A Tunísia conseguirá tornar-se democrática?

O que estamos presenciando é uma revolução demográfica, a revolta de uma juventude frustrada com líderes corruptos e antiquados, não um levante ideológico ou religioso

Anne Applebaum, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2011 | 00h00

Manifestações de rua violentas seguidas da queda de um ditador são uma maneira estimulante de levar a democracia a uma sociedade autoritária, mas não é a melhor.

Enquanto você assiste ao desenrolar da Revolução de Jasmim da Tunísia, lembre-se disso: protestos de rua podem inesperadamente levar os extremistas ao poder, como vimos no Irã, em 1979; podem criar expectativas irreais, como na Revolução Laranja, na Ucrânia, em 2004; e podem terminar mal, com uma reação violenta do regime, como ocorreu nas manifestações na Praça da Paz Celestial, na China, em 1989.

Inversamente, as mais bem sucedidas transições para democracias, com frequência, não tiveram tanta força dramática. Foi o caso da Espanha, após a morte de Francisco Franco; do Chile, depois da renúncia de Augusto Pinochet; e da Polônia, que negociou seu afastamento do comunismo. Todas essas transições democráticas foram prolongadas. Deram ensejo a poucas fotos espetaculares e resultaram em sistemas políticos estáveis.

Mas todas elas se tornaram possíveis porque seus líderes autoritários reconheceram que o jogo estava perdido ou que, como Franco, tiveram o bom senso de morrer.

O deposto presidente da Tunísia Zine el-Abidine Ben Ali, desde sábado morando na Arábia Saudita, não teve essa perspectiva. Em vez disso, criou partidos de oposição e um Parlamento que eram embustes, criou um regime draconiano que controlava a internet e, esporadicamente, espancava dissidentes para manter todos aterrorizados. Um amigo francês que esteve na Tunísia algumas semanas atrás me disse que os jornais eram tão favoráveis ao presidente que os artigos publicados pareciam ter sido escritos pela mãe de Ben Ali.

Mas essa recente explosão de fúria na Tunísia não era apenas previsível, mas foi prevista: há três anos, estive por um período muito curto em Túnis e as pessoas ali falavam principalmente dos jovens universitários desempregados. Segundo alguns, eles seriam os próximos emigrantes; outros se preocupavam que eles pudessem se envolver com o extremismo islâmico; e muitos temiam que o caos no Iraque poderia dissuadi-los da ideia de democracia.

Há um mês, eles voltaram às manifestações de rua. Até agora, não houve uma revolução islâmica - mas também não se trata de uma revolução democrática. O que estamos presenciando é uma revolução demográfica: a revolta de jovens frustrados contra os velhos líderes corruptos.

Qualquer pessoa com conhecimento dos dados sobre a população e a situação do emprego na Tunísia teria imaginado que isso ocorreria. E muitos conseguiram prever.

Mas se o levante era tão óbvio, por que sua explosão não foi antecipada, administrada, direcionada para eleições?

Se foi possível no Chile, por que não na Tunísia? Claramente, Ben Ali e sua família estavam tranquilos demais e ricos demais. Ao contrário dos espanhóis e dos poloneses, Ben Ali não compartilhava um continente com outras democracias. Na guerra contra o terrorismo, ele encontrou uma maneira de justificar seu autoritarismo. Como um aliado no combate ao radicalismo islâmico, ele claramente evitou a pressão americana.

Mas os Estados Unidos não são tão importantes na Tunísia, onde a França, ex-potência colonial e uma grande investidora no país, favoreceu e apoiou Ben Ali durante décadas, com material e ideologia.

Enquanto os franceses do século 18 criaram a moderna filosofia da democracia, o mundo do jornalismo escrito e falado na França contemporânea desenvolveu uma espécie de filosofia da antidemocracia.

Repudiando os americanos e sua crença ingênua na "promoção da democracia", um colunista do Le Figaro afirmou que todas as nações têm "direito à sua própria história", que é mais importante do que o "direito à democracia", seja qual for seu significado.

Com base nessa escola de pensamento, Ben Ali foi um ditador modelo: defendeu os direitos femininos, educou sua classe média, impediu que extremistas islâmicos chegassem ao poder - e isso foi tudo. O ex-presidente francês Jacques Chirac declarou certa vez que "os direitos humanos mais fundamentais são os de a pessoa se alimentar, ter saúde, ser educada e abrigada". Com base nesse critério, concluiu que a Tunísia, nesse campo, estava "muito avançada".

Ben Ali com certeza acreditava nisso. Publicamente, jorrava a retórica da falsa "reforma". Ao mesmo tempo, seu círculo corrupto - muitos chegaram à França no último fim de semana, instalando-se num hotel próximo à Disneylândia de Paris - criava uma sociedade estagnada e atrofiada em que jovens de formação universitária e as garotas de jeans tinham poucas perspectivas e sabiam disso.

Os protestos começaram com o dramático suicídio público de um universitário de 26 anos que foi impedido de ganhar a vida como vendedor ambulante. E cresceram rapidamente porque foram muitos os jovens que se solidarizaram com ele.

Os franceses ficaram surpresos. A elite tunisina também se surpreendeu. Se não tivessem se surpreendido - se não tivessem, como seus contrapartes no Egito ou na Bielo-Rússia, sido corrompidos por sua própria ideologia antidemocrática e o discurso de uma ditadura benevolente - podíamos estar presenciando uma transferência pacífica e tranquila de poder em Túnis, em vez de rebeliões nas ruas. Estou feliz por aplaudir a partida de Ben Ali. Espero que o governo que será constituído agora propicie aos tunisianos mais liberdade e prosperidade. E estou confiante de que ele o fará. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.