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A Turquia e o Egito

Nos confrontos que não chegam ao fim no Egito, depois do golpe dado ao mesmo tempo pelo povo e pelo Exército egípcio contra o poder islâmico da Irmandade Muçulmana, grupo liderado por Mohamed Morsi, a Turquia toma claramente partido pelo presidente deposto.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2013 | 02h01

A agência de notícias oficial turca Anatólia retransmite ao vivo todas as manifestações organizadas no Cairo pelos partidários do líder destituído contra a nova equipe levada ao poder pelos militares. O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, também islamista, declarou: "Meu presidente no Egito é Mohamed Morsi, porque ele foi eleito pelo povo. Considerar as coisas de maneira diferente seria menosprezar o povo."

É um comportamento lógico. Há algumas semanas, revoltas violentas eclodiram em Ancara contra Erdogan. Ele temeu que seu poder fosse abalado pelos revoltosos. No entanto, o premiê não é um ditador. Chegou ao poder por meio de eleições. Portanto, é natural que, no caso do Egito, e pensando talvez em sua própria situação, Erdogan invoque a "legitimidade democrática" de Morsi e recrimine o fato de o Exército do Egito ter atropelado os princípios sagrados da democracia.

Outro motivo explica a solidariedade do turco Erdogan com o presidente Morsi: ambos são islamistas. Erdogan foi analisado com frequência e apresentado como o homem que, dez anos atrás, lançou uma vasta operação para apagar a marca deixada na Turquia pelo patriarca da república turca moderna, Mustafá Kemal Ataturk.

Em 1923, Ataturk pôs fim ao Império Otomano, substituiu o alfabeto árabe pelos caracteres latinos, impôs trajes ocidentais, aboliu a poligamia, laicizou a sociedade turca e colocou o Exército no próprio coração da nova Turquia.

Tudo isso forma um quadro coerente. Entretanto, analistas um pouco mais refinados desmontam toda essa construção e explicam que, contrariamente a essa visão sedutora e simplista, Erdogan, longe de ser o demolidor de Ataturk, é, na realidade, seu admirador.

Étienne Copeaux, do grupo de estudos sobre o Mediterrâneo, escreve que "os dirigentes do AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento, de Erdogan) adaptaram-se aos moldes da educação kemalista".

Mudanças. Segundo o jornalista e romancista Ahmet Altan, o AKP, partido islamista e conservador, reaproximou-se dos símbolos patrióticos e republicanos. A partir de 2014, Erdogan quer impor um regime presidencialista na Turquia.

"Desde que decidiu se tornar presidente, Erdogan virou general. Ele marcha como os generais dos quatro golpes de Estado que ocorreram na Turquia. Tem o mesmo estilo brutal, as mesmas teorias conspiratórias e o mesmo ódio pela oposição. Detesta a Europa e deseja se voltar para a Rússia e para a China. Vemos agora o nascimento de um novo kemalismo, só que religioso", afirmou Altan.

Resta a questão do Exército, que foi a espinha dorsal secularista do sistema de Mustafá Kemal. No entanto, Erdogan fez o que faltava para submeter os militares. "Ele dotou a polícia de poder. O Exército foi obrigado a obedecer. E já exerce sua força em benefício exclusivo do governo - e não, como nos tempos de Ataturk, está a serviço de uma ideologia turca", declarou Altan.

"Desde que Erdogan nomeou um novo chefe de Estado-Maior, o general Necdet Ozel, o Exército não é mais dirigido por sua ala nacionalista e laica. O Exército já é dirigido por generais que rezam", disse o escritor turco.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA.

* GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS.

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