A tartaruga merkeliana da Europa

A Alemanha de Angela Merkel não deverá ganhar velocidade logo e é improvável que sofra uma grande queda; mas o que dizer de EUA e China?

É COLUNISTA, TIMOTHY, GARTON ASH, ESPECIAL, É COLUNISTA, TIMOTHY, GARTON ASH, ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2013 | 02h04

Por mais retumbante que a vitória eleitoral de "Mutti" (mãezinha ou mamãe, em tradução) Merkel tenha sido, o novo governo da Alemanha não foi formado. Na República Federal, as negociações para formar uma coalizão tradicionalmente ocorrem com o ritmo - e com toda a graça - de tartarugas acasalando. Supondo que o resultado seja uma chamada "grande coalizão" com os social-democratas, deveria haver um pequeno, mas desejável, ajuste da política alemã para a zona do euro.

Na segunda-feira, Merkel sugeriu que não haveria nenhuma mudança na sua estratégia para a Europa meridional traumatizada por dívida, austeridade e depressão (tanto no sentido econômico quanto psicológico da palavra). Referindo-se à maneira impressionante com que a Alemanha conseguiu reduzir custos trabalhistas e restaurar competitividade, ela disse: "O que nós fizemos, todo mundo pode fazer".

Os social-democratas compreendem pouco melhor - ou talvez apenas se expressam de maneira mais clara - que a recuperação econômica da zona do euro não é tão simples. O ônus da dívida é insustentável para alguns. O aumento da oferta também exige demanda. Mas dado que os social-democratas serão os parceiros menores da coalizão (se for a que parece estar se configurando), que os resultados pelos quais eles serão julgados são fundamentalmente de caráter interno e o fato de a maioria dos alemães não querer pagar mais nenhum centavo sequer para países do sul da Europa supostamente incompetentes, esses ajustes da política da zona do euro serão modestos.

Na melhor das hipóteses, o ventre, a parte mais vulnerável da tartaruga europeia - ou seja, a dívida e o sul da Europa devastado pela depressão - continuará sangrando. Na pior, haverá uma hemorragia, em termos políticos e econômicos. Como Costas Douzinas observou no Guardian, a economia grega encolheu 25%, com o desemprego entre os jovens beirando os 70% e a correlação cada vez maior entre a dívida e PIB aproximando-se dos 175%. O aumento da miséria social e do radicalismo político parece inevitável no país. Em outros, Espanha e Irlanda, por exemplo, dolorosas reformas começam a mostrar alguns resultados lentos e incertos.

Nas eleições alemãs, o centro político resistiu. Nas próxima votação dos 28 países para o Parlamento Europeu, em maio de 2014, isso parece menos provável. Representantes dos partidos da oposição, de todos os tamanhos e tendências poderão preencher as cadeiras. Se isso ocorrer, o Parlamento Europeu se tornará uma casa de vidro cheia de pessoas atirando pedras. Entretanto, essa fragmentação também pressionará as alianças pan-europeias tradicionais de partidos conservadores, liberais e socialistas para que busquem uma maior colaboração entre si, formando desse modo uma grande coalizão implícita no Parlamento Europeu, bem como (provavelmente) uma grande coalizão explícita no de Berlim. Ao mesmo tempo, Merkel se sentirá até mesmo mais inclinada do que agora para comandar o show europeu por meio de pragmáticos acordos intergovernamentais, quer nos 18 países da zona do euro, quer nos 28 da UE. Mas o problema de Merkel é que ela não tem um parceiro estratégico em nenhuma das duas outras principais potências da UE.

O presidente francês, François Hollande, seria uma possível opção, mas seu país está debilitado devido aos próprios problemas internos e à falta de reformas necessárias. David Cameron, premiê da Grã-Bretanha, com um governo de coalizão estável e uma recuperação que se processa lentamente, poderia em tese ser esse parceiro. Na prática, o Partido Conservador britânico, eurocético, e os próprios erros táticos que cometeu lançaram Cameron numa corrida maluca no sentido de uma "renegociação" dos termos de adesão britânica à União Europeia. Em resumo, a Grã-Bretanha poderia, mas não quer. A França seria, mas não pode. O que deixa Merkel como a única "mutti" da Europa. Ela tem alguns parceiros de médio porte sólidos, caso da Polônia, mas não é suficiente.

Num futuro previsível essa é a União Europeia que teremos: uma gigantesca tartaruga esgotada, com a chanceler alemã cavalgando sobre sua carapaça, tentando conduzi-la mesmo atordoada, arrastando seu ventre sangrento sobre as pedras. Mas, antes de, como europeus, cairmos na mais profunda melancolia, vale a pena reler uma fábula de Esopo sobre competição - da águia americana e do dragão chinês. Afinal, na fábula de Esopo, a lebre perdeu e a vencedora foi a tartaruga.

Estou assistindo ao espetáculo europeu e alemão em câmara lenta nos Estados Unidos. Mas a tela do meu televisor americano reflete inteiramente um estilo de política partidária diametralmente oposto ao da democracia com base numa coalizão, consensual e centrista, que é o da Alemanha.

Enquanto democratas-cristãos e social-democratas negociam para superar suas diferenças, Washington está mergulhada em violenta disputas políticas arriscadas, como um enorme jogo da "galinha", com os republicanos ameaçando elevar o teto da dívida pública se o Obamacare, de estilo europeu, não for derrubado. Fala-se até de um fechamento do governo. Imagine essa situação ocorrendo no outrora discípulo dos Estados Unidos em matéria de governança, a República Federal da Alemanha. Embora o setor privado americano esteja recuperando parte do seu lendário dinamismo, o país enfrenta problemas enormes em relação à sua capacidade para manter ou expandir seu império ou bancar sua previdência social - e com uma infraestrutura negligenciada.

E a China? O fato de o novo governo de Xi Jinping não ter dado sinais de uma reforma política torna cada vez mais provável a eclosão de uma crise mais profunda no país em algum momento da próxima década. Jamil Anderlini, do Financial Times, citou um professor do Party School do Comitê Central do Partido Comunista, que afirmou: "Realizamos um seminário com um grande grupo de membros influentes do partido e eles nos perguntaram por quanto tempo, na nossa opinião, o partido se manterá no poder e o que planejamos para o momento em que ele entrar em colapso. Para ser honesto, essa é uma pergunta que todos fazem na China, mas temo que a resposta seja muito difícil".

Em resumo, as três maiores economias do mundo têm problemas políticos fundamentais, mas completamente distintos. A tartaruga merkeliana da Europa não vai ganhar velocidade tão breve, mas é improvável que sofra uma grande queda. Podemos dizer o mesmo quanto à águia e do dragão? / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA E TEREZINHA MARTINO

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