A ''Revolução Online'' na Tunísia

O país não conta com revoluções no WikiLeaks e no Twitter, mas sites ajudaram no levante contra o governo

Timothy Garton Ash, Especial para o 'Estado', O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2011 | 00h00

"A Revolução Kleenex?" Acho que não. A menos, é claro, que se concorde com o presidente líbio, Muamar Kadafi. Numa denúncia pela televisão do levante popular que derrubou seu amigo ditador vizinho, ele declarou: "Mesmo vocês, meus irmãos tunisianos, vocês podem estar lendo essa conversa vazia do Kleenex na internet" (Kleenex é como Kadafi se refere ao WikiLeaks). "Qualquer imprestável, mentiroso, bêbado ou drogado pode falar na internet e vocês acreditam nele. Devemos nos tornar vítimas do Facebook, do Kleenex e do YouTube?" Ao que, como o orador é outro ditador, eu sinceramente espero que a resposta seja "sim".

Mas será? Qual a contribuição que websites, redes sociais e telefones celulares dão a movimentos de protesto populares? Haverá alguma justificativa para rotular os eventos tunisianos, como fizeram alguns, de "Revolução Twitter" ou "Revolução WikiLeaks"? O jovem ativista bielo-russo Evgeny Morozov questionou suposições preguiçosas por trás desses rótulos no livro The Net Delusion,("A ilusão da internet", em tradução livre).

Morozov diverte-se ridicularizando e demolindo as visões ingenuamente otimistas que, particularmente nos EUA, parecem acompanhar o surgimento de cada nova tecnologia das comunicações. Ele mostra que alegações sobre a contribuição do Twitter e do Facebook ao movimento verde do Irã foram exageradas. Essas novas tecnologias também podem ser usadas por ditadores para observar, espionar e perseguir seus oponentes. Sobretudo, ele insiste em que a internet não suspende o funcionamento da política do poder. É a política que decide se o ditador será derrubado, como na Tunísia, ou se os blogueiros serão espancados, como na Bielo-Rússia.

Estimados 18% da população tunisiana estão no Facebook, e o ditador negligenciou bloqueá-lo em tempo. Entre os jovens educados que foram às ruas, podemos ter certeza de que o nível de participação online foi maior.

Antes da queda de Zine al-Abidine Ben Ali, seu regime tinha investido contra os "netizens" (cidadãos da web), montando ataques virtuais a contas do Gmail e do Facebook, recolhendo senhas e listas de e-mail de supostos opositores, e depois prendendo blogueiros importantes como Slim Amamou. Isso reforça o argumento de Morozov de que a internet é uma faca de dois gumes, mas é também um tributo à importância dessas novas mídias.

Ninguém sabe o que haverá amanhã, mas até agora o levante tunisiano teve um desenvolvimento extremamente animador - em especial porque foi um movimento autêntico, genuinamente doméstico e, em grande parte, espontâneo. As tecnologias transformadas de informação e comunicações de nosso tempo jogaram um papel na existência desse levante. Elas não o causaram, mas ajudaram. Especialistas dizem que a Tunísia, com sua população pequena, relativamente homogênea, urbana, educada, e (por enquanto) moderada, formada em grande parte por islâmicos exilados, pode se tornar um farol da mudança no Magreb. Se tudo der certo, a internet e a TV via satélite espalharão as novas por todo o mundo árabe.

Então é isso, a internet fornece armas tanto ao opressor quanto ao oprimido - mas não, como Morozov parece deduzir - em igual medida. No conjunto, ela oferece mais armas ao oprimido. Creio, portanto, que a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, está certa quando identifica a liberdade de informação global em geral, e a liberdade da internet em particular, como uma das oportunidades definidoras de nosso tempo.

O governo americano como um todo também é profundamente inconsistente em sua abordagem da liberdade da internet. Ele recrimina a China e o Irã pelo monitoramento secreto de adversários, enquanto faz o mesmo contra os que define como traidores da segurança nacional. Ele louva a liberdade de informação global enquanto denuncia o WikiLeaks como "uma ameaça à comunidade internacional".

De novo, a Tunísia é instrutiva. Falar de uma "Revolução WikiLeaks" é tão absurdo como de uma "Revolução Twitter", mas as revelações do WikiLeaks sobre o que os EUA sabiam da corrupção do regime de Ben Ali contribuíram um pouco para o caldo de cultura que se formava na Tunísia. Assim, se Hillary Clinton quiser argumentar, como acredito que ela legitimamente pode, que a estrutura de intercâmbio global de informações iniciada pelos americanos contribuiu para o frágil renascimento da liberdade na Tunísia, então ela deveria realmente incluir um gesto de simpatia pelo WikiLeaks. Mas é pouco provável que isso aconteça. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É COLUNISTA E ESCRITOR

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