A Síria e a queda da Al-Jazeera

Ao seguir os interesses do Catar, emissora tem comprometido sua credibilidade com uma cobertura parcial do conflito

SULTAN AL-QASSEMI (FOREIGN POLICY) é comentarista político, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2012 | 03h04

Enquanto a guerra grassa na Síria entre tropas do regime e facções rebeldes, outra batalha se trava no mundo da imprensa. A Al-Arabiya e a Al-Jazeera, os dois canais do Golfo que dominam o noticiário árabe, começaram contestando a propaganda do regime sírio, mas acabaram distorcendo as notícias de forma quase tão grave quanto seus adversários.

No esforço de apoiar a causa dos rebeldes sírios, as gigantes da mídia baixaram seu padrão jornalístico, abandonaram as mais simples verificações dos fatos e passaram a basear-se em telefonemas anônimos e vídeos não verificados, em vez de fazer reportagens honestas.

A Al-Jazeera e a Al-Arabiya foram fundadas por membros das famílias reais do Catar e da Arábia Saudita, respectivamente, e sua cobertura da Síria reflete fielmente as posições políticas dos seus patrocinadores. Há muito dinheiro por trás das duas. A Al-Jazeera foi criada com um doação de US$ 150 milhões do emir do Catar, em 1996, e os gastos anuais dos vários canais da rede chegaram a US$ 650 milhões em 2010, segundo a empresa de pesquisa de mercado Ipsos.

A história da Al-Arabiya é parecida. Ela foi criada em 2003 com um investimento de US$ 300 milhões por um grupo de investidores libaneses e do Golfo liderados pelo empresário saudita Waleed al-Ibrahim, cunhado do falecido rei saudita Fahd.

As cifras corretas dos orçamentos operacionais anuais desses canais são desconhecidas, mas, provavelmente, chegam a centenas de milhões de dólares. A Alhurra, muito menor, financiada com dinheiro do governo americano, em comparação, gasta cerca de US$ 90 milhões ao ano para funcionar.

A cobertura do levante sírio esgotou os recursos desses canais. Os anúncios em horário nobre foram reduzidos ou mesmo cancelados, diminuindo a receita. Em lugar de segmentos jornalisticamente bem feitos, algumas matérias baseiam-se quase exclusivamente em "testemunhos oculares" de jornalistas amadores e de gravações da mídia encontradas no YouTube.

Para o telespectador que não fala árabe, a cobertura do noticiário da Síria nesses canais assemelha-se ao iReport da CNN - programa interativo de meia hora de duração elaborado por amadores -, mas com a duração de várias horas por dia. Não é raro sintonizar um dos dois canais e descobrir que os primeiros 20 minutos de uma transmissão são material de ativistas sírios - alguns de origem obscura -, que transmitem via Skype notícias de acontecimentos que ocorreram a centenas ou milhares de quilômetros de distância.

Quando a Al-Arabiya e a Al-Jazeera comentam diretamente assuntos sírios, costumam esconder as falhas dos rebeldes e enfatizar o teor religioso do conflito. O pior da cobertura pelos dois canais foi quando concederam uma plataforma ao clérigo Adnan al-Arour, sunita radical, que certa vez afirmou que os sunitas "moerão a minoria alauita síria e darão a carne aos cachorros" em razão do apoio a Bashar Assad". Se a Al-Arabiya se referiu a Arour como o "símbolo da revolução", a Al-Jazeera o apresentou como o maior militante não violento contra o regime".

Interesses. Essas TVs em língua árabe fazem o pior trabalho quando têm o maior interesse político em sua cobertura. No inicio de julho, o general Manaf Tlass, amigo da família Assad e filho de um ex-ministro da Defesa sírio, fugiu para a França. Várias semanas mais tarde, ele rompeu o silêncio via imprensa saudita e realizou uma peregrinação religiosa para o reino, oferecendo-se como figura unificadora para liderar a conflituosa oposição da Síria no exílio.

Somente no reino da fantasia os sírios, que pagam com o sangue de milhares de pessoas a derrubada a ditadura, concordariam em permitir que um membro do antigo regime substituísse Assad. No entanto, essa parece ser a hipótese que a Al-Jazeera e a Al-Arabiya apoiam. No começo, ambos os canais deram a maior cobertura à deserção de Tlass, mas depois que o ex-general preferiu fazer suas declarações exclusivamente à imprensa saudita, que inclui a Al-Arabiya e o jornal Asharq al-Awsat, a Al-Jazeera passou a esnobá-lo.

A Al-Arabiya descreveu a deserção de Tlass, que não tinha nenhum poder na época da fuga, como um "duro golpe" para Assad. Contou também que vários membros de sua família se opõem ao regime, mas não mencionou seu tio Talal, que é vice-ministro da Defesa.

Desafios. Evidentemente, fazer reportagens na Síria é perigoso. De fato, o país é o lugar mais perigoso do mundo para os repórteres. Blogueiros e jornalistas são presos pelo regime desde o início do conflito e pelo menos 18 jornalistas perderam a vida desde novembro. Além disso, guardas do governo acompanham os repórteres que entram no país.

