A tática para derrotar o EI

Lições do 11 de Setembro e do combate à Al-Qaeda podem ajudar em nova guerra ao terror

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2014 | 02h00

Lá vamos nós outra vez. Os Estados Unidos declararam guerra contra outro grupo terrorista. O discurso do presidente americano Barack Obama na semana passada delineou uma estratégia rigorosa e calculada para confrontar o Estado Islâmico (EI), que representa uma ameaça não apenas para a região. Mas, ao executar essa estratégia, é importante garantir que tenhamos aprendido algo com os 13 anos passados desde o 11 de Setembro e com a guerra contra a Al-Qaeda. Eis alguns pontos que merecem consideração.

Nem sempre é bom morder a isca. Em discurso gravado em vídeo e endereçado a seus seguidores, Osama bin Laden descreveu sua estratégia: "Basta enviar dois mujahedine até o ponto mais distante ao leste e eles agitarem um pano com as palavras Al-Qaeda para fazer os generais (americanos) correrem até lá."

O propósito dos chocantes vídeos retratando execuções era provocar os EUA. E funcionou. Afinal, além do surgimento desses vídeos, nada mudou a respeito do autoproclamado EI e do perigo que ele representava no decorrer do mês passado. Mas eles levaram Washington a agir. O especialista Fawaz Gerges escreve que, meses atrás, Abu Bakr al-Baghdadi destacou que sua organização não estava pronta para atacar os EUA, mas "desejava que o país enviasse soldados à região para que o EI pudesse combater diretamente os americanos - e matá-los".

Não subestime o inimigo. O EI é um adversário duro, mas as forças que vão combatê-lo acabaram de se mobilizar. Se essas forças - o Exército iraquiano, os peshmergas curdos e a Força Aérea americana - trabalharem juntas de maneira coordenada, esse adversário começará a perder terreno. Além disso, é importante ter em mente que o grupo não controla um território tão vasto quanto o indicado nos mapas exibidos na TV. Boa parte desse "território" é um deserto vazio. As cidades do Iraque e da Síria estão dispostas ao longo de rios.

Embora o EI seja muito mais sofisticado do que a Al-Qaeda em suas armas e tecnologia, o grupo apresenta uma fraqueza inerente fundamental. A Al-Qaeda era uma organização pan-islâmica, que buscava o apoio de todos os muçulmanos. O EI é claramente sectário. Trata-se de um sucessor da Al-Qaeda no Iraque, criado por Abu Musab al-Zarqawi com uma missão de combate aos xiitas.

Na verdade, foi por isso que a Al-Qaeda rompeu com Zarqawi, implorando a ele que não fizesse de outros muçulmanos seus inimigos. O EI é antixiita e nutre profunda hostilidade por curdos, cristãos e muitos outros habitantes do Oriente Médio. Isso significa que é grande o número de adversários do EI que irão combatê-lo, não por desejo dos americanos, mas em defesa dos próprios interesses.

É preciso lembrar dos aspectos políticos. Operações militares devem ser acompanhadas por uma estratégia política astuta. O EI é fruto direto da invasão americana e da decisão de dissolver o Exército iraquiano e "eliminar a influência do Partido Baath" na burocracia do país. O resultado foi uma população sunita alijada do poder e furiosa que deu início à insurgência. O recente documentário da Vice a respeito do grupo contou com entrevistas de alguns iraquianos sunitas para os quais era melhor viver no caos do EI do que sob o jugo do "exército xiita", como se referem ao governo iraquiano.

O governo de Obama mapeou uma estratégia inteligente para o Iraque, pressionando Bagdá a incluir mais os sunitas. Mas isso ainda não ocorreu. O Exército iraquiano não foi reconstituído para torná-lo menos partidário e sectário, tornando-se mais inclusivo e eficaz. Trata-se de uma questão fundamental, porque se os EUA forem vistos como defensores de dois regimes não-sunitas - Iraque e Síria - contra um levante sunita, os americanos não poderão vencer. E será difícil recrutar aliados na região. Embora sejam minoria no Iraque, os sunitas são a imensa maioria dos muçulmanos no Oriente Médio.

O aspecto sírio da estratégia do presidente é seu elo mais fraco. É impossível combater o EI sem fortalecer, na prática, o regime de Bashar Assad. Os EUA podem dizer que essa não é a intenção, mas isso não muda a realidade. O Exército Sírio Livre continua fraco e dividido em muitas milícias locais.

Obama prometeu "enfraquecer" o EI. Ótimo. Prometeu também "finalmente destruí-lo". Os americanos não conseguiram eliminar a Al-Qaeda. E, para destruir um grupo como esse, é necessário desarmar a dinâmica sectária que lhe confere força. Isso não cabe à Washington, mas os americanos podem facilitar esse processo ao pressionar os iraquianos e recrutar os sauditas e outras potências regionais.

A intervenção militar de Obama na região só vai funcionar se houver também uma intervenção política de intensidade igual ou superior. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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