A sombra eterna do Exército paquistanês

Memorando pedindo a Barack Obama que ajudasse a conter a crescente influência militar nos assuntos do Paquistão eleva a tensão com as autoridades civis

SÃO JORNALISTAS, ERIC SCHMITT &, SALMAN MASOOD, THE NEW YORK TIMES , SÃO JORNALISTAS, ERIC SCHMITT &, SALMAN MASOOD, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2011 | 03h06

Um tenso confronto entre o poderoso Exército do Paquistão e seu sitiado governo civil fez o presidente Asif Ali Zardari voltar às pressas ao Paquistão, após semanas de crescentes preocupações de que os militares estariam agindo para fortalecer seu papel na governança do país.

Fomentada pelo Exército, uma audiência da Suprema Corte paquistanesa marcada para começar na segunda-feira investigará se o governo de Zardari esteve por trás de um memorando não assinado que apareceu em outubro, supostamente pedindo ao governo de Barack Obama que ajudasse a conter a influência militar e evitar um possível golpe na esteira do ataque americano que matou Osama bin Laden em maio.

O caso elevou as tensões entre os militares do Paquistão e seus líderes civis ao nível mais alto desde que Zardari foi eleito, há três anos. E poderá complicar também os esforços dos EUA para tirar da crise suas relações com o Paquistão após a incursão contra Bin Laden e os bombardeios americanos que, no mês passado, deixaram 26 paquistaneses mortos na fronteira com o Afeganistão.

Esse período corrosivo de disputas também fortaleceu a influência dos militares nos assuntos do país.

"Os líderes militares e civis estão em rota de colisão", disse Talat Masood, um analista político e general reformado.

Pouco depois de o memorando vir a público, o Exército pediu ao governo que investigasse as alegações de que ele fora orquestrado por Husain Haqqani, então embaixador do Paquistão nos EUA e um aliado de Zardari - acusação que Haqqani negou quando foi chamado de seu posto. Parlamentares de oposição juntaram-se ao coro que pedia ação, e registros de mensagens que pareciam implicar o embaixador foram vazados para a mídia.

O governo civil nega ter algo a ver com o memorando e advertiu que o Parlamento, a mídia, a sociedade civil e a comunidade internacional não tolerariam uma ditadura militar no Paquistão. Mas, na semana passada, o general Ashfaq Parvez Kayani, comandante do Exército paquistanês, pediu à Suprema Corte que investigue o polêmico memorando e suas origens, dizendo que ele "tentou sem sucesso baixar o moral do Exército paquistanês".

Contribuiu para o drama político a ausência de Zardari, de 56 anos, que deixou o país inesperadamente no dia 6 para tratamento médico e estava se recuperando, em sua casa em Dubai, do que seu médico descreveu como sintomas de um derrame leve. Associados de Zardari disseram que ele voltou a Karachi para enfrentar as alegações, mas isso seria uma medida politicamente perigosa, e alguns analistas paquistaneses questionaram se autoridades civis haviam concedido secretamente aos militares uma influência mais ampla sobre os assuntos do país, além da política de segurança nacional e externa.

Memogate. A Suprema Corte começou a ouvir os argumentos de advogados de ambos os lados e poderá decidir pelo engavetamento do caso se o considerar sem mérito. Mas é mais provável que o tribunal nomeie uma comissão especial para investigar o que a mídia noticiosa aqui apelidou de Memogate, um processo que poderá durar meses, infligindo mais sofrimentos políticos a Zardari.

A desgastada relação dos militares paquistaneses com os EUA também pode estar contribuindo para a mudança entre militares e governo civil aqui, dando aos generais uma maior liberdade para ampliar seu papel na gestão dos assuntos do Paquistão além da política de segurança nacional e externa, mesmo que por trás dos panos.

"Os militares veem os ataques aéreos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) como a oportunidade de um réplica depois da desmoralização no ataque a Bin Laden", disse Ali Dayan Hasan, diretor da Human Rights Watch no Paquistão. "Mas eles também estão explorando o genuíno ódio e ressentimento público contra os americanos, e isso está restringindo a margem de manobra do governo Zardari e expandindo a influência que os militares já têm."

As posições conflitantes levadas à Suprema Corte evidenciaram as profundas tensões entre civis e militares que cozinhavam desde que Zardari tomou posse, em setembro de 2008, uma ascensão acidental de um homem mais conhecido como embusteiro do que como um líder. Após o assassinato de sua mulher, Benazir Bhutto, em dezembro de 2007, o governo de George W. Bush deu seu apoio relutante a Zardari e sua promessa de ser um parceiro fiel no combate ao terrorismo.

Não demorou para Zardari desentender-se com os militares, conforme revelaram telegramas diplomáticos tornados públicos no ano passado pelo site do WikiLeaks, a organização que divulga documentos secretos.

Zardari, que passou 11 anos na prisão por acusações de corrupção ao final não comprovadas, temia por seu cargo e talvez por sua vida. Em um telegrama, o vice-presidente americano Joe Biden disse ao então premiê britânico, Gordon Brown, em março de 2009, que Zardari lhe dissera que o "diretor da ISI e Kayani me destituirão". A ISI é a agência mais poderosa do serviço secreto paquistanês.

As suspeitas de Zardari não eram infundadas. Em outro telegrama, Kayani disse à embaixadora americana na época, Anne Patterson, que ele "poderia, embora com relutância", pressionar Zardari a renunciar e sair do Paquistão.

Nos seus 64 anos de história, o Paquistão presenciou vários golpes do Exército e ingerência dos militares. Mas a maioria dos analistas paquistaneses e diplomatas ocidentais considera improvável um golpe militar neste momento. Os generais, por mais frustrados que estejam com o que veem como um governo civil corrupto e incompetente, não têm nenhum apetite de assumir o controle do país numa época de economia em declínio, severa escassez de energia e extremismo crescente, segundo esses comentadores.

Desmentidos. Após uma incomum reunião de três horas, na sexta-feira à noite, com Kayani, o premiê paquistanês, Yousef Raza Gilani, desmentiu os relatos sobre um desentendimento com os generais. Mas analistas e algumas autoridades públicas disseram que a divisão entre os militares e o governo civil provavelmente se alargaria nos próximos dias.

Os militares já conseguiram destituir Haqqani, que foi obrigado a renunciar como embaixador em 22 de novembro após acusações de um empresário americano-paquistanês, Mansoor Ijaz, de que Haqqani havia idealizado o memorando, acusação que ele nega veementemente. O almirante Mike Muller, então comandante do Estado-maior Conjunto, admitiu ter recebido o memorando, mas disse que o ignorou por ser pouco crível.

Algumas autoridades paquistanesas e ocidentais disseram, na semana passada, que se Zardari retornasse, poderia ser somente para uma breve aparição no quarto aniversário da morte de Benazir. Na manhã de ontem, nem Zardari nem seus assessores indicaram quanto tempo ele permanecerá no país. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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