A segunda safra de republicanos

Conservadores rompem com moderados; briga entre eles sobre imigração definirá futuro do país

DAVID BROOKS - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2013 | 02h02

Os liberais estão furiosos, mas a questão do controle de armas não prejudicará de maneira significativa o Partido Republicano. Parece feio, é claro, opor-se à verificação de antecedentes para a compra de armas, uma iniciativa com vasto apoio popular. A posição republicana, é claro, manchará ainda mais a imagem do partido nos bairros residenciais da Filadélfia e do norte de Virgínia. O partido parece radical, é claro, quando não é capaz de aceitar um projeto de lei patrocinado pelo conservador senador Joe Manchin e pelo ainda mais conservador senador Pat Toomey. Mas, convenhamos, a questão do controle de armas tem uma dinâmica peculiar: as pessoas que se opõem às restrições às armas votam sobre isso, enquanto as que são favoráveis não votam.

Além disso, os democratas nunca defenderam em termos irrefutáveis o fato de que o projeto teria sido eficaz, teria evitado futuros massacres, como o da escola de Newtown, ou contribuído para reduzir o índice de criminalidade em todo o país. Os próprios defensores do projeto de lei não estavam tão entusiasmados com seu conteúdo.

O motivo principal pelo qual essa questão não prejudicaria significativamente os republicanos é que ela não influi no debate fundamental que definirá o futuro do partido. O que influirá é a imigração. O futuro próximo da política americana será determinado por quem ganhar o debate sobre imigração.

Nos meses seguintes à eleição, ocorreu uma divisão entre os republicanos que poderíamos chamar de revolucionários de primeira safra e os que poderíamos chamar de revolucionários de segunda safra.

Os primeiros (líderes do partido no Congresso) consideram-se extremamente conservadores. Expulsaram de suas fileiras os moderados remanescentes. Simpatizam com o Tea Party, são leais à Fox News e favoráveis a uma mudança radical do governo. Esses revolucionários de primeira safra não abrandaram seu conservadorismo, mas tentam adaptá-lo com objetivo de conquistar o apoio da maioria. Procuram políticas que estimulem a mobilidade social, para que os republicanos não pareçam tanto o partido dos ricos.

Os revolucionários de segunda safra - como Rand Paul (em algumas questões), Jim DeMint, Ted Cruz e alguns dos principais âncoras de programas de entrevistas no rádio - consideram os revolucionários de primeira safra um bando de incompetentes defensores do establishment. Eles falam do governo Bush-Cheney como se essas gestão se tratasse de um regime republicano liberal liderado por Nelson Rockefeller e Jacob Javits. Afirmam que os republicanos perderam as eleições recentemente porque o partido é liderado por moderados excessivamente sentimentais e ricos, como John McCain e Mitt Romney, e administrado por elitistas que não têm contato com as pessoas comuns, como Karl Rove e Reince Priebus.

Os que pertencem à segunda safra são muito mais agressivos em termos táticos e favoráveis, sempre que possível, aos obstrucionistas e afins. O partido precisa agora, afirmam, de uma revolta ultraconservadora na linha de Barry Goldwater, que derrube o establishment, afunde a reforma da imigração e consiga votos dos hispânicos apelando para os evangélicos entre eles e oferecendo-lhes liberdade econômica.

Republicanos de primeira e de segunda safra mal começaram seu confronto sobre a imigração. Semanas atrás, eu teria pensado que as forças favoráveis à imigração desfrutavam de vantagens gigantescas, mas agora não estou tão certo.

A briga em torno da questão terá uma força insurgente coesa de oposição contra uma frágil coligação de proponentes bipartidários que precisarão defender de maneira ambivalente uma legislação de compromisso cada vez mais ampla. Já vimos este tipo de briga antes. As coisas não costumam acabar bem para os proponentes.

Perspectivas. Quer se trate de armas ou de imigração, é fácil imaginar que o panorama político subjacente, que impedia qualquer avanço no passado, mudou. Mas, quando se tenta realmente conseguir a aprovação de um projeto, muitas vezes descobre-se que o panorama não mudou. Talvez a luta pela reforma em 2013 venha a ter uma inquietante semelhança com a briga de 2007. Os argumentos que poderão convencer os republicanos a apoiar a reforma já estão sobre a mesa. Foram votados na eleição de 2012, enquanto os argumentos contrários só agora começam a aparecer.

É um fato que os grandes beneficiários dessa lei, no curto prazo, não são em geral republicanos: os 11 milhões que vivem nas sombras; os empreendedores do setor de alta tecnologia que conseguirão mais mão de obra especializada. Os derrotados, no curto prazo, são frequentemente republicanos: pessoas brancas da classe trabalhadora que enfrentarão novos concorrentes no mercado de trabalho quando tentarem achar um emprego; os contribuintes que, pelo menos no curto prazo, terão de pagar alguns custos adicionais.

No passado, os políticos republicanos tinham dificuldade para dizer não à revolta mais radical. Mesmo que saibam que, com o tempo, a reforma da imigração acabará sendo positiva para o seu partido, os legisladores poderão pensar que se opor a ela é imediatamente necessário para si próprios.

Será fantástico se os republicanos puderem discutir suas divergências a respeito de um tema político concreto, particularmente a imigração, que implica valores contrastantes do conservadorismo. Mas se a direita revoltosa derrotar a reforma da imigração, será um sinal de que o partido continuará em sua atitude de automarginalização. A revolução devora a si mesma. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É COLUNISTA

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