A síndrome do segundo filho na China

Pequim flexibilizou política de filho único para tentar salvar economia do país no longo prazo; medida, porém, pode ter sido adotada tarde demais

DANIEL, ALTMAN, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2013 | 02h10

O perfil da população da China se assemelhará em pouco tempo ao do Japão, que tem uma das populações mais idosas do mundo. O resultado disso é que haverá menos trabalhadores para sustentar cada aposentado japonês por meio do sistema previdenciário.

Esses dados demográficos são um importante obstáculo ao crescimento, pois uma parcela maior da produção econômica será destinada ao sustento de indivíduos cuja contribuição para a economia vem diminuindo. Em outras palavras, o padrão de vida mediano declinará ou uma parte maior da produção terá de ser direcionada para o consumo em detrimento da criação de capital e novas tecnologias.

Com o aumento da expectativa de vida, a emigração ultrapassando a imigração e o controle da fertilidade feito por meio da política do único filho, a China caminha rapidamente para registrar o mesmo problema demográfico do Japão. Seguramente, o tempo de vida mais longo e as lacunas na política do filho único permitiram à população chinesa continuar aumentando, ao contrário do Japão. No entanto, a população idosa da China deverá ter forte impacto na economia antes de o país esgotar um dos seus mais poderosos motores de crescimento: a urbanização.

As áreas urbanas são locais ideais para tornar os trabalhadores mais produtivos, aumentando seu padrão de vida, lhes ensinando novas tecnologias e lhes dando acesso a mais capital. Nas cidades é mais fácil construir e manter fábricas, ter acesso à energia e alcançar economias de escala. E também é mais fácil oferecer ao trabalhador e suas famílias assistência médica, educação e outros serviços. Ideias novas circulam mais rapidamente nas cidades, colaborando para melhorar os processos de produção. Em termos de urbanização, a China está quatro décadas ou mais atrás do Japão. A porcentagem de habitantes chineses vivendo em cidades é de pouco mais de 50%, fenômeno que o Japão já registrava em 1950.

Entretanto, a China vem se urbanizando mais rapidamente, segundo a ONU. Como indiquei acima, porém, o país está no caminho de se tornar tão velho como o Japão dentro de três décadas, o que indica que a realização do seu potencial econômico pode ter um fim prematuro. A urbanização constante poderia ajudar o país a fazer frente aos encargos previdenciários futuros, porém, o crescimento e o padrão de vida da população, ainda assim, serão prejudicados.

A flexibilização da política do filho único, prometida pelo Comitê Central do Partido Comunista, pode alterar esse futuro econômico. Se a taxa de fertilidade crescer, digamos 20%, então, em duas décadas, o número de trabalhadores será 20% maior também. E, dentro de mais uma década, o aumento da mão de obra pode alcançar 5%. Com o tempo, a proporção de trabalhadores em relação a aposentados continuará a aumentar.

Fazendo retroceder o envelhecimento da população, a China garantirá um horizonte mais longo para um crescimento forte. Naturalmente, enfrentará outros obstáculos, incluindo as instituições legais frágeis e um clima empresarial corrupto, mas suas principais fontes de crescimento seriam menos constrangidas. Mas a história não acaba aqui.

A política do filho único tem sido um elemento fundamental da cultura chinesa há décadas e qualquer mudança afetará profundamente as decisões tomadas pelas famílias. Pais que só têm um filho costumam investir muito nele. Mas, quando têm mais um, uma combinação de três coisas costuma ocorrer: primeiro, os pais trabalham mais para prover os mesmos recursos aos dois filhos, embora ocorra uma redução do tempo disponível aos cuidados da criança e o lazer da família; segundo, podem repartir os recursos igualmente entre os dois filhos; por fim, podem dedicar mais recursos ao filho que parece mais promissor ou, inversamente, para aquele que necessitaria de mais apoio.

Muitas famílias chinesas não se decidiram nesse sentido. Elas têm investido tudo em seus pequenos imperadores, o que se traduz em melhor nutrição, saúde e educação. A melhora dos indicadores de desenvolvimento humano, de acordo com a ONU, deve-se às restrições impostas pela política do filho único. Mas, se abolir tal restrição antes de enriquecer o bastante, a China pode diminuir o ritmo do avanço, impedindo o crescimento.

A transição para uma política de dois filhos pode provocar riscos imediatos. O rápido aumento da oferta de mão de obra, quando a primeira grande legião de trabalhadores chegar ao mercado, pode provocar desemprego, combustível para rebeliões e insatisfação política. O aumento da população nas cidades também pode tornar a urbanização mais lenta, se a competição por vagas de trabalho aumentar a hostilidade contra migrantes internos.

A transição será gradativa e alguns riscos podem ser manobrados. É possível que as mudanças só tenham um efeito marginal sobre a fertilidade e afetem apenas 20 milhões de pais. Naturalmente, muitas famílias poderão decidir não ter mais filhos. Mas, mesmo que o fim da restrição leve a mais 10 milhões de nascimentos ao ano, os efeitos a longo prazo sobre a economia serão ambivalentes. A China enriquecerá antes de envelhecer? Ao examinar as projeções demográficas de longo prazo, a resposta me parecia não, mas o abrandamento da política de filho único pode mudar tudo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PROFESSOR DE ECONOMIA DA

UNIVERSIDADE DE NOVA YORK

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