A surpresa natalina de Havana para Caracas

Em meio a crise econômica grave, Nicolás Maduro vê seu aliado mais significativo se aproximar de seu maior inimigo

DANIEL LANSBERG-RODRÍGUEZ, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2014 | 02h03

Num conciso comunicado em Havana, semana passada, o presidente Raúl Castro anunciou o início de uma nova era de cautelosa reaproximação com os EUA. Seu discurso não continha as costumeiras tiradas ferozes contra o imperialismo. Ao contrário, ele agradeceu cordialmente ao presidente Barack Obama, ao Vaticano e ao Canadá (frequente mediador dos EUA nas negociações com países hostis), por tornarem possível esse avanço. Raúl aproveitou a ocasião para afirmar que seu irmão Fidel expressou muitas vezes, não apenas em público, mas também em particular, seu desejo de estabelecer laços mais próximos com os EUA.

Muitos cubanos ficaram entusiasmados com a notícia. Mas o anúncio teve o efeito de uma ducha fria para o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, há muito o benfeitor das finanças do governo cubano e, por sua vez, ferrenho "anti-imperialista". Apesar das relações diplomáticas inusitadamente estreitas entre Caracas e Havana (seus serviços secretos estão interligados), Maduro pareceu ter sido apanhado completamente desprevenido.

Enquanto a notícia do acordo já tinha se espalhado, na manhã de quarta-feira, a imprensa venezuelana rigorosamente controlada pelo Estado só a mencionou muitas horas mais tarde, aguardando um aceno de Maduro para não correr o risco de divulgá-la sem uma linha editorial previamente aprovada.

Quando o presidente finalmente emitiu uma declaração, falando na cúpula regional que se realizava na Argentina, ele se referiu exclusivamente à libertação dos prisioneiros cubanos, definindo-a "o 'gesto' mais importante da presidência de Obama".

Maduro praticamente ignorou o restabelecimento das relações diplomáticas e o possível abrandamento do embargo imposto em 1960. Depois de felicitar brevemente o povo cubano por seu espírito independente e profundamente imbuído de princípios, ele brincou com a presidente argentina, Cristina Kirchner, sobre o fato de que se comemorava naquele dia o aniversário do papa Francisco.

Logo em seguida, a mudança repentina das relações entre EUA e Cuba começou a ser noticiada por todos os veículos de comunicação estatais da Venezuela - mas apenas no que se referia à troca de prisioneiros. Somente à noite, os aspectos diplomáticos mais amplos do acordo começaram a ser mencionados, com cautela.

Segundo Maduro, este momento é particularmente inconveniente para o seu mais próximo aliado regional mostrar-se amistoso com o maior inimigo do seu país, o tão demonizado "Império do Norte". Os EUA são seu eterno bicho-papão, acusados de todos os males, desde a baixa classificação da Venezuela em capacidade de crédito e o colapso dos preços internacionais do petróleo até a morte de câncer do seu glorificado predecessor Hugo Chávez, no ano passado.

As relações de Maduro com Washington chegaram recentemente ao seu ponto mais baixo, após a o Congresso americano aprovar, na semana passada, sanções contra autoridades da Venezuela implicadas em "significativos atos de violência ou graves violações dos direitos humanos" numa série de protestos em toda a nação, e de atos que paralisaram grande parte do país no início deste ano.

Maduro, com seu típico discurso bombástico, disse literalmente ao Departamento de Estado americano onde poderia colocar seus vistos (ironicamente, as autoridades cubanas provavelmente obterão vistos americanos, fato que com certeza não passou despercebido aos venezuelanos).

As tiradas inflamadas de Maduro contra a "insolência ianque", com apelos aos venezuelanos para que queimem seus vistos americanos em solidariedade, bem como a realização de uma "marcha contra o imperialismo" prodigamente patrocinada pelo Estado, em Caracas, agora contrastam significativamente com a disposição de Cuba a avaliar o restabelecimento de laços diplomáticos com Washington.

Apesar dos anos de bombástica retórica socialista, de promessas mútuas, e de mais de uma década de estreita amizade pessoal entre Chávez e Fidel, o regime de Havana evidentemente refletiu que chegara o momento de adaptar-se ao mundo em transformação.

Depois de permanecer economicamente dependente da generosidade de aliados ideológicos por décadas, Cuba foi apanhada de surpresa pelo repentino colapso da União Soviética, sua benfeitora por muito tempo. O erro levou a um período prolongado de atroz escassez e pobreza generalizada, com períodos agudos de fome total, até que Chávez apareceu como um novo benfeitor no início dos anos 2000.

Desde então, Cuba recebeu substancial ajuda financeira, estimada em aproximadamente US$ 5 bilhões anuais. Nos últimos tempos, a venda do petróleo excedente recebido da Venezuela tornou-se uma fonte fundamental de receita externa para Havana. Em troca, Cuba garante credibilidade revolucionária, camaradagem nacional, médicos para substituir os profissionais venezuelanos que abandonam o país e os serviços de "assessores"para o treinamento da inteligência militar e das forças de segurança.

Foi um pacto excelente para o regime cubano enquanto durou, mas a escolha do momento do novo arranjo dos irmãos Castro com os EUA coincide com a percepção de que seu relacionamento de cliente da Venezuela entrou num período de retornos cada vez mais escassos.

Caracas já reduziu consideravelmente o financiamento do Petrocaribe, o programa por meio do qual a Venezuela entrega petróleo subsidiado aos outros amigos da região, enquanto o regime desprovido de liquidez chega a vender a dívida pendente dos beneficiários do programa a bancos de investimento americanos, que provavelmente se mostrarão bem menos caridosos com os prazos de pagamento. Embora o pacote da ajuda (muito maior) venezuelana a Cuba esteja ainda pouco claro, uma fonte no próprio regime disse recentemente que este também foi profundamente afetado, com cortes que chegaram a cerca de 20% nos últimos meses.

Apesar da retórica de Maduro que atende aos seus próprios interesses, é possível que os futuros dólares do turismo americano, o aumento das remessas e o acesso aos mercados externos substituam o valor da revenda do petróleo venezuelano. Os astutos líderes de Cuba deixaram claro que estão mais dispostos a ferir Maduro do que a correr o risco da incerteza quando a salsa acabar.

Semana passada, várias personalidades importantes do movimento pró-Chávez recorreram à mídia social buscando interpretar a mudança de Havana de maneira a não parecer um sinal de perda de confiança na Venezuela.

Estes comentaristas procuram argumentar que os EUA finalmente foram obrigados a ceder, e que a sabedoria de Chávez é quase certamente responsável pelo triunfo. Embora a sabedoria de Chávez seja algo discutível, sua morte influiu com toda a certeza. EUA e Cuba aparentemente iniciaram suas conversações secretas em junho de 2013, poucas semanas depois da morte de Chávez e da posse de Maduro.

Por outro lado, o fato de os cubanos estarem dispostos a proteger tão cedo suas apostas no governo venezuelano não parece exatamente um voto de confiança em Maduro. Os irmãos Castro talvez tenham se adiantado um pouco a esse respeito, mas o herdeiro escolhido por Chávez agora enfrenta uma evidente crise de confiança geral.

É evidente que poucos observadores acreditam que Maduro será o homem capaz de adaptar a economia da Venezuela, hoje à beira do colapso, a este estranho mundo em que o petróleo está sendo vendido a menos de US$ 60, e no qual Havana logo poderá ter seu embaixador em Washington, e Caracas não. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*É EX-COLUNISTA DO JORNAL 'EL UNIVERSAL' E CONSULTOR NA ÁREA DE RISCO GEOPOLÍTICO EM CHICAGO

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