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A superpotência barata

Superpotências não são mais o que eram antes. Hoje custam menos

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2020 | 05h00

Uma superpotência é capaz de projetar seu poder militar em grandes distâncias e, se necessário, até lutar em mais de uma guerra ao mesmo tempo e em diferentes continentes. Isso custa muito dinheiro: você precisa investir em bases, navios, aviões, tanques, canhões, mísseis, meios de transporte e comunicações. Também requer uma força expedicionária composta por dezenas de milhares de soldados preparados para participar de ações militares em qualquer lugar do mundo. E, é claro, ter armas nucleares.

Esses requisitos continuam válidos. Mas agora existem atalhos que permitem que um governo intervenha em outro país, ou em mais de um, enfraquecendo seus adversários internacionais – ou dominando-os – sem ter de fazer investimentos em massa. A Rússia é o melhor exemplo. Vladimir Putin provou ser um virtuoso neste setor de projetar poder em outros países a baixo custo.

Ele entendeu que seu país não pode competir militarmente contra seus arquirrivais, Estados Unidos e China. Ele também sabe que a economia russa e sua capacidade de inovação tecnológica não estão à altura dos concorrentes. E é óbvio que as armas nucleares só podem ser usadas em casos extremos. Elas não são úteis, por exemplo, em conflitos armados como os da Síria, Ucrânia ou Líbia, dos quais a Rússia participa.

Putin não foi o único líder que entendeu as limitações do país que governa. Em 2014, o então presidente dos EUA, Barack Obama, se referiu desdenhosamente à Rússia como “uma potência regional, que só pode ameaçar seus países vizinhos”. Obama também disse que os ataques da Rússia aos países em seu entorno geográfico “não eram um sinal de força, mas de fraqueza”.

Estava enganado. Dois anos depois, esse “poder regional” cujas agressões internacionais eram, segundo o presidente americano, um “sinal de fraqueza” interveio nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, emaranhando-se na política daquele país. E tudo indica que a Rússia tentará fazer o mesmo nas eleições presidenciais dos EUA no próximo ano. 

Temos visto como os hackers russos, ou patrocinados pela Rússia, aprenderam a disseminar a confusão em outras sociedades, criar dúvidas sobre o que ou em quem acreditar, aprofundar as diferenças e conflitos que já existem ou inventar novos, promover alguns atores políticos e destruir a reputação de outros.

Tudo isso eles podem fazer – e fazem – não apenas em seus países vizinhos, mas em qualquer país do mundo. Hackers e bots russos influenciaram no conflito separatista na Catalunha e no Brexit no Reino Unido, nas eleições na Alemanha e na França, assim como na Estônia, Geórgia e Ucrânia.

Mas não existe apenas o uso avançado do que o governo russo chama de “tecnologias políticas”. Eles também têm a capacidade de usar armas cibernéticas para atacar as redes de eletricidade, telecomunicações, transporte ou infraestrutura financeira de outro país.

A capacidade renovada da Rússia de influir sobre a política mundial não se deve apenas ao seu domínio das tecnologias da informação. O Kremlin não tem escrúpulos em usar armas tradicionais. Para a Síria, Putin não enviou bots no Twitter, mas soldados e pilotos. E para a Venezuela enviou mísseis antiaéreos. Esses são dois países nos quais a Rússia hoje tem uma influência definidora.

O Kremlin também não hesita em usar assassinos profissionais, venenos radioativos, franco-atiradores, drones armados e outras técnicas “tradicionais” para eliminar seus inimigos onde quer que estejam. Sabe usar o Facebook, Twitter e Instagram, mas também usa a Unidade 29155, o Wagner Group e a Agência de Pesquisa na Internet.

A unidade 29155 é o nome de um órgão secreto de inteligência russo cujo objetivo é desestabilizar a Europa por meio de assassinatos e outras medidas. O Grupo Wagner é uma empresa militar privada russa que possui mercenários que operam nos conflitos que interessam à Rússia. A Agência de Pesquisa na Internet é outra organização privada russa especializada no uso da Internet para apoiar os objetivos globais do Kremlin.

Claramente, a Rússia tem uma influência global desproporcional em relação à sua precária situação econômica e social. Apesar de possuir o maior território do mundo, sua economia é menor que a do Brasil ou da Itália. Seu crescimento econômico é anêmico. De suas exportações, 70% são de gás e petróleo e o país não conseguiu diversificar.

Segundo o Banco Mundial, a riqueza per capita na Rússia é de apenas 20% da média dos países-membros da OCDE e, se as tendências atuais continuarem, levaria 100 anos para se equiparar. Além disso, 10% dos russos mais ricos possuem 85% da riqueza do país. A população da Rússia está em declínio e estima-se que em 2050 tenha 32 milhões a menos de habitantes, o que é um sintoma de outras graves debilidades, como um mau sistema de saúde.

Este não é o perfil de uma superpotência. No entanto, apesar dessas fraquezas, a Rússia de Putin é hoje protagonista central dos conflitos mais espinhosos deste século. E não só se sai bem, mas também é barato para ela. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT

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