AP Photo/Emilio Morenatti
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A semana que acordou o mundo; leia artigo

As relações internacionais, como a vida, são um empreendimento moral

David Brooks*, The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2022 | 05h00

Ao longo dos últimos anos, houve um poema famoso que foi citado inúmeras vezes: “O centro não pode suportar”, escreveu William Butler Yeats, antes de acrescentar. “Aos melhores, falta toda a convicção, enquanto os piores estão cheios de uma intensidade apaixonada”. As pessoas gostam de citá-lo tanto porque é verdadeiro. 

Mas, na semana passada, ele não foi tão acurado assim. Os eventos na Ucrânia têm sido uma atrocidade moral e uma tragédia política, mas também representaram uma revelação cultural em todo o mundo. Não é que as pessoas agora professem novos credos, mas muitos foram lembrados do que acreditam. Agora, cremos com mais fervor e com mais convicção. Foi uma semana de veredictos. 

Inspiração

Os ucranianos foram nossos tutores e inspiradores. Eles são os homens e mulheres comuns mostrados em vídeos do New York Times, fazendo filas para pegar em armas e defender sua pátria. Eles são a senhora dizendo ao invasor russo para pôr sementes de girassol em seu bolso. Eles são os milhares de ucranianos que vivem confortavelmente no exterior e voltam para seu país, arriscando a vida, para defender seu povo. 

A eles, devemos muito. Eles nos lembraram não apenas do que é acreditar na democracia, no Estado liberal e na honra nacional, mas também do que é agir com bravura em nome desses valores. Eles nos lembraram que você pode acreditar nas coisas com maior ou menor intensidade – levemente, com palavras ou profundamente, com ardor e a convicção até a alma. 

Eles nos lembraram de como contratempos e humilhações (Donald Trump, o Afeganistão, a injustiça racial e uma política disfuncional) nos levaram a duvidar e não praticar o Evangelho da democracia. Mas, apesar de todos os nossos fracassos, este Evangelho ainda é verdadeiro e reluzente. 

Foi uma semana de fé restaurada. Mas exatamente em quê? Bem, em primeiro lugar na liderança. Vimos muitas lideranças fracassarem ultimamente, mas na semana passada Volodmir Zelenski emergiu como um líder do povo – o cara de camiseta, o comediante judeu, o cara que não fugiu, mas tinha a frase certa preparada: “Preciso de munições, não de uma carona”.

Patriotismo

A fé no verdadeiro patriotismo foi restaurada. Ao longo dos últimos anos, temos visto tanto de um nacionalismo étnico azedo na direita. Uma forma de patriotismo raivosa e xenofóbica. À esquerda, temos visto o desdém ao patriotismo, de pessoas que apoiam vagamente ideais abstratos de nação, enquanto mostram uma gratidão limitada à própria herança. Algumas elites, enquanto isso, se perderam na direção de um globalismo sem alma, num esforço de se erguer acima das nações. 

Os ucranianos nos mostraram como o tipo certo de patriotismo é enobrecedor. É uma fonte de significado e um motivo para arriscar a vida. Eles nos mostraram que o amor por um lugar em particular, sua terra e seu povo, apesar de todos os problemas, pode ser parte de um amor por ideais universais, como a democracia, o liberalismo e a liberdade. 

Houve um restauro da fé no Ocidente, no liberalismo e na comunidade de nações. E houve tantas divisões entre elas – tanto internas e quanto externas. 

Hoje, quando acordo pela manhã, pego meu telefone, me contagio com a Suécia provendo ajuda militar à Ucrânia. Fico fascinado pelo que o povo alemão agora apoia: muitas nações democráticas reagiram às atrocidades com o mesmo sentimento de dever e propósito. 

O mesmo ocorre nos Estados Unidos. Claro que há aquela amarga polarização que usa o momento para chamar a esquerda de fraca ou a direita de apoiar Putin. Sempre existirão pessoas que ficarão felizes de mentir para provocar o caos social. Mas, a esta altura, quase todos os membros do Congresso estão unidos nesta causa maior. E eles estão unidos porque aprendemos a desprezar aquilo que por séculos muitos se acostumaram: que países grandes podem engolir países pequenos, que os poderosos podem fazer o que estiver a seu alcance e os fracos podem sofrer o que for necessário. /TRADUÇÃO DE LUIZ RAATZ

* É COLUNISTA DO ‘NEW YOTK TIMES’, ESCREVE SOBRE POLÍTICA, CULTURA E CIÊNCIAS SOCIAIS

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