A sobrevivência da Otan

Os delegados devem refletir como a instituição tem sido vital; é importante que não seja relegada à irrelevância por falta de financiamento

Gary J. Schmitt/The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2014 | 02h03

Um ano atrás, sempre que a reunião de cúpula da Otan era mencionada, a questão sobre qual deveria ser a pauta provocava uma perplexidade quase universal. Com o fim das operações de combate no Afeganistão, uma Europa tranquila e a falta de entusiasmo em Washington e Bruxelas por qualquer envolvimento mais profundo no Oriente Médio, a lista de tópicos possíveis era tudo menos bombástica.

A diferença que alguns meses podem fazer! A Rússia invadiu um país europeu vizinho, a Ucrânia, e anexou parte dele, a Crimeia. Enquanto isso, na periferia da Europa, o Oriente Médio está cada vez mais instável, violento e perigoso para EUA e Europa.

A Otan oferece fortes razões para ser considerada a mais importante aliança político-militar da história. Foi um baluarte contra as investidas soviéticas por quatro décadas e criou as condições de segurança que permitiram que o continente europeu, dilacerado pela guerra, se tornasse "íntegro e livre". Não convém esquecer que, nos últimos 15 anos, os EUA foram à guerra juntamente com a Otan ou seus membros.

Mas a Otan hoje parece estar nas últimas. Mesmo após a invasão da Ucrânia, não mudou muita coisa. A maioria das medidas militares tomadas até agora pela aliança em resposta à intervenção da Rússia foi, na melhor hipótese, modesta. Por trás dessa reação apática está o interesse declinante da Europa na aliança. Não há evidência mais reveladora disso do que o declínio abrupto dos orçamentos de defesa dos Estados-membros europeus nas duas últimas décadas. Apesar do acordo alcançado por membros da Otan em 2002 para manter um piso no orçamento de defesa de pelo menos 2% do PIB das principais potências, somente a Grã-Bretanha cumpriu essa meta. E estudos indicam que, a menos que as tendências orçamentárias sejam alteradas, a Grã-Bretanha também poderá ficar abaixo dos 2% em 2017.

A redução dos gastos militares é um tema comum por toda a Europa. Cinco anos atrás, segundo a Otan, o orçamento militar da França perfazia 2,4% de seu PIB; no ano passado, estava em 1,9% e a legislação fiscal francesa estipulava que não haveria aumentos até 2019. Quanto à Alemanha, a locomotiva econômica da Europa, ela gasta somente 1,3% de seu PIB em defesa.

Nos anos 90, os Estados europeus da Otan gastavam em média 2,3% de seu PIB em defesa. Não era um grande orçamento, mas mesmo assim era substancialmente maior do que a média atual de 1,5%. A parte dos EUA nos orçamentos da Otan é de aproximadamente 22%, enquanto seu gasto total com defesa representa hoje 73% dos gastos militares combinados de todos os membros da aliança - alta de 5 pontos porcentuais desde 2007.

Esse salto é particularmente chocante, pois ocorreu ao mesmo tempo em que os EUA faziam cortes substanciais em seu orçamento de defesa (embora ainda gastem 3,6% do PIB com os militares).

Essa tendência já causou um impacto no modo como os americanos veem os laços com a segurança transatlântica. Como observou Robert Gates em 2011, em sua última viagem à Europa como secretário de Defesa dos EUA: "A pura realidade é que haverá apetite e paciência cada vez menores no Congresso americano para gastar recursos com nações que aparentemente não estão dispostas a dedicar os recursos necessários ou fazer as mudanças necessárias para ser parceiras sérias e capazes em sua própria defesa".

Por enquanto, com exceção dos membros da Otan vizinhos da Rússia, ninguém está nem sequer falando de atingir a meta de 2%. A resposta dos aliados tem sido sugerir que podem conseguir "mais retorno por seu dinheiro" com iniciativas de "defesa inteligente" em que Estados somam e compartilham recursos e cooperam no desenvolvimento de sistemas militares com base na necessidade mútua.

Tendo em vista os problemas econômicos da Europa, pode não ser razoável esperar que aliados atinjam essa marca no curto prazo, mas esse nível de gastos é certamente alcançável nos próximos cinco anos.

Quando os delegados na reunião de cúpula se reunirem e avaliarem as ameaças à segurança que a Europa enfrenta, eles deveriam refletir em como a instituição Otan tem sido vital. É muito importante que ela não seja relegada à irrelevância por pura falta desse nível mínimo de financiamento. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CODIRETOR DO MARILYN WARE CENTER NO AMERICAN ENTERPRISE INSTITUTE

Análise

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