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A Turíngia sacode a UE

Resultado de eleições locais fizeram todos os olhos se voltarem para o Estado simples, rural e pouco povoado

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2020 | 06h00

A Turíngia é um cantinho da Alemanha que tem tudo para agradar. Pequeno Estado simples, rural e pouco povoado. Com 2,1 milhões de habitantes, representa apenas 2% da população. Quem visita a região, admira a beleza de suas paisagens, vilarejos saídos diretamente da Idade Média, monumentos, sua alegria de viver.

A pequena capital Erfurt abriga o convento agostiniano que teve entre seus noviços Martinho Lutero – um homem não especialmente conformista, que desafiou o papa e criou o protestantismo. O jovem Lutero viveu lá apenas três anos, de 1505 a 1508. Desde então, muita água correu debaixo das pontes de Erfurt, mas a Turíngia sempre ficou ao largo das grandes oscilações políticas.

Ficou. Hoje toda a Alemanha tem os olhos voltados para o Estado onde se realizaram eleições para o governo local. A chanceler alemã, Angela Merkel, interrompeu uma viagem à África para voltar a Berlim, onde deu uma declaração de rara violência contra as eleições: “O resultado deveria ser anulado”.

Por que essa mulher tão experiente, tão senhora de seus nervos, espumou de cólera? É que o resultado foi inquietante. O partido de Merkel, a União Democrata-cristã (CDU), que vem perdendo gás há algum tempo, sofreu nova derrota. O resultado da Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema direita, relegou a CDU a um humilhante terceiro lugar. A AfD dobrou sua força em relação à eleição anterior, com uma enorme votação de 23,4%. Entretanto, nem isso justifica o descontrole de Merkel. A verdadeira causa é outra.

O vencedor inesperado foi um membro obscuro do Partido Liberal, Thomas Kemmerich. Ele só conseguiu maioria após o apoio da AfD. Pior ainda: ficamos sabendo que essa estranha eleição foi planejada como uma espécie de golpe para o qual concorreram, além da extrema direita, o pequeno Partido Liberal e uma parte da própria CDU.

Uma bizarra coalizão da extrema direita com alguns deputados conservadores descontentes fez voar em pedaços uma regra sacrossanta até agora: a de não poder haver jamais nenhum tipo de cooperação entre a CDU e a extrema direita. E a AfD não é apenas um partido de direita – é uma formação na qual muitos membros influentes não escondem sua simpatia pelos nazistas do Terceiro Reich. 

Esse é o verdadeiro motivo do destempero da chanceler: o medo de um retorno às ideologias mortíferas do passado, mesmo com o deputado de fachada – Kemmerich – tendo renunciado à presidência um dia após ser eleito.

A Alemanha não é o único país a se preocupar com o fascismo. Outros na Europa veem crescer a cada dia o fascínio exercido pelos governos de força. O fascismo e o nazismo atraem inúmeros jovens inconformados com a crise moral das democracias. Na maior parte dos países europeus, ideologias deletérias se consolidam e esperam o momento favorável para saírem das sombras.

Na França, tivemos um Jean-Marie Le Pen, um dos primeiros líderes da atualidade a se orgulhar de seu filofascismo. Em ascensão, sua filha, Marine, que o sucedeu, está empatada nas pesquisas com Emmanuel Macron. E eis que surge uma terceira Le Pen, neta de Jean-Marie e sobrinha de Marine, trazendo na mochila ideologias ainda mais pestilentas que as do avô e da tia. 

Na Itália, Matteo Salvini propaga simpatia pelo fascismo e espera faminto chegar sua hora. Por toda parte, jovens de ultradireita se multiplicam, usando a arma preferida do fascismo: a violência. É real o medo que a eleição na Turíngia inspira em Merkel, que teme que as sombras do fascismo voltem a cobrir a Europa. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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