A Síria é uma nova Ruanda

Vinte anos depois do genocídio ruandês, o mundo se sai melhor em ações preventivas

James Traub*, Foreign Policy /O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2014 | 02h01

Quando pensamos em Ruanda, hoje, provavelmente não lembramos do genocídio que começou há 20 anos, mas da repressão recente que o presidente Paul Kagame teria usado contra seus adversários e do modo como explorou o caos no vizinho Congo. Kagame comprometeu a reputação de Ruanda e sua condição de vítima.

Entretanto, não deveríamos permitir que os crimes de Kagame eclipsassem as extraordinárias realizações do povo ruandês nos últimos 20 anos - graças em parte ao próprio Kagame. Ele conquistou o direito de continuar chamando a atenção para a sua atuação que consistiu em impedir massacres recíprocos, como numa recente entrevista à revista Foreign Affairs.

As atrocidades ruandesas foram maiores e muito mais pessoais do que as ocorridas nos Bálcãs; mas os ruandeses as superaram de maneira muito mais efetiva do que os bósnios. Indubitavelmente, isso aconteceu em grande parte por causa da posição dominante de que os tutsis desfrutam atualmente e da disciplina imposta aos hutus; mas isso não teria sido possível sem uma disposição geral à reconciliação.

Essa é uma parte essencial do legado do genocídio de Ruanda. E quanto ao legado internacional? Indagado sobre a possibilidade de os crimes de Ruanda voltarem a ocorrer, Edward Luck, ex-assessor do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, salientou que a vergonha do fracasso, naquela ocasião, e o surgimento de normas como a "responsabilidade de proteger" fizeram com que a ONU e os países passassem a responder muito mais rapidamente a atrocidades do que há 20 anos.

Na República Centro-Africana, para dar um exemplo, uma combinação de forças francesas e da União Africana conseguiu, até o momento, impedir que os massacres mútuos de muçulmanos e cristãos acabassem se tornando uma carnificina generalizada.

Realmente, o mundo se sai melhor nas ações preventivas, ainda assim não muito bem. Hoje, o Departamento de Operações de Paz da ONU não ocultaria um desesperado telegrama de advertência a respeito de um pogrom iminente, como ocorreu no caso de Ruanda. No entanto, resta o fato de que "outra Ruanda" está acontecendo neste momento na Síria.

Ruanda não é a analogia mais feliz quando tentamos refletir no fato de o mundo não responder às atrocidades na Síria. O genocídio poderia ter sido impedido por uma decisiva ação preventiva, mas as matanças aconteceram de maneira tão rápida que, uma vez desencadeadas, a hesitação mundial selou o destino do povo tutsi.

Por outro lado, o caos na Bósnia, assim como na Síria, foi instaurado por um exército nacional e por paramilitares como uma política de Estado, o que tornou ainda mais difícil preveni-lo. Ambos continuaram durante anos, proporcionando aos que estavam de fora inúmeras oportunidades para intervir.

O presidente dos EUA na época, Bill Clinton, recusou-se a intervir na Bósnia. Ele temia os custos políticos do fracasso depois do fiasco da operação realizada na Somália (conhecida como a Batalha de Mogadiscio), em 1993. Ele estava convencido de que as disputas sangrentas nos Bálcãs ocorrem há tempos imemoriais e são incuráveis, e, portanto, que qualquer envolvimento maior dos EUA falharia.

O presidente Barack Obama tem reiterado que a situação na Síria é infelizmente insolúvel. Numa recente entrevista, Obama insistiu que é "uma falácia acreditar que, de algum modo, nós estávamos em condições de impedir o tipo de adversidade que vemos na Síria com alguns ataques seletivos".

Evidentemente, ninguém sugeriu que "alguns ataques seletivos" derrubariam o regime sírio. Ao contrário, em 2012, vários dos assessores mais experientes, como a secretaria de Estado, Hillary Clinton, e o diretor da CIA, David Petraeus, propuseram um esforço maior para armar os rebeldes moderados. Obama recusou-se a agir, assim como fez Clinton, até que a carnificina em Srebrenica finalmente o obrigou a forçar a mão. Obama também espera uma solução negociada que de modo algum terá qualquer chance de sucesso sem a ameaça da força.

Não sabemos ao certo o que se passa na cabeça do presidente. O que sabemos é que ele adiou uma ação enquanto pôde, depois de um evento da mesma gravidade de Srebrenica - os ataques químicos que mataram 1,2 mil sírios que ultrapassaram a "linha vermelha" - e então aproveitou da proposta russa de tirar as armas químicas do regime em vez de lançar ataques aéreos.

Obama está convencido de que um maior envolvimento americano está fadado a fracassar e sabe que esse fracasso teria graves custos políticos. Em outras palavras, uma profunda consciência dos custos o predispõe a ouvir seus assessores, segundo os quais, qualquer tipo de intervenção não teria a menor eficácia.

O número de mortos na Síria ultrapassa os 150 mil, enquanto o regime de Damasco despeja bombas de barril de helicópteros em ataques sobre áreas civis. Obama optou por não destruir esses helicópteros com ataques aéreos ou equipar os rebeldes com a capacidade de derrubá-los. Esse, porém, é o presidente que criou o Conselho para a Prevenção de Atrocidades e se cercou dos mais importantes promotores da "responsabilidade de proteger", como Susan Rice (conselheira da Casa Branca) e Samantha Power (embaixadora dos EUA na ONU).

Então, qual é o legado de Ruanda? Em primeiro lugar, que a reconciliação é possível, mesmo no caso da violência mais horrenda. Em segundo lugar, que o mundo agora criou mecanismos e reflexos diplomáticos que podem ser empregados para impedir que a violência expluda em assassinatos em massa.

Organizações regionais como a União Africana agora estão dispostas, em alguns casos, a enviar tropas para acabar com tal violência. Mas quando a matança só puder ser contida pela força que o Ocidente tem condições de organizar, o mundo olhará para os EUA e seu líder.

O triste legado de Ruanda que testemunhamos agora em Washington é um presidente que considera suas opções com um ceticismo muito maior do que os defensores da ação. Ele só agirá quando a probabilidade de sucesso for muito grande.

O preço do fracasso continuará proibitivamente elevado enquanto os eleitores sentirem uma escassa urgência de acabar com as atrocidades lá fora. Se, por outro lado, o público em geral clamar por algum tipo de intervenção, o cálculo político do presidente mudará.

Nenhum líder, porém, deve esperar que, numa questão tão angustiante quanto essa, a opinião pública se modificará por conta própria. Precisamos de um presidente corajoso para explicar os motivos pelos quais agir em circunstâncias tão trágicas é de seu interesse e do interesse da humanidade.

*James Traub é colunista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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