As TVs, porém, usam os desafios reais da reportagem dentro da Síria como desculpa para evitar matérias que contestem suas histórias. Por exemplo, quando muitos levantaram dúvidas sobre a credibilidade do Observatório Sírio para os Direitos Humanos, grupo opositor sírio com sede em Londres, a Al-Jazeera e a Al-Arabiya não tocaram no assunto.

Os jornais de todo o mundo concentram-se também na presença de grupos terroristas, como a Al-Qaeda, entre os que combatem o regime, mas essa possibilidade é raramente contemplada nas principais TVs árabes, que também sofrem uma dicotomia do gênero "Yasser Arafat", uma referência ao líder palestino que tinha o hábito de preparar sua mensagem segundo o público.

A retórica das estações difere consideravelmente dependendo da língua na qual é transmitida. Por exemplo, os sites em inglês da Al-Jazeera e da Al-Arabiya abordam o tópico dos combatentes da Al-Qaeda na Síria, que não é mencionado em suas congêneres em língua árabe. Em vez disso, os canais árabes entrevistam convidados que refutam qualquer sugestão nesse sentido.

A Al-Jazeera e a Al-Arabiya não são as únicas que comprometem os seus padrões jornalísticos na Síria. Veículos ocidentais, como o Guardian, foram enganados por um autor que dizia ser uma jovem lésbica em Damasco, quando na realidade era um americano que morava na Escócia. O editor do BBC World News também criticou o sensacionalismo dos relatos iniciais do massacre de Houla. "É mais importante do que nunca que noticiemos o que não sabemos e não apenas o que fazemos", disse.

Evidentemente, o outro lado tem sido igualmente ruim. Veículos de propaganda iraniana recentemente intensificaram sua defesa de Assad, publicando uma série de artigos que acusam o Catar de financiar o terrorismo e de conspirar com Israel. Esses ataques da imprensa iraniana visavam o governo saudita, mas são um fenômeno novo em relação ao Catar, com o qual o Irã divide o maior campo de gás do mundo.

O Russia Today, tanto em árabe como em inglês, reflete os veículos da mídia oficial iraniana em sua cobertura, referindo-se aos manifestantes como terroristas ou militantes, mas fecha, ao mesmo tempo, os olhos para as atrocidades do regime. Assim como o Irã, o Russia Today também atacou o Catar, acusando-o de "estar sintonizado com a política de Washington na região".

O verdadeiro prejuízo, porém, é o da Al-Jazeera, um canal visto por dezenas de milhões de telespectadores árabes no ano passado, no ápice dos levantes árabes, hoje reduzido a uma sombra do que foi. Depois que escrevi sobre a parcialidade da TV em favor da Irmandade Muçulmana do Egito, no mês passado, mais de dez funcionários do canal confirmaram o fato para mim por e-mail.

Críticas. A Al-Jazeera emprega as mesmas táticas na cobertura da ala síria da Irmandade Muçulmana, que faz parte do movimento de oposição, assim sua congênere egípcia. A Al-Jazeera em árabe nomeara, inicialmente, Ahmed Ibrahim, o irmão de Anas al-Abdah, membro do Conselho Nacional Sírio (CNS), dominado pela Irmandade Muçulmana, para a redação síria. Ibrahim usa outro nome para evitar ser associado ao irmão. Em razão do parentesco, analistas favoráveis à Irmandade frequentemente são convidados a expor suas posições.

Por exemplo, o membro do CNS Mohamed Aloush, convidado frequente do canal, publicou um longo artigo de opinião no site do canal afirmando que a nova aliança da Irmandade Muçulmana Síria é uma "mensagem de confiança" ao povo sírio.

Felizmente, as críticas à Al-Jazeera e à Al-Arabiya aumentaram juntamente com a parcialidade da cobertura. Fadi Salem, pesquisador sírio de Dubai, acusou ambos os canais de "pagarem consideráveis somas de dinheiro a anônimos que ligarem com informações sobre a Síria" e de reciclar os vídeos do YouTube como se fossem feitos em partes diferentes do país. "Muitas figuras da oposição síria que não concordam com a política externa saudita e do Catar são banidas de ambos os canais", disse Salem.

Um grande segmento das audiências da Al-Jazeera e da Al-Arabiya, amedrontado com a brutalidade do regime, acredita piamente que essa é a batalha do bem contra o mal. Mas, para os governos saudita e do Catar, o destino da Síria afeta diretamente seu futuro político. Eles querem a queda do regime por motivos pessoais e estratégicos.

O fim de Assad é outro capítulo na transformação da antiga ordem do Estado árabe, que começou com a queda de Saddam Hussein, no Iraque, e com o fim do Egito de Hosni Mubarak. Essa é uma história muito importante para ser deixada nas mãos de veículos que só estão preocupados em promover os próprios interesses. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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