A Suécia, o terror e Assange

Mas o que ocorre na Suécia? É um país tolerante, equilibrado, tranquilo, que sempre se manteve à distância das histerias que assolam este mundo. O que se vê neste país-modelo não é cólera, ódio ou a bomba, mas o tédio e a monotonia.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2010 | 00h00

A Suécia representa, há anos, um pequeno retiro de paz. Mas eis que o terror chega a suas margens harmoniosas:em Estocolmo, explodem um carro, depois uma bomba. Uma única vítima: o homem que detonou os artefatos. Mas não há dúvida: a operação pretendia matar inocentes. O nome do suicida é Taymour Abdulwahab, nascido em Bagdá. Tinha 29 anos. Chegou à Suécia em 1992. O mistério é a escolha do seu alvo. Por que fazer a Jihad na Suécia?

Em e-mail, ele forneceu duas explicações. A primeira é que a Suécia tem 530 soldados no Afeganistão. Argumento fraco: os militares suecos não estão em combate, mas em trabalho humanitário. Uma segunda razão: há alguns anos, o desenhista sueco Lars Wiks publicou caricaturas de Maomé como um cão. Claro, não foi a Suécia que ridicularizou o Islã. Foi um particular, um cartunista. Mas, no e-mail, o suicida disse estar indignado com o fato de o governo sueco jamais ter condenado Wiks.

Essa é uma característica dos muçulmanos: não suportam que o Alcorão ou Maomé sejam objeto de críticas. Impossível, portanto, encontrar um motivo sério para o atentado. Na verdade, para os terroristas, todos os países são culpados. Se alguém é mais agressivo, como a França, ou mais tolerantes, como a Suécia, não muda nada.

A ironia é ainda maior já que a Suécia é considerada por muitos um país "cúmplice" dos islâmicos. Um website israelense diz que os suecos tiveram o que mereceram, já que mantém uma política de imigração insana. Na cidade sueca de Malmoe, 25% da população é islâmica. Além disso, Estocolmo sempre apoiou a causa palestina.

Assim, se existe uma mensagem dos radicais islâmicos, é esta: nenhum país é inocente. A Suécia quis manter a neutralidade, mas ela é ilusória. A guerra lançada pelos jihadistas é total e ninguém está incólume.

A Suécia abandonará a neutralidade? A mesma pergunta é feita com relação ao WikiLeaks. O australiano Julian Assange, responsável pelo site, foi preso em Londres a pedido da promotora sueca Marianne Ny, por crimes sexuais que ele teria cometido em Estocolmo. Muita gente acha que as acusações são políticas e a Suécia, pedindo a prisão de Assange, teria se submetido aos EUA, que querem vê-lo esquartejado. Estocolmo rejeita tais suspeitas. A promotora disse que não queria extraditá-lo, mas não foi o que se viu ontem. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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