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A surpresa dos Andes

Ao chegar às urnas hoje, os eleitores bolivianos carregarão uma dúvida esportiva e uma grande certeza. Nem mesmo os mais narcotizados imaginam um vencedor na disputa presidencial a não ser o atual mandatário, Evo Morales. O bolo de apostas fica em razão da margem do massacre nas urnas.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h04

O próprio Evo previra abocanhar 74% dos votos. Não apareceu no único debate entre os candidatos, nem à TV estatal, que optou por transmitir um jogo de futebol. Não foi soberba. O líder andino de ascendência aimará goza de índices de popularidade invejáveis na América Latina. O encanto resiste há oito anos e meio, o mais duradouro mandato presidencial boliviano desde Andrés de Santa Cruz, o marechal novecentista que ficou uma década no poder. Aí que vem uma segunda dúvida: que restará da combalida democracia boliviana após mais cinco anos "moralistas"?

Evo já deixou sua pegada. Quando assumiu, em 2006, a nação estava em polvorosa e contaminada por rusgas ideológicas e étnicas. Acenou com a união nacional, até rebatizou o país de república "plurinacional" na Constituinte de 2009. Por um breve momento, os rancores arrefeceram. Foi uma ilusão de óptica.

Vitaminado pela supermaioria no Congresso, Evo isolou a oposição e redigiu a nova Constituição a dedo. Entre suas bondades oficialistas: o direito de zerar seu mandato (nova carta, novo governo) e concorrer a um terceiro período, vetado de lá adiante seus sucessores.

Morales loteou os tribunais, até mesmo o eleitoral, que prescreveu a campanha na televisão meros 30 dias antes das eleições. Ruim para os candidatos da oposição, que ficaram com apenas dez minutos diários de propaganda. Bom para Evo, que fez do seu governo um palanque ambulante, inaugurando obras, acabadas ou não (caso do novo teleférico em El Alto) e convocando redes nacionais de TV e rádio.

Ganhou impulso com a mídia, outrora crítica e hoje cada vez mais chapa branca. É o caso do jornal La Razón, o maior diário da Bolívia, acossado pelo governo e hoje na mão de um empresário venezuelano mais ameno em relação a Evo.

Mais importante, Evo surpreendeu com inovações administrativas que o separam do gabarito populista da América Latina. Diferente do ícone venezuelano Hugo Chávez, não desperdiçou sua bonança de recursos naturais - gás natural, estanho, prata e soja - em programas sociais faraônicos ou exotismos políticos. Entendeu que os bolivianos não se esqueceram da hiperinflação, que chegou a 27.000% ao ano na década de 80, derretendo riquezas e governantes.

Por isso, Evo mantém a inflação sob controle (está em 6%), um superávit primário há oito anos e reservas cambiais equivalentes a 50% do Produto Interno Bruto, a maior taxa após a China. Sim, seu governo abusou de gestos autoritários, mas os mesclou com equilíbrio fiscal e tolerância com a economia de mercado. Até acalmou os ânimos em Santa Cruz de la Sierra, hub capitalista da Bolívia que ensaiara um movimento autonomista. Na sua gestão, a Bolívia cresce mais de 5% ao ano com forte redução de pobreza.

Mas a parcimônia não rima com caudilhismo. Na maré das commodities, Evo gastou, mas nem sempre economizou. A nova lei dos bancos, aprovada em 2013, tabelou os juros: se a inflação subir, o prejuízo é dos bancos, receita certa para uma crise sistêmica. O capital privado poderia ajudar, mas o investidor sumiu após a estatização de setores-chave, como telecomunicações, eletricidade e hidrocarbonetos. A taxa de investimentos hoje está em pífios 18% do PIB. Mais preocupante, o boom das matérias-primas se esgotou. O preço do gás natural está em queda franca. E é dele que a pujança boliviana depende. Hoje, com mais uma vitória de Evo à vista, o perigo parece distante. Mas os Andes podem surpreender. Evo que o diga.

É COLABORADOR DA BLOOMBERG VIEW E

COLUNISTA DO 'ESTADO'

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