A transformação do mundo

O mundo está mudando a uma velocidade difícil de processar, interpretar e digerir. Mais difícil ainda é antecipar suas consequências. Um relatório do banco Goldman Sachs oferece uma arbitrária, mas reveladora amostra quantitativa das mudanças ocorridas entre 2010 e 2015.

MOISÉS NAÍM*, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2016 | 02h55

Neste período, a oferta mundial de petróleo aumentou 11% e seu preço caiu 60%. O preço do ferro baixou ainda mais, 77%, e o da alimentação 30%. Quais foram os preços que aumentaram? Entre outros, o do cacau, 11%, e do Lítio, 27%. Estas altas são impulsionadas pela demanda de uma nova e mais numerosa classe média que come mais chocolate e compra mais celulares com baterias de lítio. A penetração destes telefones passou de 19% da população para 75%, e os preços da telefonia celular caíram 58%. Em breve, quase toda a humanidade terá acesso à telefonia móvel, contribuindo para a digitalização já extremamente veloz da vida cotidiana.

Em 2010, o Facebook tinha 600 milhões de usuários ativos por mês. Hoje, 1,6 bilhão de pessoas o usam mensalmente. O YouTube recebia 24 horas de vídeos a cada minuto, enquanto, no ano passado, recebeu 400 horas por minuto. O número de viajantes que se alojaram em quartos ou foram morar em casas oferecidos via Airbnb saltou de 47 mil para 17 milhões. Os artigos disponíveis na Wikipédia aumentaram de 17 milhões para 37 milhões.

Nestes cinco anos, também ocorreu uma revolução energética. Não só o preço do petróleo despencou, como os Estados Unidos superaram a Arábia Saudita e a Rússia como produtores. O preço de uma lâmpada LED caiu 78%, o de uma bateria de Li-Ion 60% e o custo da energia solar em 37%. A eficiência no uso do combustível de uma caminhonete Ford F-150 aumentou 29%. Em 2010, a companhia de maior valor de mercado no mundo era a Petrochina. Em 2015, foi a Apple.

Profundas mudanças também ocorreram no mundo do trabalho. Os salários continuaram estagnados nos países mais avançados, enquanto na China aumentaram 54%. Muitos acham que o desemprego e os baixos salários se devem à automação e ao fato de os robôs estarem substituindo os trabalhadores. De fato, nos EUA, o número de robôs industriais vendidos nos últimos cinco anos cresceu 89%. Entretanto, o número total de robôs em uso é ainda muito baixo e o seu impacto sobre o emprego ainda não é significativo.

Outro relatório divulgado recentemente também lança uma luz interessante sobre as grandes transformações em curso. Nos últimos dez anos, o Fórum Econômico Mundial vem preparando seu Relatório Anual de Riscos Globais. O documento usa como base as percepções de 750 conceituados especialistas de diferentes áreas e países a respeito dos principais riscos que o mundo enfrenta. Durante muitos anos, a crise econômica mundial ocupou o primeiro lugar das preocupações dos especialistas. Agora, não mais.

Na edição deste ano, a questão das mudanças climáticas chega ao primeiro lugar como a mais grave e de maior impacto entre todos os riscos contemplados. A seguir, vêm a proliferação de armas de destruição em massa, os conflitos em razão da escassez da água, e os enormes movimentos migratórios involuntários.

Entretanto, é possível que, com o aquecimento global, a mudança mais importante dos últimos anos seja o aumento da nossa capacidade de alterar a biologia. Em 2010, o custo do sequenciamento de um genoma era US$ 47 mil. Cinco anos mais tarde, caiu para US$ 1,3 mil. E continua caindo. Será um risco ou uma oportunidade? / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* MOISÉS NAÍM É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT EM WASHINGTON

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