A sobrevida de Roberto Bolaño

Questionado sobre o que seria se não fosse escritor, Roberto Bolaño não hesitou. "Um detetive de homicídios", disse à jornalista Monica Maristain, da Playboy mexicana. "Eu teria sido a pessoa que volta sozinha à cena do crime, à noite, sem medo de fantasmas." A entrevista, sua última, foi publicada em 2003, ano em que ele morreu de uma doença no fígado. Não se sabe o que seu fantasma anda aprontando, mas bem que poderia começar investigando seu próprio distrito.

É CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK NO BRASIL, COLUNISTA DO ESTADO, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC , MARGOLIS, É CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK NO BRASIL, COLUNISTA DO ESTADO, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC , MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2011 | 03h04

O que dizer do fato de que a figura mais festejada da literatura regional já ter morrido há nove anos e continuar assinando livros? O autor de 2666, Os Detetives Selvagens e Terceiro Reich poderia elucidar o que se passa com a ficção latino-americana, que foi do boom dos anos 60 e 70 ao banho-maria de hoje, com narrativas intimistas, excêntricas e apolíticas.

Suspeitos não faltam, mas Bolaño era muito melhor em semear mistérios do que em solucioná-los. Os investigadores de Os Detetives Selvagens não descobrem rigorosamente nada, uma paródia do gênero. Chileno, ele iniciou sua carreira em Santiago, mas, com o golpe de 1973, pegou a estrada e se mandou para o México, depois para a Espanha, adaptando-se tão bem em cada país que se tornou o primeiro escritor latino-americano verdadeiramente global.

Com seu estilo fino e implacável, atentou contra as convenções e modos da literatura latino-americana. Rejeitou rótulos e desdenhou bairrismos, como a "chilenidade". Em O Gaúcho Insuportável, ironizou a cultura dos desbravadores argentinos com a intimidade dos nativos. Os "mexicanismos" de Os Detetives Selvagens deram nós na cabeça dos tradutores.

Desprendido, ocupou um terreno diferente. Respeitou o gênero que alçou a América Latina aos holofotes mundiais, mas sem se curvar aos padrinhos do realismo mágico - há três referencias discretas a Gabriel García Márquez na antologia de ensaios. Tampouco se pautou pelo jogo ideológico de soma zero da região, onde intelectuais de direita e esquerda deixaram modelos desastrosos e trágicos.

Teve pouca paciência com os meandros da literatura recente. Há duas ou três décadas, os escritores latino-americanos se serviram dos anseios e conflitos de sua sociedade, não apenas de seu umbigo. As ditaduras que inspiraram o boom - Pinochet, Somoza e Trujillo - eram grotescas e fantásticas, talhadas para a ficção. O retorno da democracia desviou os holofotes e a literatura perdeu sua urgência.

O argentino César Aira escreve romances densos e sensuais, com toques de fantasia e paranormalidade. Alejandro Zambra, do Chile, e o boliviano Rodrigo Hasbún são minimalistas. A peruana Gabriela Wiener é inspirada nos clubes de swing. Talentosos, cultos e avessos à política, exploram suas próprias almas, mas raramente a injustiça e a liberdade que antes encantavam os leitores.

Bolaño desconfia do gênero. "Não tenho nada contra autobiografias, desde que o autor seja muito macho", escreveu em Entre Parênteses. Sua desconfiança não deixa de ser uma pista para os herdeiros da nova ficção que ainda buscam sua voz.

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