A tragédia do silêncio nos EUA

Diante da omissão de grupos que defendem o controle de armas de fogo, o lobby armamentista ganha espaço

É COLUNISTA, CHARLES M., BLOW, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, CHARLES M., BLOW, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2012 | 02h03

Mais um dia, mais uma chacina nos EUA. Quando e como isso irá acabar? Aliás, será que acabará? Na sexta-feira, um indivíduo identificado como Adam Lanza, de 20 anos, matou 26 pessoas, incluindo 20 crianças de 5 a 10 anos de idade, numa escola primária de Connecticut. Segundo informações, ele teria assassinado a própria mãe, uma professora de jardim de infância da escola, antes de se matar.

Não faz muito tempo, Jacob Roberts, de 22 anos, armado de uma metralhadora semiautomática AR-15, com carregadores de reserva e usando uma máscara de hóquei, entrou num centro comercial em Oregon, onde havia cerca de 10 mil pessoas, e começou a atirar. Matou dois e depois tirou a própria vida.

Visivelmente abalado, o presidente Barack Obama afirmou, depois do assassinato em massa de sexta-feira na escola: "O nosso país já passou por isso vezes demais". E prosseguiu: "Precisamos nos unir e agir de maneira ponderada para impedir tragédias como essa, independentemente de política".

Concordo. Só espero que nos próximos dias possamos discutir o que significa "agir de maneira ponderada" em termos de política. E, se não for agora, quando será? Depois da próxima chacina? Quantas mortes e quantas chacinas mais serão necessárias para que Washington comece uma discussão profunda sobre um controles de armas com maior sensatez? O que será preciso para que os nossos políticos assumam posições de princípio a respeito de medidas na questão do porte de armas e enfrentem o lobby dos fabricantes? Seguramente, este é o momento de todos nós nos manifestarmos.

Contracorrente. Na falta de uma forte organização que lute pelo controle de armas, muitos americanos reagem a tragédias como a de sexta-feira de maneiras indesejáveis. Segundo um relatório de agosto da Bloomberg News, "as verificações do histórico de indivíduos que compram armas subiram 41% no Colorado depois que 12 pessoas foram mortas num cinema de bairro de Denver, segundo dados estaduais".

E, enquanto os defensores do controle de armas se calavam ultimamente, o lobby da indústria tornou-se mais forte e mais aberto. Segundo um relatório divulgado na sexta-feira pelo Center for Responsive Politics, da organização Open Secrets, "para os grupos defensores do direito de portar armas, a campanha eleitoral de 2012 foi a mais ativa desde 2000. Eles contribuíram com um total de US$ 3 milhões aos candidatos, 96% deles republicanos".

Por outro lado, a associação destacou que "os grupos de controle de armas contribuíram menos nessa campanha eleitoral do que em qualquer outra, desde que a Open Secrets começou a compilar esse tipo de dado, em 1990".

Segundo o site Think Progress, Larry Pratt, o diretor executivo da associação dos Proprietários de Armas dos EUA, não perdeu tempo e procurou atribuir a chacina de sexta-feira aos defensores do controle. Ele divulgou um comunicado que dizia: "Os defensores do controle de armas têm o sangue dessas crianças em suas mãos. As leis federais e estaduais juntaram-se para garantir que nenhum professor, nenhum administrador, nenhum adulto tenha uma arma na escola de Newtown, onde as crianças foram assassinadas. Essa tragédia enfatiza a urgência de acabar com a proibição de armas nas áreas das escolas".

É escandaloso. É algo extremamente desolador. Não surpreende que a opinião pública esteja deixando de se mostrar favorável ao controle de armas. O instituto Gallup mostrou que o número de americanos que acreditam que essas leis deveriam ser mais rigorosas caiu mais de 40% de 1991 a 2011. E concluiu também que, pela primeira vez, no ano passado, "a oposição à proibição de armas semiautomáticas e fuzis de assalto foi maior do que o apoio: 53% a 43%. Quando essa pergunta foi feita inicialmente, em 1996, os números mostraram quase o contrário: 57% a favor e 42% contra a proibição".

Tanto o atirador de Oregon quanto o de Connecticut tinham armas semiautomáticas. A averiguação dos antecedentes criminais e de doenças mentais dos possíveis compradores de armas ajuda, mas não é suficiente e nem sempre é feita. Os autores de chacinas não têm necessariamente antecedentes criminais e, aparentemente, não têm qualquer problema para obter as armas legalmente.

Uma análise divulgada meses atrás, pela revista de esquerda Mother Jones sobre as 61 chacinas ocorridas nos EUA nos últimos 30 anos, concluiu: "Das 139 armas que os assassinos possuíam, mais de 75% delas foram obtidas legalmente".

Devemos voltar a instituir a proibição dos fuzis de assalto. As armas de tipo militar devem ficar nas mãos do pessoal militar e, talvez, da polícia, mas não nas mãos de civis. A grande maioria das chacinas ocorridas nos últimos 30 anos envolveu armas de assalto e pistolas semiautomáticas, segundo a revista.

Mesmo que você acredite, como a maioria dos americanos, que a Segunda Emenda garanta o direito de carregar armas, é necessário admitir também o direito de outros americanos de não carregar essas armas e de se sentirem seguros. Onde estão as vozes dos que optaram por não possuir armas - será que não têm idade suficiente para isso? Os que não usam armas não precisam ter defensores? Será que os nossos políticos se submeterão eternamente ao lobby da indústria de armas? / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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