A Síria e o fracasso árabe-ocidental

Análise: Hussein Ali Kalout

É DIRETOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DO , SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2012 | 03h07

A situação na Síria vai de mal a pior. As forças rebeldes não conseguem depor Bashar Assad. O limite da fratura alcançou uma profusão étnico-religiosa que não será fácil de resolver. O país está dividido em partes desiguais. Uma prefere a ordem e a estabilidade, enquanto a outra quer liberdade e democracia. O governo tem o apoio da elite econômica, das minorias religiosas e do Exército. Os opositores comportam um conselho de transição carente de legitimidade, milícias extremistas desordenadas e frágeis movimentos civis pró-democracia.

O problema vai além do confronto interno. A situação se insere numa lógica geopolítica complexa. A Síria é um ator vital no Oriente Médio, pois é aliada do Irã, exerce influência sobre o Líbano, tem a maior população de refugiados palestinos do mundo árabe e tem conexões com Hezbollah e Hamas, ambos inimigos de Israel.

A Síria é a chave da solução de vários problemas regionais. Por isso, o conflito passa por uma complexa equação que abarca interesses difusos de atores triviais na balança de poder na região, como Rússia, EUA, Israel, Irã, Turquia, Arábia Saudita e as velhas potências europeias.

Na visão da Rússia, Damasco é peça fundamental em seu tabuleiro. A Síria é o último bastião que os russos conseguiram preservar no mundo árabe e Moscou não pretende abdicar de seu domínio, ainda mais com a volta de Vladimir Putin. Para deter a hegemonia dos EUA, o Kremlin não hesitará em proteger a Síria a qualquer preço, tal como os americanos fazem com Israel.

O interesse de Washington é preservar seu poder e evitar confrontos com Moscou. A intervenção representaria um estrangulamento diplomático nas relações entre as duas potências. O desejo americano na queda do regime é limitado. O fim de Assad pode ter múltiplos efeitos, quase todos negativos para a Casa Branca, que não pode assumir isso publicamente. Apesar da retórica e das condenações políticas, o presidente Barack Obama hesita em armar a oposição. Um governo sírio extremista e hostil a Israel seria o pior dos cenários.

Já os israelenses temem reivindicações mais incisivas para que o país devolva as Colinas do Golã para a Síria. A manutenção do status quo é a política israelense nos bastidores. A estabilidade de Assad é vital também para os iranianos. O eixo Teerã-Bagdá não se estenderia ao Líbano sem Damasco. Por isso, o Irã aposta no fortalecimento de Assad para evitar seu isolamento.

A Turquia vê na questão uma chance de retomar sua influência na região. A diplomacia turca tem sido mediadora na questão nuclear iraniana e nos conflitos árabe-israelense e sírio. Já a Arábia Saudita liderou o movimento anti-Assad incentivando e armando os rebeldes. Os sauditas veem no fim do regime sírio o caminho para o desmantelamento do corredor xiita sob patrocínio iraniano. Os sauditas, porém, carecem de legitimidade para atuar contra Assad. Afinal, agiram mal nos conflitos no Bahrein, Iêmen e Darfur. Riad caiu em descrédito ao blindar países do Golfo das violações de direitos humanos. Sem as bandeiras da liberdade e da democracia, restou o mantra da distensão política para inflamar o confronto.

Enquanto o conflito sírio apresenta imagens cada vez mais aviltantes, o Ocidente segue a estratégia de não confrontar a Rússia, dar tempo para Assad derrotar os rebeldes e restaurar a ordem. Tudo isso ocorre sob uma cortina diplomática calcada num plano inexequível de Kofi Annan com o apoio da inoperante Liga Árabe.

A saída para o conflito só será viável com a criação de um grupo de países mediadores que deve atuar à margem do conflito. Nos esforços pela resolução do impasse, o Brasil pode desempenhar um papel decisivo. Os argumentos em favor da atuação brasileira são vários: ausência de ceticismo da oposição, conexões históricas e culturais com os sírios e o papel do Ibas (Índia, Brasil e África do Sul) no dialogo com Damasco.

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