A rodovia da discórdia

Há duas décadas, indígenas bolivianos tomaram as ruas de La Paz e fizeram tremer os Andes. A "Marcha pelo Território e Dignidade", de 15 de agosto de 1990, escreveu um capítulo novo da empobrecida cordilheira, onde povos nativos amargaram séculos de irrelevância política.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2011 | 00h00

Ninguém conhece melhor essa história do que Evo Morales, o jovem cocaleiro de ascendência indígena que deu voz aos ressentimentos e anseios populares para se tornar presidente, o primeiro que a Bolívia conhece de pedigree nativo. Agora, a história volta a mordê-lo.

Semana passada, enquanto Evo fazia visita oficial à China, líderes indígenas bolivianos uniram-se para declarar um "não definitivo" à construção de uma rodovia de mais de 300 quilômetros que cortaria o país, entre San Ignacio de Moxos, cidade no Estado do Beni, e Villa Tunari, em Cochabamba.

O governo Evo lançou o projeto para promover a integração nacional e dinamizar o comércio entre as terras baixas da Amazônia boliviana e os vales andinos. Contou ainda com a bênção do Brasil, que entrou com dois terços da fatura (US$ 322 milhões do BNDES) e a engenharia da construtora OAS, executora da obra.

A estrada faz todo sentido. Sem ela, a viagem terrestre entre o Beni e Cochabamba, dois Estados importantes bolivianos, leva dias. Mas a obra virou uma dor de cabeça continental. Pelo projeto, atravessará o Parque Nacional e Território Indígena Isiboro Sécure (Tipnis), uma área protegida de 1,1 milhão de hectares que abriga 13 mil indígenas moxeños, yurakarés e chimanes, entre outros.

Para os líderes das comunidades locais, a obra pode levar a uma "massiva colonização, depredação e saque dos recursos naturais", nas palavras de Adolfo Moye, porta-voz dos povos do Tipnis.

Um exagero, talvez. No entanto, Moye sabe muito bem o peso da retórica. Foi assim que Evo conquistou seus pares - os mesmos que hoje fundamentam sua rejeição absoluta à obra com base na atual Constituição boliviana, reeditada em 2009 ao sabor indigenista do próprio Evo. Milhares de indígenas iniciam amanhã uma nova marcha, no 21.º aniversario da original, rumo a La Paz, para impedir o "desastre anunciado".

Proteção do território. Não é uma preocupação tola. O Tipnis é um campo minado, palco de conflitos desde os anos 70, quando colonos das terras altas avançaram sobre a reserva para semear suas lavouras, especialmente a coca.

Os índios reagiram e um colono morreu em 2009. O governo respondeu, erradicou plantações de coca e ainda riscou uma imaginária "linha vermelha" na floresta para apartar os índios dos cocaleiros. Mas, assim como a barreira de faltas no futebol, fronteiras na floresta também andam e a invasão do parque virou fato consumado. Com a estrada, a encrenca pode piorar.

Aí está a encruzilhada de Evo. O líder, com um pé na etnia aimara, prometeu usar suas credenciais autênticas para redimir meio milênio de mazelas indígenas. Ao mesmo tempo, acenou para os plantadores de coca, matéria prima da cocaína, cuja produção deu um salto na gestão do presidente. De quebra, Evo ainda se enrolou na bandeira ambiental, com chancela das Nações Unidas, que, em 2009, o batizou de "Herói Mundial da Mãe Terra".

Agora, o feitiço volta contra o feiticeiro. Indigenista, cocaleiro e ambientalista, Evo se vê imprensado entre lobbies e discursos. Por ora, quem perde são os aliados nativos. A estrada sai, "queiram ou não", declarou o líder boliviano.

Há controvérsias. Segundo reportagens, o embaixador do Brasil em La Paz já esclareceu que o crédito para a obra só será liberado com a conclusão de todos os estudos de impacto ambiental da estrada.

O conflito é localizado, mas já faz eco na América Latina, onde outros companheiros de bolivarianismo enfrentam fogo amigo na sua marcha para o "socialismo do século 21". Na Venezuela e na Nicarágua, centrais sindicais e universitários saem cada vez mais às ruas para reivindicar seus direitos perdidos e para protestar contra os desvios dos regimes - que, por sua vez, respondem à nova dissidência com cassetete.

Líderes indígenas no Equador, que se manifestam contra estradas rurais e prospecção de petróleo, são tachados de sabotadores e "terroristas" pelo governo do presidente Rafael Correa, que se elegeu campeão da causa nativa. Não é um problema ideológico ou de filosofia política. O problema é de governança disfuncional. Os líderes que subiram ao poder batendo o tambor dos excluídos, insuflaram demandas que não conseguem mais administrar. Que aguentem agora o próprio ruído.

É COLUNISTA DO "ESTADO", CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK" NO BRASIL E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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