A transformação da Al-Qaeda

Após o 11 de Setembro, grupo torna-se difuso, espalhando-se por todo o mundo islâmico

OREN, DORELL, USA TODAY, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2014 | 02h03

A Al-Qaeda que atacou os EUA em 11 de setembro de 2001 não é a mesma Al-Qaeda que os americanos combatem atualmente. Anteriormente com sede no Afeganistão e com um líder forte que comandava ataques contra capitais ocidentais, o grupo fundamentalista islâmico se tornou um movimento difuso com tentáculos que ameaçam países em todo o mundo muçulmano.

A liderança da Al-Qaeda foi expulsa de seu antigo santuário no Afeganistão e enfraquecida pelos ataques com aeronaves não tripuladas (drones) dos EUA no Paquistão. Valeu-se do caos criado pelas revoluções da Primavera Árabe iniciadas em 2011 e aliou-se a insurgências que controlam territórios no Norte da África e Oriente Médio - Nigéria, Mali, Líbia, Somália, Iêmen, Síria e Iraque. "A Al-Qaeda se tornou mais fraca, e seus grupos afiliados, mais fortes", disse Patrick Johnston, analista de terrorismo da consultoria RAND.

Alguns exemplos:

• O Egito combate a Al-Qaeda e insurgentes islâmicos na Península do Sinai.

• Os Emirados Árabes Unidos e o Egito enviaram jatos à Líbia para bombardear milícias islâmicas que tentam derrubar o governo em Trípoli, que opera no exílio.

• A Al-Qaeda da Península Arábica, que combatia no Iêmen, se espalhou por toda a península, chegando à Jordânia, e há elementos da Al-Qaeda se espalhando pela Síria e pelo Iraque. O Estado Islâmico, que nasceu da Al-Qaeda, mas rompeu com a organização, emergiu como principal preocupação de segurança dos EUA no Oriente Médio.

• O Al-Shabab, grupo afiliado à Al-Qaeda na Somália, se espalhou para Uganda e Quênia.

• O Boko Haram, grupo ligado à Al-Qaeda na Nigéria, espalhou-se da cidade de Kano e chegou a boa parte do nordeste de Nigéria e Camarões.

O governo Obama assumiu o crédito por enfraquecer o "núcleo da Al-Qaeda", mas reconhece que os movimentos nascidos da organização e seus tentáculos continuam uma ameaça. "Continuamos a enfrentar elementos simpáticos à Al-Qaeda ou ligados à ideologia da organização em outras partes remotas do mundo, que representam uma ameaça aos EUA, aos interesses americanos e aos nossos aliados", disse recentemente o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest.

Analistas dizem que as múltiplas insurgências trazem mais perigo para os aliados dos EUA na região e para a Europa, mais próxima, mas são divergentes as opiniões quanto ao risco trazido por elas para o território americano.

Insurgências ligadas à Al-Qaeda ameaçam aliados importantes e a capacidade dos EUA "de garantir a própria segurança e desenvolver relações comerciais com o restante do mundo", disse Juan Zarate, que foi conselheiro do presidente George W. Bush para assuntos ligados ao terrorismo. O risco para o território americano aumenta quando os grupos terroristas contam com santuários a partir dos quais organizam suas operações, disse ele.

Embora isso seja verdadeiro, as medidas de espionagem e segurança aérea implementadas nos EUA depois do 11 de Setembro tornam a maioria dos ataques planejados contra o país "extremamente difícil de executar", disse William McCants, analista de terrorismo da Brookings Institution.

Os ataques de 11 de Setembro foram ordenados pelo líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, que tinha ordenado ataques suicidas contra alvos americanos no Iêmen, na Tanzânia e no Quênia. A meta: fomentar uma resposta americana que provocaria sentimentos antiocidentais, criando um movimento para substituir os regimes árabes aliados aos EUA por um império islâmico. Os ataques usando quatro aviões de carreira sequestrados derrubaram as Torres Gêmeas do World Trade Center e deixaram crateras no Pentágono e num campo da Pensilvânia, provocando quase 3 mil mortes. Levaram o presidente George W. Bush a ordenar a invasão do Afeganistão que tirou do poder o Taleban, acabando com o santuário dado pelo grupo extremista islâmico a Bin Laden e seus seguidores.

Desde então, centenas de operações especiais americanas e ataques com drones dizimaram as fileiras da liderança da Al-Qaeda na região da fronteira entre Afeganistão e Paquistão. Bin Laden foi morto numa operação dos Seals, forças especiais da marinha, ordenada por Obama em 2011.

A Al-Qaeda sobreviveu porque tinha tentáculos em outros países muçulmanos, onde o grupo difundiu sua ideologia, seus combates e suas táticas. "Entre 2001 e o início da Primavera Árabe, muitos desses tentáculos se converteram em cabeças e, agora, essas cabeças espalham seus próprios tentáculos", disse Walid Phares, conselheiro para assuntos ligados ao terrorismo a serviço de membros do Congresso.

"O governo americano estava atacando a antiga cabeça no Paquistão e Afeganistão, mas as novas cabeças continuaram a crescer." Os anseios democráticos da Primavera Árabe de 2011 levaram à queda de ditadores em Tunísia, Egito, Iêmen e Líbia. Os protestos e revoltas levaram a fugas em massa nas prisões ou à anistia para jihadistas que passaram anos atrás das grades, fornecendo novos líderes e soldados para a causa islâmica. Todo esse caos ajudou a "reavivar a sorte do movimento jihadista global", disse McCants.

Além disso, as guerras civis na Síria e na Líbia colocaram imensos arsenais nas mãos de grupos militantes, disse McCants. "Antes, eles combatiam para se opor à presença americana na região e para derrubar governos. Agora, combatem para garantir seu controle sobre o território num vácuo de segurança." A rápida expansão dos militantes que controlam territórios em países como Mali, Iêmen, Síria e Iraque desde 2011 indica uma diferença em relação à Al-Qaeda, que se escondeu nas cavernas do Afeganistão e comandava ataques terroristas a partir das sombras.

Já em 2013, novos grupos operando sob o manto da Al-Qaeda mostravam-se mais fortes do que a antiga Al-Qaeda e "os comandantes locais nesses países concluíram que estavam se tornando os novos líderes da Al-Qaeda", disse Phares. Atualmente, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Egito, Jordânia e Líbano mobilizaram soldados para conter a ameaça a seus territórios e outras regiões, pois "ficaram assustados", disse ele. "Eles sabem que têm dentro de suas fronteiras jihadistas com os quais se preocupar." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É JORNALISTA

Mais conteúdo sobre:
Visão GlobalAl-Qaeda

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.