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A Turquia no Supremo

Nenhum país aceitou pedidos de extradição como o que a Turquia fez ao Brasil

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2019 | 06h00

O Supremo Tribunal Federal deve julgar, na terça-feira, o pedido de extradição do turco naturalizado brasileiro Ali Sipahi, membro da organização Hizmet, classificada de “terrorista” pelo governo da Turquia. Sipahi foi preso no aeroporto de Guarulhos, quando desembarcava com a família, voltando de férias nos EUA, no dia 5 de abril. A “evidência” apresentada contra ele são depósitos de 1.700 liras turcas (cerca de R$ 1.900) feitos em sua conta no Bank Asya, em 2013. 

Segundo acusação do Ministério Público turco, controlado pelo presidente Recep Tayyip Erdogan, o banco era usado para financiar supostas atividades terroristas do Hizmet. Sipahi disse que os depósitos foram presentes de seu casamento, em 2013. O Asya era um banco comercial, com 5 milhões de correntistas.

O banco foi fechado depois da tentativa de golpe militar contra Erdogan, em julho de 2016. No poder desde 2002, Erdogan aproveitou o episódio, nunca esclarecido, para transformar o Hizmet em inimigo, e colocar-se como vítima do “terrorismo islâmico”. Não há provas do envolvimento do Hizmet e muito menos de ele ser terrorista.

O Hizmet foi fundado por inspiração das pregações do líder sufi Fethullah Gülen, que entrevistei em 2016 na Pensilvânia. O sufismo é uma corrente moderada do Islã, que defende o diálogo entre as religiões. Seu nome significa “serviço”, em turco, e tinha uma ampla rede de escolas e entidades filantrópicas, que conheci na Turquia, sustentada por doações de empresários e pelas receitas das mensalidades.

Gülen vive nos EUA desde 1999 e teve seu pedido de extradição negado. Os governos de Barack Obama e de Donald Trump rejeitaram a versão de Erdogan. Nenhum país aceitou pedidos de extradição como esse feito pela Turquia, e nenhum considerou o Hizmet uma organização terrorista. A Comissão de Direitos Humanos do Senado alerta que a extradição violaria diretos humanos e leis internacionais assinadas pelo Brasil. 

A entidade Conectas Direitos Humanos argumenta que não há tratado de extradição entre Brasil e Turquia, que a aceitação do pedido causaria temor na comunidade turca no Brasil de ser “extraditada apenas por discordância política com o governo de seu país de origem”. A Constituição e a Lei de Imigração proíbem extradição por crimes de opinião. O movimento tem mais de 200 membros no Brasil.

O Centro Cultural Brasil-Turquia, dirigido pelo Hizmet, mantém desde 2007 uma escola bilíngue na zona sul de São Paulo, com mais de 300 alunos, e há três anos dá gratuitamente aulas de turco, inglês, informática e robótica em uma escola de Duque de Caxias (RJ). Antes da perseguição, a Câmara de Comércio e Indústria Turco-Brasileira, dirigida por membros do movimento, organizou centenas de missões empresariais entre Brasil e Turquia. Com sede em São Paulo e filiais em Brasília, Rio e Belo Horizonte, a Câmara levou mais de mil empresários brasileiros para a Turquia. De acordo com a Fiesp, em três anos de atividades, o comércio entre Brasil e Turquia aumentou 35%.

Com o desmantelamento da rede pelo governo turco, os dirigentes do grupo abriram restaurantes, lojas de bijuterias, eletrônicos e hortifrútis para sobreviver. Sipahi abriu um restaurante turco com o presidente do Centro Cultural, Mustafa Goktepe. Ambos não sabiam cozinhar. Goktepe depois abriu um segundo restaurante com outro membro do Hizmet. 

Deram tão certo que eles se preparavam para expandir vendendo franquias. Goktepe também estava de férias nos EUA, e não voltou, com receio de ser preso. Cinco famílias deixaram o Brasil depois da prisão de Sipahi. Outras seguirão o mesmo caminho, se o STF o condená-los à extradição. O Brasil precisa de mais Alis e Mustafas, não de Erdogans. 

 

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