A Rússia depois de Putin

O Ocidente deveria articular um caminho para reintegrar o país ao mundo livre

Sergei Guriev, The Washington Post, THE WASHINGTON POST

13 de junho de 2015 | 02h02

No ano passado, graças a sua agressão à Ucrânia, a Rússia se transformou de muitas maneiras importantes. Mas uma transformação crucial passou em grande parte despercebida: o pensamento de longo prazo desapareceu por completo, e o regime russo não fala mais sobre o futuro.

O discurso de dirigentes russos se concentra no impasse com a Ucrânia e o Ocidente (e seus "fantoches" dentro da Rússia) e em referências ao passado heroico (principalmente à 2.ª Guerra). O regime está hoje inteiramente focado em sua própria sobrevivência.

Nem sempre foi assim. Em 2000, Vladimir Putin chegou ao Kremlin com um "programa Gref" de 10 anos que incluía uma visão da Rússia como um país aberto e moderno. Seu primeiro mandato presidencial adotou partes desse programa. Estratégias de desenvolvimento no longo prazo - a maioria com base nesta visão - foram discutidas e atualizadas até 2012.

Mesmo quando Putin voltou à presidência nesse ano, ele colocou um conjunto de artigos de opinião programáticos em jornais russos delineando planos de longo prazo sobre a economia, política social, governança, federalismo e política externa. Ele os converteu em alguns decretos presidenciais que assinou em seu primeiro dia no cargo. Esses decretos forneceram metas transparentes que ele prometeu cumprir até 2018.

A esta altura está claro - e até reconhecido publicamente pelo próprio Putin - que eles não serão materializados. Que alternativa futura o presidente da Rússia propõe para seus cidadãos? Não há respostas. Não está havendo um planejamento para o futuro da Rússia. Antes, a Rússia se orgulhou de avançar dos orçamentos anuais para os trienais. Não mais: o Kremlin não tem nenhum plano financeiro crível para além de 2016, exceto esperar que os preços do petróleo se recuperem. Sua doutrina de política externa também está centrada na sobrevivência do regime. Para o mundo em geral, a Rússia defende ferozmente o direito soberano de governos não democráticos permanecerem indefinidamente no poder.

O regime está certo em temer por seu futuro imediato. A economia russa está em recessão e provavelmente não crescerá mais do que 2% ao ano mesmo quando - ou se - a recessão terminar. Pela primeira vez em 15 anos de Putin no poder, a renda real dos russos está caindo. Os benefícios propagandísticos da anexação da Crimeia estão se esgotando.

E outra guerra não seria possível - além dos custos militares diretos, a sujeição a outra rodada de sanções poderia destruir bancos importantes, o que poderia resultar num pânico generalizado e o colapso do regime.

Neste cenário, não surpreende que o Ocidente também só fale com a Rússia sobre questões de curto prazo. Mas quer pensemos ou não no futuro, ele virá. Em algum momento, este regime terá de sair, e não está claro o que o substituirá, quão turbulenta será a transformação e se a Rússia surgirá dela como um país democrático. Como bem mostrou a Primavera Árabe, essas mudanças de regime podem ser muito pacíficas ou muito violentas.

Uma transição pacífica não é improvável. A Rússia é mais rica e mais bem educada do que os países da Primavera Árabe; aliás, é mais rica e mais bem educada do que qualquer país na história que tenha transitado da ditadura para a democracia.

Mas também está claro que as figuras de proa do regime provavelmente não entregarão facilmente o controle do poder. Elas temem ser levadas à justiça por crimes contra a lei internacional e a humanidade, e por corrupção desenfreada dentro da Rússia. O melhor cenário que se pode esperar é alguma forma de governo de transição que ofereça algumas garantias às elites de saída e supervisione novas eleições.

É certamente do interesse do Ocidente não "perder a Rússia" mais uma vez. Quando se consideram as armas nucleares da Rússia e seus papéis econômico, energético e geopolítico reduzidos, mas ainda grandes, uma transição turbulenta e a ascensão de outro regime não democrático e agressivo custaria caro para o mundo.

Uma Rússia democrática e capitalista contribuiria para a economia global e a capacidade do mundo para enfrentar desafios internacionais, entre eles a instabilidade regional, ameaças ambientais, terrorismo e corrupção.

Será que o Ocidente pode fazer alguma coisa para influenciar no resultado? Em último recurso, o destino da Rússia será decidido pelos russos. Mas o Ocidente ainda pode jogar um papel. Com um programa ao estilo do Plano Marshall, ele pode contribuir para moldar uma nova Rússia ajudando a reconstruir a economia destruída pela corrupção; apoiar reformas de governança, educação e saúde; e investir na infraestrutura do país.

Mais importante, o Ocidente devia articular um caminho para reintegrar a Rússia ao mundo livre. Em última instância, os russos se consideram parte da civilização europeia, e mesmo a retórica agressiva de Putin se refere, às vezes, a seus "parceiros" ocidentais, e procura suas "raízes" políticas em "valores europeus verdadeiros". O Ocidente deveria ser claro sobre o que a Rússia precisará para se reaproximar da União Europeia, da Otan, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento e outros organismos internacionais. Estas questões são difíceis; enfrentá-las requererá um grande esforço político e intelectual. O preocupante é que os dirigentes ocidentais tratam estas questões como longínquas demais para se preocupar.

Devíamos aprender uma lição com 1991, quando o rápido desaparecimento da União Soviética pegou todo o mundo de surpresa. Mas precisamos ter o cuidado de não ser confundidos pelo fato de 1991 ter sido relativamente pacífico. Desta vez, haverá muito mais em jogo para a elite governante. O Ocidente deveria se preparar para mudanças súbitas e turbulentas na Rússia. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR DE ECONOMIA NO INSTITUTO DE ESTUDOS POLÍTICOS EM PARIS, CONHECIDO COMO SCIENCES PO.

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