A tempestade entre sauditas e americanos

Arábia Saudita está furiosa com a política externa dos EUA no Oriente Médio e pode tomar medidas desastrosas para os interesses de Washington na região

Simon Henderson, da Foreign Policy, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2013 | 02h01

O que está ocorrendo nas relações dos EUA com a Arábia Saudita? Depois que as mais altas autoridades do reino reclamaram que a duradoura aliança entre os dois países passa por um momento difícil, a resposta oficial de Washington, excetuados os especialistas, foi um bocejo quase audível. Supondo que as relações entre Riad e Washington estejam realmente se desviando do rumo, o que poderia dar errado? Aqui estão sete possíveis pesadelos que tirariam o sono dos funcionários do Departamento de Estado e do Pentágono

1. Arábia Saudita pode usar a arma do petróleo. O reino poderia reduzir a produção, atualmente superior a mais de 10 milhões de barris diários por solicitação de Washington, para contrabalançar a queda das exportações iranianas depois das sanções. Riad desfruta das receitas do aumento da produção. Por outro lado, a alta dos preços provocada pela redução da oferta compensaria o reino. Ao mesmo tempo, a queda da oferta produziria uma alta do preço nos postos de gasolina dos EUA, prejudicando a recuperação econômica com um impacto quase imediato na opinião pública americana.

2. Riad compra do Paquistão mísseis com ogivas nucleares. Há muito tempo os sauditas têm interesse no programa nuclear de Islamabad. O reino teria financiado parte do projeto de uma arma nuclear do Paquistão. Em 1999, a convite do premiê paquistanês, Nawaz Sharif, o então ministro saudita da Defesa, o príncipe Sultan, visitou a usina de Kahuta, onde o Paquistão produz urânio enriquecido. Destituído pelos militares, no final daquele mesmo ano, Sharif volta agora ao cargo de primeiro-ministro - após um exílio na Arábia Saudita. Embora Islamabad não deva querer se colocar entre Riad e Teerã, o arranjo pode ser lucrativo do ponto de vista financeiro. Por outro lado, o reino poderia declarar sua intenção de construir uma usina de enriquecimento de urânio, emulando as ambições nucleares iranianas - medida com a qual, segundo Riad, Washington parece concordar. Como o rei Abdullah disse ao diplomata americano Dennis Ross, em 2009: "Se eles conseguirem construir armas nucleares, nós também conseguiremos".

3. Riad poderia ajudar a expulsar os EUA do Bahrein. Quando o Bahrein foi abalado pelos protestos em 2011, a Arábia Saudita liderou uma intervenção de países do Golfo para sustentar o poder da família real. Portanto, os sauditas têm influência suficiente para estimular o Bahrein a forçar a Quinta Frota da Marinha americana a deixar seu quartel-general em Manama, que permite aos EUA exercer o seu poderio no Golfo Pérsico. Não seria difícil vender a ideia. Os membros mais agressivos da família real do Bahrein já estão cansados das críticas americanas à repressão interna a xiitas que reivindicavam direitos mais amplos. No entanto, tal decisão teria um impacto profundamente negativo para o poderio americano no Oriente Médio. Por outro lado, seria difícil estabelecer acordos como os atuais com a Quinta Frota em outra parte do Golfo. Além disso, já existe um antecedente. Há dez anos, Riad forçou os EUA a saírem da base aérea Príncipe Sultan.

4. O reino fornece armas novas e perigosas aos rebeldes sírios. Os sauditas intensificaram sua intervenção contra o regime de Bashar Assad, enviando dinheiro e armas aos grupos salafistas mais agressivos em toda a Síria. Mas, até o momento, eles têm atendido às advertências dos EUA para que não forneçam determinadas armas aos rebeldes, principalmente sistemas de mísseis terra-ar, que não só derrubariam os aviões de Assad como também aviões civis. A Arábia Saudita poderia abolir a proibição do envio dessas armas aos rebeldes e ocultar a origem dos mísseis, para não ser culpada diretamente pelo caos que elas provocam.

5. Os sauditas financiam uma nova

Intifada nos territórios palestinos. Riad manifesta há muito tempo sua frustração pelo fato de não haver qualquer avanço no acordo de paz israelense-palestino. A Palestina foi a principal razão para a rejeição da cadeira no Conselho de Segurança da ONU. O tema é também muito caro ao rei Abdullah. Em 2001, ele recusou um convite para ir a Washington porque os EUA não pressionavam suficientemente Israel. Além disso, Riad sabe que se fizesse o jogo dos países árabes ganharia pontos em casa e em toda a região. Se a Arábia Saudita acredita de fato que a perspectiva de um acordo está irreparavelmente suspensa, poderá armar sem estardalhaço elementos combativos na Cisjordânia capazes de lançar ataques contra forças e colonos israelenses, comprometendo os atuais esforços de mediação conduzidos pelo secretário de Estado dos EUA, John Kerry.

6. Riad apoia o regime liderado pelos militares no Egito. A família real saudita já se tornou um dos mais importantes patrocinadores do país e prometeu US$ 5 bilhões em assistência imediatamente depois que os militares derrubaram o presidente Mohamed Morsi. Graças ao seu apoio, os novos governantes egípcios ignoraram as ameaças de corte da ajuda de Washington em razão da violenta repressão do governo contra os manifestantes. Intensificando seu apoio, a Arábia Saudita poderá prejudicar ainda mais a tentativa de Washington de reconduzir o Cairo a um governo democrático. Enquanto o Egito se prepara para a realização de um referendo sobre uma nova Constituição e para eleições parlamentares e presidenciais, o respaldo do Golfo poderia convencer os generais a fraudar os votos contra a Irmandade Muçulmana e esmagar violentamente toda oposição ao seu governo.

7. Riad exige uma cadeira islâmica no Conselho de Segurança da ONU. Há muito tempo o reino está descontente com a divisão do poder no mais importante organismo de segurança do mundo. Os líderes da Organização da Cooperação Islâmica, bloco composto por 57 países que defende questões muçulmanas nos assuntos mundiais, pediram uma "cadeiras islâmica" no Conselho de Segurança da ONU. Evidentemente, os EUA e outros países que têm poder de veto se oporiam a qualquer tentativa de reduzir o seu poder no organismo. Mas, mesmo que o plano saudita fracasse, Riad poderá alegar que a oposição americana é anti-islâmica, destruindo a imagem americana no Oriente Médio e fornecendo material perigoso para extremistas sunitas já hostis aos EUA.

Os que transitam pelos corredores do poder em Washington, indubitavelmente, veriam essas eventuais medidas sauditas como contrárias aos próprios interesses. Entretanto, seria um erro ignorar a frustração de Riad. Se Washington pensa que os sauditas estão blefando, funcionários de alto escalão no reino acreditam, por sua vez, que os EUA blefam em relação ao compromisso por eles assumido com uma série de decisões antagônicas aos interesses sauditas. A grande diferença é que a tensão no relacionamento é a principal prioridade na Arábia Saudita, ao passo que ocupa praticamente o último lugar na lista de preocupações do governo Obama. (Tradução de Anna Capovilla)  

 

*É bolsista no Institute for Near East Policy, em Washington

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