A sedução do Estado Islâmico

Grupo exibe o dia a dia suas integrantes para atrair adesões de mulheres e de homens

ADAM, TAYLOR, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

25 Março 2015 | 02h03

O alcance do Estado Islâmico nas mídias sociais é notório. Segundo um estudo, pelo menos 46 mil contas do Twitter apoiaram o grupo militante em 2014. E, embora grande parte do conteúdo criado pelo EI mostre sua brutalidade, uma boa parte mostra também o lado (relativamente) mais brando.

Na semana passada, uma foto publicada na internet mostrou um grupo de mulheres cobertas com as vestes islâmicas da cabeça aos pés, sentadas num BMW e agitando fuzis automáticos. A conta que postou a foto pela primeira vez foi atribuída a um cidadão australiano que ingressou no grupo.

A fotografia é apenas um exemplo da propaganda compartilhada por mulheres que vivem no território controlado pelo Estado Islâmico; muitas outras mensagens foram compiladas por Ellie Hall do Buzzfeed. E embora algumas delas sejam claramente uma bravata, outras apresentam uma visão mais positiva, até mesmo agradável, da vida dessas mulheres.

Frequentemente, os fotógrafos mostram crianças, comida ou simplesmente o companheirismo entre mulheres.

J.M. Berger, um pesquisador da Brookings Institution, afirma que não há nada de novo nos tuítes que mostram mulheres das regiões do Estado Islâmico, embora recentemente possa ter havido um ligeiro aumento do seu número quando várias contas da mídia do EI voltaram depois de uma longa ausência. "A sociedade civil é uma parte fundamental do seu marketing, em todos os momentos", escreve Berger num e-mail.

Na realidade, evidências colhidas pela Vocatv sugerem que as mensagens de propaganda compartilhadas na mídia social muitas vezes têm um tema positivo, mostrando os benefícios e a normalidade da vida no dia a dia nos territórios que o EI denomina seu "califado". Os partidários do EI no Ocidente, como Anjem Choudary, frequentemente enfatizam detalhes referentes ao bem-estar social do grupo e não apenas à violência.

Atração. A lógica da promoção desse aspecto da vida no EI é evidente: o grupo busca criar um Estado. Para tanto, precisa de mulheres e crianças, não só de homens. Além disso, matérias publicadas no Washington Post de autoria, entre outros, de Liz Sly, mostram que essas aspirações aparentemente não estão se concretizando. Imagens de mulheres vivendo uma vida normal sob o Estado Islâmico podem ser uma tentativa de contestar essa percepção.

Evidentemente, é possível que as imagens compartilhadas na mídia social nem sempre mostrem a realidade. Ainda que algumas mulheres que se uniram ao grupo tenham recebido cargos na Brigada al-Khansaa, que funciona como polícia de costumes, na realidade, acredita-se que a maioria das mulheres deva desempenhar um papel dócil.

No ano passado, um relatório divulgado pela ONU concluiu que havia sérias restrições às mulheres nos territórios controlados do EI, elas estariam "confinadas em suas casas, excluídas da vida pública".

Um documento atribuído ao Estado Islâmico, divulgado este ano, dizia que há "uma necessidade fundamental de as mulheres terem um estilo de vida sedentário". Por outro lado, evidentemente, há muitos relatos de violência contra as mulheres cometida por combatentes do grupo.

Mia Bloom, professora de estudos sobre segurança da Universidade de Massachusetts, em Lowell, afirma que as imagens compartilhadas por mulheres que vivem sob o Estado Islâmico podem ter como objetivo atrair mulheres no exterior para ingressarem no grupo, dando-lhes uma visão da vida das mulheres do califado que não corresponde à realidade. Mas também poderiam ter outra finalidade: atrair outro público, os homens.

"Recrutar mulheres, além de duplicar potencialmente a base de recursos humanos, tem o efeito de convencer os homens a participar", explica Mia. Para os homens, a mensagem é óbvia, ela diz: "Vocês não vêm aqui, então as mulheres optam pelo fuzil". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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