Steve Crisp/Arquivo/Reuters
Steve Crisp/Arquivo/Reuters

A revolução será twittada

Relatório aponta forte influência das mídias sociais nas revoltas do mundo árabe

João Coscelli,

17 de dezembro de 2011 | 03h02

SÃO PAULO - Os jovens da Tunísia uniram-se, protestaram, bateram de frente com o governo e forçaram a renúncia de um ditador que estava no poder havia 23 anos. No Egito, com um pouco mais de insistência, o resultado foi o mesmo - manifestações, enfrentamentos e o fim de um regime que já durava três décadas. E o movimento se espalhou para Líbia, Síria, Iêmen, Bahrein, da mesma forma como a informação se dissemina nas redes sociais.

 

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A chamada Primavera Árabe mudou o cenário geopolítico no Oriente Médio e no norte da África e a internet, afirmam analistas, teve um papel fundamental na consolidação do movimento. Foi por meio das redes sociais - como o Facebook, o Twitter e o Youtube - que a juventude organizou e espalhou informações sobre protestos, ainda que em alguns casos as comunicações estivessem sob controle do regime.

 

O relatório sobre mídias sociais publicado em junho pela Dubai School of Government mostra dados que ilustram a influência da internet na Primavera Árabe. Segundo o documento, nove em cada dez tunisianos e egípcios afirmaram ter usado o Facebook para organizar protestos ou disseminar seu conhecimento sobre as marchas. Destas manifestações - e foram dezenas em cada país - apenas uma não saiu da web para ganhar as ruas.

 

As redes sociais, considerando desde seu uso até o crescimento de número de usuários, desempenharam "uma função crítica na mobilização, na formação de opinião e ao influenciar mudanças" no mundo árabe, pontua o relatório.

 

Geração insatisfeita e na internet

 

O fenômeno é simples de entender - basta ligar os pontos. A imensa maioria dos manifestantes tem entre 15 e 30 anos, justamente a geração que usa a internet como principal ferramenta de comunicação. Ao mesmo tempo, é a mais prejudicada com desemprego e cerceamento às liberdades. Como eles estão habituados às redes sociais, tendem a transformá-las em plataformas eficiente para acionar uns aos outros de forma rápida sobre as manifestações.

 

Nos quatro primeiros meses de 2010, o número de usuários do Facebook no mundo árabe girava em torno de 14,8 milhões. No mesmo período deste ano, o total havia quase dobrado - eram 27,7 milhões. A maioria, segundo a Dubai School of Government, estava interessada nos movimentos revolucionários.

 

Hashtags

 

A movimentação no Twitter seguiu a mesma linha. O maior número de acessos ao site de microblogs na Tunísia ocorreu em 14 de janeiro, quando começaram os protestos que derrubaram Zine el-Abidine Ben Ali. No Egito, o pico foi em 11 de fevereiro, data da renúncia de Hosni Mubarak, apesar de o governo ter cortado os serviços de internet quase integralmente por cinco dias.

 

Os egípcios, inclusive, ocuparam o topo da lista de assuntos mais comentados no ano no Twitter. A hashtag #Egypt (Egito, em inglês) foi a mais usada em 2011. Entre janeiro e março, 1,4 milhão de mensagens com a etiqueta foram enviadas. No mesmo período, foram publicadas 1,2 milhão de postagens com o marcador #Jan25, data do início das manifestações no Cairo - e a 10ª hashtag mais usada no ano.

 

Entre os fatos internacionais mais comentados na rede social, novamente a renúncia de Mubarak encabeça a lista. Na quinta colocação, outro ditador, Muamar Kadafi, o coronel capturado e morto pelos rebeldes da Líbia após oito meses de guerra civil e cujos últimos momentos foram registrados por câmeras de celulares e, depois, espalhados na internet.

 

Imagens da revolução

 

Na Síria, a imprensa estrangeira não tem liberdade de atuação. Na Líbia, havia repórteres, mas o regime de Kadafi mantinha a atividade sob estrito controle. As imagens dos confrontos nesses países chegaram ao resto do mundo graças aos próprios opositores, que usaram dispositivos móveis, como câmeras e celulares.

 

Bastou uma brecha na web mantida sob rígido controle pelo regime de Damasco para o planeta todo assistir a um vídeo do corpo de um garoto sírio torturado pelas tropas de Bashar al-Assad, despertando a ira de opositores e conquistando as preocupações de outros países sobre a situação da violência e dos direitos humanos na Síria.

 

No YouTube, centenas de gravações mostravam as multidões fugindo enquanto feridos eram carregados e corpos jaziam sem vida nas ruas de cidades como Homs e Hama. Era o grito dos sírios contra a barbárie de seu presidente.

 

Assad permanece no poder, mas não alivia as restrições ao uso da internet ou à imprensa, apesar das pressões. Mesmo sem acesso às redes, seus opositores apresentam-se como uma grande ameaça contra o regime. O líder sírio sabe o que ocorreu com os vizinhos e o rígido controle sobre as comunicações mostram que ele reconhece a força da web e, principalmente, o poder de um povo que vive há anos sob uma ditadura.

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