À sombra de Ben Ali

Berço da onda de revoltas da Primavera Árabe, Tunísia ainda tropeça em sua marcha rumo a um futuro democrático

BRIAN, KLAAS, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2013 | 02h05

Há três anos, no dia 17 de dezembro de 2010, um jovem vendedor ambulante pôs fogo na roupa protestando com a própria morte contra a ditadura de Zine el-Abidine Ben Ali, na Tunísia. Foi a faísca que incendiou o país - e, em seguida, o mundo árabe, ansioso por uma mudança política - e provocou uma onda de revoluções que se tornou conhecida como Primavera Árabe.

A Tunísia parecia prestes a se levantar, como a fênix, das cinzas de seu passado ditatorial, instalando pela primeira vez a democracia no Norte da África. Mas o sucesso em sua transição para a democracia tem-se mostrado fugidio. Este ano, salafistas radicais mataram dois importantes políticos da oposição, Chokri Belaid e Mohamed Brahmi, em plena luz do dia, diante das respectivas famílias. Dezenas de soldados e policiais foram mortos numa série de ataques, e o número de assassinatos cresceu significativamente neste final de ano. Além desses graves riscos para a segurança, as eleições, que já deveriam ter sido realizadas no início deste ano, provavelmente não ocorrerão antes de outubro de 2014 - e mesmo assim, se tudo correr como foi planejado.

Apesar desses problemas, a Tunísia continua sendo uma enorme esperança para a democracia entre os países da Primavera Árabe. Entretanto, o país tem tropeçado lenta e desajeitadamente em sua transição, que ainda está muito distante.

O novo governo tunisiano - uma troica chefiada pelo partido islamista Ennahda - foi eleito em outubro de 2011. A troica é em grande parte inexperiente, e os políticos ainda estão aprendendo sua função.

Consequentemente, o governo se encontra num beco sem saída, enquanto luta para conter a insegurança crescente. Além disso, embora a coalizão de governo esteja trabalhando para aperfeiçoar a formação militar, o Exército ainda é fraco e não tem a capacidade necessária para neutralizar as crescentes ameaças terroristas.

Tais problemas são o legado do traumático passado tunisiano. E agora que as vítimas estão finalmente livres do punho de ferro do ditador, sentem-se à vontade para falar abertamente e expor toda a dimensão do trauma.

Suas histórias mostram que o legado de Ben Ali continua a lançar sua sombra sobre a transição. Uma das histórias, particularmente - sobre um falso golpe de Estado, torturas brutais, e o ocultamento da verdade - lança luz sobre as consequências concretas da feroz determinação de um ditador de se agarrar ao poder, independentemente do seu custo.

Tudo começou em 1987, depois que Ben Ali tomou o poder com um golpe. Logo em seguida, ficou paranoico, temendo sofrer o mesmo destino. Ele temia particularmente dois grupos: os islamistas e os militares.

Em 1991, Ben Ali matou os dois pombos com um único diabólico golpe. Para acabar com seus possíveis rivais, o regime precisava de uma desculpa para justificar a repressão sem precedentes dos islamistas tunisianos e simultaneamente o expurgo da elite militar. No dia 22 de maio de 1991, o ministro do Interior de Ben Ali, Abdallah Kallel, anunciou que o regime descobrira um suposto complô para levar a efeito um golpe, e que mais de 200 oficiais militares conspiravam com os islamistas do movimento Ennahda.

O drama, agora em grande parte esquecido, é conhecido como o "complô de Barraket Essahel", o nome da cidade em que os homens foram acusados de tramar contra o ditador. Por 20 anos, todos acreditaram que uma tentativa de golpe tivesse sido realmente frustrada.

Quando o véu da história foi levantado, ficou claro que o complô militar nunca existiu. Não há qualquer registro de uma suposta reunião em Barraket Essahel. O governo de Ben Ali nunca apresentou prova alguma de que oficiais implicados estivessem envolvidos. A única coisa da qual estes oficiais eram culpados era de serem competentes numa época em que Ben Ali temia a ameaça de um Exército forte que, algum dia, poderia realizar um golpe.

Em resumo, o complô foi montado como pretexto para prender os adversários políticos, forçar outros a ir para o exílio e expurgar a efetiva liderança militar. Mas o sofrimento causado foi real para os integrantes do Ennahda e para mais de 200 soldados.

Um deles era o tenente coronel Mohamed Ahmed, homem humilde, de fala mansa, que ainda usava um corte de cabelo militar quando o conheci em Túnis, em novembro. Ahmed e 200 outros oficiais foram levados para o Ministério do Interior. Durante o interrogatório, ele foi acusado de estar filiado ao Ennahda e de conspirar para derrubar Ben Ali. Nenhuma das duas acusações correspondia à verdade.

