Maxar Technologies/Handout via REUTERS
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A rica história do Canal de Suez; leia a análise

Ideia do moderno Canal de Suez ganhou força após a invasão quixotesca de Napoleão Bonaparte ao Egito em 1798

Ishaan Tharoor / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 05h00
Atualizado 29 de março de 2021 | 15h45

Em nossa era digital, podemos esquecer como podem ser frágeis - e analógicas - as redes que conectam diferentes partes do mundo. Mas então há momentos em que algo foge do controle, as engrenagens que movem o aparato agitado da economia global estremecem e percebemos como de repente as coisas podem dar errado.

Foi o que aconteceu no Canal de Suez, onde um navio porta-contêineres do tamanho de um arranha-céu ficou encalhado. A embarcação bloqueou uma estreita e importante via que permite a passagem de cerca de um décimo de todo o transporte marítimo internacional.

Uma empresa de salvamento holandesa que trabalhava para desencalhar o navio, o MV Ever Given, disse que poderia levar "semanas" para retirá-lo de onde está - um estorvo sem precedentes nos últimos anos. Enquanto as dragas e os rebocadores trabalhavam durante o fim de semana, as autoridades egípcias chegaram a ordenar os preparativos para o descarregamento dos 18 mil contêineres do navio como um plano B. Nesta segunda-feira, a empresa informou que o navio foi retirado do banco de areia e desobstruiu a passagem do canal

Enquanto isso, cerca de 300 navios que tentam fazer a travessia da Ásia para a Europa, ou vice-versa, estão enfrentando atrasos. Eles transportam de tudo, desde petróleo e cimento a bens de consumo e animais vivos, e ficaram presos em um engarrafamento cujos efeitos podem chegar a todos os cantos do planeta.

"O Ever Given, que é operado pela Evergreen Marine Corp., com sede em Taiwan, navegava com destino à Holanda na terça-feira quando uma tempestade de areia aconteceu, causando ventos fortes e pouca visibilidade na passagem de 193 quilômetros do Mar Vermelho para o Mediterrâneo ", relataram meus colegas do Washington Post.

"Exatamente o que deu errado e fez o barco encalhar ainda não está claro. ... Tanto os funcionários da Autoridade do Canal de Suez quanto da Evergreen Marine culparam os ventos que supostamente o atingiram com velocidade de até 48km/h. Mas essa explicação tem atraído algum ceticismo, visto que o navio pesa mais de 220 mil toneladas quando totalmente carregado e foi construído para resistir a rajadas muito mais fortes. "

Seja qual for o caso, o suplício do navio gerou piadas online, com as redes sociais encorajadas pelo espetáculo aparentemente infeliz de autoridades locais lutando para desencalhar um navio tão gigante preso a um barranco de areia. Mas o "mais recente bloqueio destaca os riscos enfrentados pela indústria de transporte marítimo à medida que mais e mais navios transitam por pontos de engarrafamento marítimo, incluindo o Canal de Suez, o Canal do Panamá, o Estreito de Ormuz e o Estreito de Malaca no sudeste da Ásia", relatou a Bloomberg News, lembrando que a capacidade de carga dos navios dobrou na última década.

É também um lembrete da história profunda e vital do canal. Muito antes da construção do canal moderno no século 19, a área onde agora funciona estava pronta para a travessia transcontinental. Fernand Braudel, o grande historiador francês do Mediterrâneo, observou como, há milhares de anos, "o istmo de baixa altitude do Suez (...) várias vezes foi inundado pelo mar, transformando a África em uma ilha".

Na Antiguidade, os soberanos viam a utilidade de construir uma ligação marítima para que suas trirremes a remos se movessem pelo Mediterrâneo, ou pelo menos do rio Nilo para o mar Vermelho. O primeiro foi possivelmente o faraó egípcio Necau II - identificado como Neco pelo historiador grego Heródoto - que iniciou um grande projeto de construção de canais por volta do final do século 7 a.C.

A ideia do moderno Canal de Suez ganhou força após a invasão quixotesca de Napoleão Bonaparte ao Egito em 1798. Sonhando em construir uma passagem rápida para a Índia, que já era a joia de um Império Britânico em expansão, o general francês enviou uma equipe de topógrafos para traçar o curso de um canal do mar Mediterrâneo ao mar Vermelho.

Décadas depois, o empreendedor e ex-diplomata francês Ferdinand de Lesseps garantiu financiamento do governo francês e a permissão do vice-reinado otomano no Egito para que sua Companhia do Canal de Suez começasse a construção do que se tornaria o Canal de Suez em 1859.

Os primeiros anos envolveram um enorme esforço humano, enquanto os trabalhadores removiam e dragavam muitos milhões de metros cúbicos de terra. Segundo um relato, mais de um milhão de camponeses egípcios foram forçados a participar do projeto e dezenas de milhares morreram, contraindo doenças como cólera em circunstâncias análogas ao trabalho escravo. As condições melhoraram depois que as autoridades locais intervieram e equipamento industrial pesado passou a ser usado. 

