A tortura não ajudou a segurança nacional

Durante sete anos mantive o silêncio sobre as afirmações falsas que exageravam a eficiência de técnicas de interrogatório, como a do afogamento. Até agora, limitei-me a falar em audiências oficiais a portas fechadas por se tratar de matéria sigilosa. Mas a divulgação, na semana passada, de quatro memorandos do Departamento de Justiça sobre esta questão permite-me lançar alguma luz sobre a história e destacar lições que devemos aprender. Uma das partes mais impressionantes dos memorandos é a falsa premissa sobre a qual se baseiam. O primeiro, datado de agosto de 2002, autoriza o emprego de técnicas violentas de interrogatório para um dos principais terroristas, Abu Zubaydah, alegando que os métodos anteriores não funcionaram. Os outros três documentos falam dos sucessos alcançados por estas técnicas como justificativa para que seu uso. No entanto, é incorreto afirmar que Abu Zubaydah não cooperou. Eu e outro agente do FBI, na presença de funcionários da CIA, o interrogamos de março a junho de 2002, antes que as técnicas mais violentas fossem adotadas, em agosto daquele ano. Com os métodos tradicionais, ele nos forneceu informações confiáveis. Por exemplo, descobrimos que Khalid Sheik Mohamed foi o articulador dos ataques de 11 de Setembro. Zubaydah falou também de José Padilla, chamado de "terrorista sujo". Essa experiência confirma o que eu havia concluído ao longo da minha carreira no combate ao terrorismo: os métodos tradicionais de interrogatório permitem identificar espiões, descobrir complôs e salvar vidas. No caso de Zubaydah, com o emprego de técnicas mais violentas não foram obtidas informações confiáveis. Além disso, pude constatar que o uso desses métodos alternativos com outros terroristas provocara o efeito contrário em diversas ocasiões. A visão míope por trás do emprego dessas técnicas ignorava que não se poderia confiar nestes métodos, a natureza da ameaça, a mentalidade e o modus operandi dos terroristas, e o processo legal devido. Os defensores dessas práticas afirmam que as informações que conseguiram extrair de Zubaydah levaram à captura de Padilla e de Ramzi bin al-Shibh, um dos principais assessores de Sheik Mohamed. É mentira. A informação que levou à captura de Shibh foi obtida de outro terrorista interrogado por métodos tradicionais. Quanto a Padilla, as datas não batem: as técnicas violentas foram aprovadas no memorando de agosto de 2002, e ele foi preso em maio daquele ano. Uma das consequências mais graves do emprego desses métodos foi a reintrodução da chamada "Muralha da China", entre a CIA e o FBI, obstáculo na comunicação que impediu a colaboração que evitaria os ataques de 11 de Setembro. Como o FBI não empregava essas técnicas, nossos agentes - que tinham maior conhecimento dos terroristas - não puderam participar da investigação. Um colega do FBI, que estava mais informado a respeito de Sheik Mohamed do que qualquer outro funcionário do governo, não teve permissão para falar com ele. Divulgar esses memorandos foi a decisão mais correta, porque é preciso que a verdade seja mostrada. O debate que se seguiu ao aparecimento dos documentos concentra-se na possibilidade ou não de processar os agentes da CIA por sua atuação no emprego das técnicas violentas. Isso seria um erro. Quase todos os funcionários da agência com os quais trabalhei eram pessoas decentes, que também achavam os métodos de interrogatório antiamericanos, ineficazes e prejudiciais à segurança nacional. Felizmente, depois que discordei desses métodos, Pat D?Amuro, um diretor do FBI, declarou: "Nós não fazemos isto", e fui excluído dos interrogatórios por Robert Mueller, diretor do departamento de investigações. Por outro lado, meus colegas da CIA foram instruídos a continuar. Daqui em diante, é importante não permitir que a questão da tortura prejudique a reputação e a eficiência da CIA. A agência é essencial para a segurança dos EUA. Devemos garantir que os erros que permitiram o uso dessas técnicas nunca mais se repitam. Tivemos um bom começo: o presidente dos EUA, Barack Obama, determinou que as técnicas de interrogatório se limitem às normas estabelecidas no Manual de Campo do Exército, e Leon Panetta, diretor da CIA, diz que proibiu que se recorra a prisões terceirizadas e às prisões secretas destinadas aos suspeitos de terrorismo no exterior. *Ali Soufan foi agente especial da CIA, com funções de supervisor, de 1997 a 2005

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