A Síria e o alto custo da falta de ação internacional

Líder rebelde diz que intervenção impediria guerra civil

É ANALISTA DE ORIENTE MÉDIO EM , WASHINGTON, FIRAS, MAKSAD, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, É ANALISTA DE ORIENTE MÉDIO EM , WASHINGTON, FIRAS, MAKSAD, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2012 | 03h06

Enquanto discutem o que fazer diante da atual crise na Síria, os líderes mundiais continuam procurando uma alternativa viável para mais de 40 anos de governo da família Assad. O Conselho Nacional da Síria, composto na maior parte por líderes políticos no exílio, tornou-se a voz da oposição no exterior.

Mas e a atuação do Exército Livre da Síria, a força rebelde cada vez mais numerosa, que reúne milhares de desertores e agora ataca as tropas do presidente Bashar Assad? Em busca de respostas, encontrei-me com um comandante do Exército Livre numa construção segura, fria e escura, perto da fronteira da Síria com o Líbano. O silêncio nervoso era cortado pelo som das balas disparadas dos morros distantes. Demorou algum tempo antes que aparecessem os faróis de um veículo que descia pela estrada sinuosa da montanha em meio à mais profunda escuridão. Pouco depois, o comandante Ahmad al-Arabi entrou na casa, segurando um fuzil Kalashnikov.

Al-Arabi é um homem corpulento de pouco mais de 50 anos, sem barba, apenas com o tradicional bigode sírio e um sorriso carismático.

Depois de uma conversa amena para acalmar os nervos tensos, o comandante, que opera no Líbano, começou a falar do que mais me interessava. O batalhão que ele comanda é o Alvorada da Liberdade e sua área de operações estende-se das montanhas do norte do Líbano aos arredores da cidade sitiada de Homs, na Síria, distante cerca de 18 quilômetros.

Seu objetivo é a defesa dos desertores feridos e dos refugiados que vão para o norte do Líbano - garantindo as rotas de fuga e defendendo-os em solo libanês. Também garante que a ajuda humanitária chegue em segurança a Homs e facilita a entrada aos jornalistas estrangeiros em busca de informações sobre o levante.

As ordens para as centenas de soldados de Al-Arabi que operam na Síria são emitidas pela liderança rebelde no sul da Turquia. E embora seja ininterrupto o fluxo de notícias sobre as deserções dos militares de Assad e subsequentes ataques contra suas forças, o comandante insiste que todos obedecem a uma autoridade centralizada: "Nossas unidades empregam táticas de ataque e fuga".

Abu Mohammad e sua mulher são refugiados que o Exército Livre afirma estar protegendo. Eles caminharam por centenas de quilômetros da cidade de Deraa, no sul da Síria, até chegar em segurança às montanhas do norte do Líbano. Ele é procurado por participar dos protestos contra o regime que levaram ao levante, há dez meses. Como não conseguiram capturá-lo, as tropas do governo torturaram e mataram seu filho de 3 anos. Seu corpo foi devolvido com os dedos decepados e várias balas no peito. Enquanto o pai arrasado contava sua história angustiante, a mulher amamentava um bebê anêmico nascido prematuramente durante a fuga.

Contrariamente às afirmações do regime, a ajuda externa ao Exército Livre continua escassa. O número cada vez maior de deserções depende do que os soldados podem levar dos quartéis do Exército regular.

Líderes militares líbios, que recentemente derrubaram Kadafi com o apoio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), seriam os únicos a oferecer alguma assistência aos rebeldes. Líderes ocidentais, turcos e árabes têm preocupações legítimas quanto ao apoio ao Exército Livre da Síria. Entre elas, evitar um confronto militar direto com o regime sírio que tem enormes estoques de armas químicas e mísseis balísticos e continua usando a ameaça de recorrer à violência política.

Mas, enquanto a Síria caminha para uma guerra civil que poderá se espalhar para os vizinhos Líbano e Iraque, o preço da falta de ação do Ocidente não para de crescer. Além disso, com o aumento da violência do regime e da contra violência, manter a revolta síria em termos pacíficos não é mais uma opção.

A comunidade internacional precisa de uma estratégia clara para apressar a mudança de regime na Síria, e o Exército Livre agora é um dos elementos cruciais dessa equação.

Para o comandante Al-Arabi, uma zona de exclusão aérea adotada internacionalmente ou um corredor humanitário ao longo da fronteira turco-síria são imprescindíveis. Segundo ele, essa possibilidade daria cobertura a milhares de soldados que ainda não conseguiram desertar. Também aceleraria a queda do regime e impediria que a Síria mergulhasse na guerra civil.

Apesar das dificuldades, rebeldes e refugiados acreditam que o regime Assad está chegando ao fim. Mas a pergunta é: a que custo? Quando o comandante Al-Arabi se levantou para ir embora, me fez uma promessa: "Se eles (o Ocidente) nos ajudarem, quero que meu filho se chame Juppé", o nome do chanceler da França que vem apelando para uma intervenção humanitária. Depois desapareceu na escuridão. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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