Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Sociedade reivindica grandes consensos políticos, diz embaixador da Espanha no Brasil 

Para Fernando García Casas, momento é de abrir mão de polêmicas para que as pessoas possam voltar a se abraçar o quanto antes

Entrevista com

Fernando García Casas, embaixador da Espanha no Brasil

Vinícius Valfré / Brasília , O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2020 | 17h29

A crise do coronavírus mostrou que o mundo precisa de grandes consensos políticos para derrotar o inimigo comum. Mesmo porque, passada a tempestade, nada será como antes e a saúde pública terá de ser um “pilar” do Estado.

A avaliação é do embaixador da Espanha em Brasília, Fernando García Casas. Para ele, o momento é de abrir mão de polêmicas para que as pessoas possam voltar a se abraçar o quanto antes. “O que está se vendo é que a sociedade reivindica coesão. Que essa política do dia a dia fique para depois”, afirmou Casas ao Estado, numa referência às disputas entre governos por causa de máscaras e respiradores.

A Espanha já perdeu quase 14 mil vidas para a covid-19, número inferior apenas ao da Itália. Com o total diário de mortos diminuindo nos últimos quatro dias, a sociedade espanhola já consegue extrair lições da própria tragédia. No país europeu, o governo assumiu o controle do sistema privado de saúde para garantir o atendimento aos mais necessitados. As consequências da pandemia serão severas e, segundo Casas, o orçamento do próximo ano primará pela reconstrução econômica e social.

Como define a situação atual da Espanha?

Muito difícil. É um desafio de nível mundial e todos os países foram pegos de maneira forte. É grave, mas, mesmo com um estresse muito intenso, o sistema de saúde está resistindo. Não foi preciso enviar doentes a outras regiões. Nosso sistema é uma das coisas que a sociedade espanhola mais se orgulha. E o Ministério da Saúde está agora na coordenação das redes pública e privada para termos resposta única.

Por que tantos mortos na Espanha? Quais as respostas que o país já tem?

Somos uma sociedade aberta, cálida, mediterrânea, latina. Somos muito de conviver. Por outro lado, é uma população em que 19,5% têm mais de 65 anos. A porcentagem de idosos é alta. Por isso, o número expressivo de óbitos.

Houve dificuldade ou atraso para compreender a extensão do problema?

O decreto do estado de alarme é de 13 de março. Acho que é uma data comparável a de outros países europeus. Não foi nem mais cedo nem mais tarde. A reação foi paralela a outros países europeus. 

Que lições o país já tira da crise?

Uma coisa que é importante, no exemplo da situação espanhola, é a ideia de procurar consensos. Procurar consensos entre as forças políticas. Há coisas que poderiam ter sido feitas diferentes, mas o que é importante é combater a pandemia. Temos, como aqui, governos regionais que são de um estilo político do governo federal. Mas agora o que a sociedade reivindica é grandes consensos. Só isso que nos pode tirar do problema. Grandes consensos públicos e políticos. E nós tivemos uma guerra civil. Somos sociedades resilientes e solidárias. Estou impressionado com tudo o que tenho ouvido de solidariedade aqui. Também existe a solidariedade espanhola. E é a nossa força.

Mas lá também tem há diferenças políticas entre governos locais e federal...

Têm surgido críticas, sobretudo como compartilhar serviços sanitários, máscaras, equipamentos, respiradores. Mas o que está se vendo é que a sociedade reivindica coesão, que essas polêmicas fiquem para depois. Que essa política do dia a dia fique para depois. 

No Brasil, ainda temos dificuldade de consensos sobre isolamento ou não isolamento.

Os dilemas são grandes. Cada sociedade tem um modelo. A situação dos países da América Latina não é a mesma que de países da União Europeia. Estamos, de um lado, com confinamentos e, de outro, procurando que a atividade econômica não pare totalmente.

Do ponto de vista econômico, o que a Espanha prevê para o pós-pandemia?

Uma crise severa. Temos de ter uma resposta sanitária importante e, do outro lado, muita proteção social. Temos de proteger os mais vulneráveis e as fontes de produção. A economia não pode parar inteira. A produção de alimentos, essenciais, tem de continuar. Fala-se que o Orçamento de 2021 será de reconstrução econômica e social. Do outro lado, também é importante salientar a necessidade de solidariedade da União Europeia. Todos os países estão sendo atingidos. Há uma coisa chamada Mecanismo Europeu de Estabilidade que vai ter de ser ativado, com créditos e medidas econômicas, porque a situação vai ser muito difícil. 

Que lições estão ficando para o sistema de saúde pública espanhol?

Um bom sistema de saúde pública numa sociedade desenvolvida é essencial. Não se pode ter 100% a mais de leitos de UTI sem serem usados. Não seria um emprego lógico. Mas foi visto que o sistema é essencial e que precisa ser bem financiado. Acho que uma das conclusões que ficará para o futuro é que a saúde pública vai ter de ser um pilar do Estado.

A situação socioeconômica do Brasil é diferente. Mas o que pode ser extraído daqui como lição?

No Brasil, ainda estamos no início. Na Espanha, já chegamos ao pico. O que acontece em países emergentes como o Brasil, Índia, com um lado bem desenvolvido e outro menos, será lição para o futuro. Me lembro da pandemia da aids e da crise econômica internacional de 2008. Isso que estamos vivendo é a mistura das duas coisas. Não temos instrumentos para navegação. Estamos descobrindo agora. Fiquei muito impressionado com a maneira profissional e respeitosa com que a imprensa brasileira está falando da situação da Espanha. O Brasil tem uma imprensa de muita qualidade.

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