Em 1869, o canal foi inaugurado em uma grande cerimônia organizada pelo quediva otomano Ismail Paxá. Seis anos depois, com o Egito otomano afundado em dívidas, Ismail venderia suas ações na Companhia do Canal de Suez ao governo britânico, que havia passado de cético em relação ao projeto a um de seus maiores beneficiários.

A abertura do canal levou ao apogeu dos impérios europeus na Ásia e na África: navios de guerra a vapor e cargueiros passaram a poder evitar a longa jornada ao redor do Cabo da Boa Esperança. Os campos de refinamento de petróleo ao longo do Golfo Pérsico no início do século 20 apenas ressaltaram a vitalidade estratégica do canal para as potências europeias.

É justo, então, que o dramático fechamento do canal em 1956 seja visto agora como um dos últimos suspiros da época do colonialismo. O carismático presidente nacionalista Gamal Abdel Nasser optou por nacionalizar as propriedades da Companhia do Canal de Suez e as tropas egípcias tomaram suas instalações. Isso levou a uma invasão por uma expedição conjunta de forças britânicas, francesas e israelenses em uma tentativa de derrubar Nasser. 

Mas acabou se tornando um fracasso humilhante, com os Estados Unidos se recusando a dar apoio e a opinião pública global se voltando decisivamente contra os britânicos e seus aliados.

Para outros, como o magnata da navegação grego Aristóteles Onassis - que por acaso tinha petroleiros vazios apodrecendo nos portos sauditas no momento em que a crise surgiu, e então cobrou taxas enormes enquanto eles circunnavegavam a África com petróleo para o Ocidente - isso consolidou uma fortuna. O canal foi reaberto em 1957, mas seria fechado mais uma vez uma década depois da Guerra Árabe-Israelense. Esse fechamento durou oito anos. Em 1975, o presidente egípcio Anwar Sadat anunciou a retomada das atividades de navegação no canal soltando pombos no ar. 

Em nossa era digital, podemos esquecer como podem ser frágeis - e analógicas - as redes que conectam diferentes partes do mundo. Mas então há momentos em que algo foge do controle, as engrenagens que movem o aparato agitado da economia global estremecem e percebemos como de repente as coisas podem dar errado.

Foi o que aconteceu no Canal de Suez, onde um navio porta-contêineres do tamanho de um arranha-céu permanece encalhado. A embarcação tem bloqueado uma estreita e importante via que permite a passagem de cerca de um décimo de todo o transporte marítimo internacional. Uma empresa de salvamento holandesa que trabalha para desencalhar o navio, o MV Ever Given, disse que pode levar "semanas" para retirá-lo de onde está - um estorvo sem precedentes nos últimos anos. Enquanto as dragas e os rebocadores trabalhavam durante o fim de semana, as autoridades egípcias ordenaram os preparativos para o descarregamento dos 18.000 contêineres do navio como um plano B.

Enquanto isso, cerca de 300 navios que tentam fazer a travessia da Ásia para a Europa, ou vice-versa, estão enfrentando atrasos. Eles transportam de tudo, desde petróleo e cimento a bens de consumo e animais vivos, e estão presos em um engarrafamento cujos efeitos podem chegar a todos os cantos do planeta.

"O Ever Given, que é operado pela Evergreen Marine Corp., com sede em Taiwan, navegava com destino à Holanda na terça-feira quando uma tempestade de areia aconteceu, causando ventos fortes e pouca visibilidade na passagem de 193 quilômetros do Mar Vermelho para o Mediterrâneo ", relataram meus colegas do Washington Post. "Exatamente o que deu errado e fez o barco encalhar ainda não está claro. ... Tanto os funcionários da Autoridade do Canal de Suez quanto da Evergreen Marine culparam os ventos que supostamente o atingiram com velocidade de até 48km/h. Mas essa explicação tem atraído algum ceticismo, visto que o navio pesa mais de 220.000 toneladas quando totalmente carregado e foi construído para resistir a rajadas muito mais fortes. "

Seja qual for o caso, o suplício do navio gerou piadas online, com as redes sociais encorajadas pelo espetáculo aparentemente infeliz de autoridades locais lutando para desencalhar um navio tão gigante preso a um barranco de areia. Mas o "mais recente bloqueio destaca os riscos enfrentados pela indústria de transporte marítimo à medida que mais e mais navios transitam por pontos de engarrafamento marítimo, incluindo o Canal de Suez, o Canal do Panamá, o Estreito de Ormuz e o Estreito de Malaca no sudeste da Ásia", relatou a Bloomberg News, lembrando que a capacidade de carga dos navios dobrou na última década.

É também um lembrete da história profunda e vital do canal. Muito antes da construção do canal moderno no século 19, a área onde agora funciona estava pronta para a travessia transcontinental. Fernand Braudel, o grande historiador francês do Mediterrâneo, observou como, há milhares de anos, "o istmo de baixa altitude do Suez (...) várias vezes foi inundado pelo mar, transformando a África em uma ilha". /  TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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