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A Suíça mete medo na Europa

Os suíços abrem mão do dinheiro que tanto prezam em razão de um princípio, uma ideia, mesmo que xenófoba

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2014 | 02h05

PARIS - A Suíça, que não pertence à União Europeia, provoca tremores na Europa. Como ela fez para obter esse belo resultado? Usou seu meio de governar habitual: uma votação, ou seja, um referendo, instrumento de seus próprios cidadãos para resolver questões importantes.

Tratava-se de saber se a Suíça deveria limitar a imigração e instaurar uma "preferência nacional", retornando ao regime em vigor antes de 1999, que submetia a entrada de cidadãos estrangeiros a "quotas". Essa votação foi exigida por um poderoso partido populista suíço, a União Democrática do Centro (UDC). A iniciativa parecia destinada ao fracasso. No entanto, a proposta teve sucesso. E foi decidido: ninguém mais vai entrar na Suíça "sem permissão".

Na União Europeia, foi a consternação. Angela Merkel, o ministro francês do Exterior, os dirigentes da Comissão de Bruxelas, soaram o alarme. A livre circulação de pessoas e bens é uma das liberdades que os europeus mais prezam. O fato de a Suíça dar as costas para ela é lamentável. Aqui e ali são analisadas medidas de resposta.

A Suíça, porém, não faz parte da União Europeia e, portanto, é soberana em seu território e Bruxelas não pode dizer nada. Só que não é bem assim: A Suíça não pertence à UE, mas pertence a uma "emanação" da UE, o Espaço Schengen, ao qual ela aderiu em 2004, que garante a livre circulação de pessoas entre todos os países que assinaram o tratado. A pergunta é se a Suíça, depois dessa decisão de restabelecer seu sistema de quotas para os estrangeiros pode continuar integrando o Espaço Schengen.

E não é tudo. Mesmo não fazendo parte da UE, a Suíça assinou diversos acordos particulares com o bloco. Acordos que permitiram ao comércio exterior suíço crescer e se desenvolver de modo magnífico. Esses acordos poderão ser declarados caducos. O que será um golpe severo para a miraculosa prosperidade da Suíça, que se tem apenas 3% de desempregados é graças à vitalidade das suas trocas comerciais.

Nesse ponto, vale uma reflexão psicológica. A Suíça sempre foi famosa pelo seu realismo. País dos bancos, do segredo bancário, ela é censurada pelo seu egoísmo financeiro, seu pragmatismo, pela falta de transparência dos seus bancos.

Nessa votação, curiosamente, há uma Suíça inédita diante dos nossos olhos: um país que desdenha repentinamente de seus interesses econômicos e financeiros para privilegiar mais as ideias. Ela quer salvaguardar sua identidade mesmo que sua indústria, seu comércio, seus bancos e seu nível de vida sofram com isso.

Nessa perspectiva, a votação de domingo tem até um caráter simpático. Por uma vez, a Suíça não se comporta como um "cofre-forte" ou como o banqueiro da Veneza de Shakespeare (Shylock). Ela sabe que terá prejuízo, mas obedece sua tradição. Coloca sua moral à frente dos seus interesses.

Infelizmente, no lugar da sua detestável "moral bancária", ela optou por uma outra "moral" ainda mais suspeita: a xenofobia, o ódio ao estrangeiro, o isolamento, o nacionalismo mesquinho e quase a pureza da raça.

É nesse sentido que o caminho escolhido no domingo por esse pequeno país fascinante tem algo de alarmante. O chauvinismo, o patriotismo desenfreado, todos esses sentimentos que acabam de triunfar em Berna e Zurique, todos esses sentimentos detestáveis, são encontrados em doses variáveis em todos os demais países da Europa, especialmente na Grã-Bretanha.

Em todas as partes vemos prosperar partidos que pregam o isolamento, a ruptura com a solidariedade estrangeira, o egoísmo, o ódio ao outro, o horror aos imigrantes, o desprezo por outras religiões. Deus queira que esse acesso pestilento de xenofobia na Suíça não seja prenúncio de decisões similares no futuro por outros países do Velho Continente.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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