. estava só ou havia outros fiscais?

Fayda Hamdi: Eu estava com um colega. Bouazizi arrancou a balança de mim e machucou minha mão.

'Estado': A sra. deu um tapa no rosto de Bouazizi?

Fayda Hamdi: Não.

'Estado': E o seu colega?

Fayda Hamdi: Também não. Eu chorei, porque muitas pessoas assistiram à cena e ninguém me ajudou. Eu não poderia dar um tapa nele na rua, porque ele ficaria com a razão. Eu me sentei no carro e telefonei para a polícia. O tio (e padrasto) de Bouazizi (Amr) chegou e perguntou se eu tinha dado um tapa na cara dele. Respondi: 'Não. Se eu tivesse feito isso, ele teria me batido. Por que ele não se defendeu?' O capitão da polícia mandou que meu colega e eu fôssemos para a delegacia.

'Estado': Que aconteceu com Bouazizi?

Fayda Hamdi: Ele também foi para a delegacia. Lá ele chorou e disse que eu o tinha agredido porque ele se recusara a me pagar propina. Isso é mentira. Nós confiscamos as frutas e damos a uma entidade de caridade. A balança, guardamos na prefeitura e entregamos um recibo ao dono. Mais tarde, recebi uma ligação de um colega dizendo que Bouazizi tinha ateado fogo em si mesmo.

'Estado': O que sentiu nesse momento?

Fayda Hamdi: Bouazizi não tinha intenção de se queimar. Ele só queria fazer uma encenação. Foi um acidente. Senti que as pessoas me viam como culpada.

'Estado': O que aconteceu depois?

Fayda Hamdi: O secretário municipal me pediu um relatório. Escrevi e fui para casa. Fui interrogada durante os próximos três dias, sem dormir. Meu colega foi liberado, pois era ligado a um partido, cujo dirigente intercedeu por ele. Ben Ali veio em 28 de dezembro e se encontrou com a mãe de Bouazizi, que pediu que eu fosse condenada. O presidente mandou uma equipe de agentes antiterroristas para me investigar e interrogar. Ele pensou que se eu fosse castigada o povo se acalmaria e tudo terminaria bem para ele. Houve duas audiências em dezembro, em que a corte recusou-se a me considerar ré. Decidiram que eu era testemunha, que estava a trabalho, e não era lógico me julgar. Mesmo assim, fiquei na cadeia 3 meses e 20 dias, entre 31 de dezembro e 19 de abril. Durante um mês, fiz greve de fome. Os advogados tinham medo de me defender. Um queria me cobrar 2 mil dinares (US$ 1.333). Mas a partir de 28 de janeiro, a advogada Besma Limnassri passou a me defender de graça. No dia do meu julgamento, 19 de abril, meus colegas fizeram protestos a meu favor em Sidi Bouzid e em Túnis. Fui absolvida.

'Estado': Agora quando a sra vê um vendedor de frutas, a sra confisca a mercadoria?

Fayda Hamdi: Fico com medo. Perdi totalmente minha autoconfiança.

'Estado': Como as pessoas a tratam?

Fayda Hamdi: No começo achavam que eu devia ser morta para vingar Bouazizi. Depois passaram a entender o que aconteceu, a me defender e a atacar a família de Bouazizi. Fizeram faixas dizendo que quem fez a revolução foi o povo de Sidi Bouzid, não a família Bouazizi.

'Estado': O que acha da revolução?

Fayda Hamdi: A revolução não nos deu nada. Apenas podemos nos expressar agora e nos defender dos corruptos que desviavam nosso dinheiro. A revolução não pode acabar só com a saída de Ben Ali. Ela precisa criar empregos. Os políticos fazem os funcionários públicos trabalhar para eles, nos mandam fiscalizar seus adversários.

'Estado': Como se sente em relação ao que aconteceu?

Fayda Hamdi: Foi a vontade de Deus.

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