A Síria, Obama e Putin

O líder russo subiu numa árvore e não poderá descer dela sem a ajuda americana

THOMAS L. FRIEDMAN*, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2015 | 02h02

Barack Obama agiu corretamente ao adotar uma posição ambivalente na questão síria. Mas ele nunca teve a coragem de expor seu raciocínio ao povo americano. Ele continua deixando que o obriguem a fazer e dizer coisas que sabe que não funcionam; sua retórica excede a estratégia, que não funciona.

Os críticos republicanos carecem totalmente da sabedoria adquirida com a experiência. Eles defendem tranquilamente "preparar, apontar, fogo" na Síria, sem nenhum motivo para acreditar que isso funcione melhor do que funcionou no Iraque ou na Líbia. Pessoas que não sabem como recuperar o centro de Baltimore acham que sabem como resgatar Alepo - pelo ar!

O clichê mais comum hoje é que a astuta raposa Vladimir Putin, da Rússia, mais uma vez pegou os americanos de surpresa e enviou tropas, aviões e tanques para a Síria a fim de oferecer ajuda ao regime de Bashar Assad e combater as forças do Estado Islâmico. Quem dera os EUA tivessem um presidente tão ousado, tão durão, tão esperto!

Será mesmo? Os muçulmanos sunitas são a grande maioria na Síria. Eles são a seita dominante no mundo árabe. Putin e a Rússia serão vistos como protetores de Assad, um criminoso de guerra genocida alauita/xiita. Putin afastará todo o mundo muçulmano sunita, incluindo os muçulmanos russos.

Além disso, digamos que, por algum milagre, os russos derrotassem o EI. A única maneira de fazer com que continuassem na posição de derrotados seria substituindo-os por sunitas moderados. Quais seriam os sunitas moderados que se alinhariam com a Rússia enquanto Putin fosse considerado o principal defensor de Assad, o maior assassino de sunitas do que qualquer outro no planeta?

Putin, estupidamente, foi para a Síria em busca de uma excitação barata para mostrar ao seu povo que a Rússia é ainda uma potência mundial. Agora, ele está em cima de uma árvore. Obama e John Kerry deveriam deixá-lo lá por um mês - ele e Assad, combatendo sozinhos o EI - e ficar observando enquanto ele se torna o inimigo público n.º 1 para o mundo muçulmano sunita.

A única maneira de Putin descer da árvore é com a ajuda dos EUA, formulando uma solução política na Síria. E isso só acontecerá se forças russas e iranianas obrigarem Assad a deixar o poder. / Tradução de Anna Capovilla

*Thomas L. Friedman é colunista do The New York Times

Mais conteúdo sobre:
visão global

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.