Ahmed foi isolado e torturado. Foi colocado no pau de arara, onde permaneceu durante horas. Espancado, foi pendurado pelos pés com as mãos atadas nas costas, e quase afogado numa latrina cheia de urina e fezes. Depois de três semanas de tortura, Ahmed não conseguia ficar de pé. Seus pés estavam inchados, os lábios estourados e sangrando. Neste estado foi posto de pé com a ajuda de dois policiais para ser interrogado pelo braço direito de Ben Ali, o ministro Kallel.

Ahmed tentou explicar que o "complô" era uma invenção e que qualquer confissão que arrancassem dele seria uma tentativa desesperada de acabar com o sofrimento. Sua insistência em expor a verdade só resultou em torturas ainda mais dolorosas. Uma semana mais tarde, inexplicavelmente, o ministério libertou os oficiais e lhes desejou um feliz Eid al-Kabir. O feriado muçulmano assinala a vontade de Abrão de fazer um sacrifício submetendo-se a uma autoridade maior.

O pesadelo ainda não tinha terminado. Além de deixar feridas psicológicas, o governo confiscou os passaportes das vítimas, eliminou a possibilidade de receberem pensões e pressionou para que não encontrassem mais trabalho. E para cúmulo da humilhação para esses soldados, eles foram despojados dos seus uniformes.

Para os membros do Ennahda, o sofrimento se prolongou ainda mais. Muitos continuaram presos por anos e reiteradamente torturados. Outros fugiram da Tunísia e passaram dezenas de anos no exílio.

Para Ben Ali, a vitória era clara. Islamistas e militares tinham sido neutralizados ao mesmo tempo, embora jamais tivessem mantido algum vínculo. Os islamistas foram para a cadeia, forçados a viverem escondidos ou a ir para o exílio. Os militares foram profundamente enfraquecidos, com a criação do que as vítimas da tortura e o ex-capitão do Exército, Mohsen Kaabi, chamam de uma "pirâmide de competência invertida", na qual a incompetência é que consegue fazer carreira. Isto garantiu que o Exército estivesse incapacitado de organizar um golpe - e igualmente de proteger os tunisianos durante a tumultuada transição. Como Kaabi disse: "Depois do expurgo, Ben Ali achou que poderia descansar em seu trono".

Com esses métodos, o ditador se manteve no poder por mais 20 anos, até que foi derrubado pelos primeiros levantes da Primavera Árabe. Fugiu do país no dia 14 de janeiro de 2011.

Cerca de três anos se passaram. Muitos dos membros do Ennahda torturados, presos ou forçados a ir para o exílio agora estão chefiando o governo de transição, tentando fazer justiça depois de tirar as rédeas do poder de Ben Ali. Entretanto, estão paralisados pela falta de experiência; muitos deles estão mais familiarizados com as capitais europeias ou com as celas da prisão do que com o funcionamento do parlamento ou com a burocracia.

Sua inexperiência aprofunda a agitação. O longo período de estagnação intensificou o sofrimento político e econômico, levando os credores estrangeiros a rebaixar sua capacidade de crédito. A inflação é elevada. O desemprego entre os jovens já escapa do controle. Com o agravamento desses problemas, tem ocorrido ataques aos escritórios do Ennahda, enquanto as ambiciosas espectativas da revolução são substituídas pela dura realidade da estagnação. E, evidentemente, os militares continuam fracos enquanto a agitação cresce e as ameaças do terrorismo reaparecem.

Ao mesmo tempo, não houve justiça para as vítimas do caso Barraket Essahel, que sequer receberam uma indenização ou mesmo uma pensão. O coronel Ahmed e outras vítimas criaram uma ONG, a Associação INSAF, com a qual procuram pressionar o governo. Embora tenham recebido o reconhecimento oficial do presidente, o governo só lhes ofereceu propostas vazias - e, em mais uma prova de que as acusações de conluio Ben Ali estavam infundadas, o Ennahda faz muito pouco para ajudar as vítimas. Alguns dos militares - que ainda enfrentam graves dificuldades financeiras - foram contatados por grupos terroristas que tentam explorar sua indignação e sua capacidade no manuseio de munições militares. Agora, a Associação INSAF colabora ativamente com o governo para que isto não aconteça. Ao mesmo tempo, o Exército nada fez pela reintegração dos camaradas falsamente acusados, deixando com isto de aproveitar a capacidade de 200 especialistas cuja contribuição seria sem dúvida determinante na transição.

A sombra de Ben Ali continua toldando o caminho da Tunísia para a democracia. Três anos depois do início da Primavera Árabe, a Tunísia é a última e maior esperança de sucesso para a região. O governo fez muitas coisas boas, evitando as armadilhas que levaram ao fracasso as transições na Líbia, Síria e Egito. Mas a transição tunisiana continua obscurecida pela sombra de um ditador paranoico. Enquanto o governo continuar às voltas com o seu passado, seus líderes inexperientes, o Exército enfraquecido e a perpetuação da injustiça continuarão impedindo que a democracia vingue nesse país. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É PROFESSOR E PESQUISADOR

ESPECIALISTA EM TUNÍSIA NA

UNIVERSIDADE DE OXFORD

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